Ler Campos de Carvalho

Fui à Bulgária procurar por Campos de Carvalho, de Augusto Guimaraens Cavalcanti, 7 Letras, 2012: vertiginosa série de imagens e comentários dialogando com o autor de O púcaro búlgaro.

Observações, em troca de e-mails com Augusto, que também publicou Os tigres cravaram as garras no horizonte, poesia. Reproduzo (algumas, outras são pesquisa dele, a divulgar em seu tempo):

1. Curioso, Campos de Carvalho haver escolhido a Bulgária como destino dessa viagem sem sair do lugar. Foi uma terra de gnósticos: os paulicianos e bogomilos, ramificação do maniqueísmo – influenciaram os cátaros da Provença e Norte da Itália, comprovadamente. Comunidades de cátaros do Norte da Itália chegaram a receber comitivas de bogomilos por volta do ano 1000, para aprender maniqueísmo / gnosticismo (minha fonte: o artigo sobre cátaros no The New Cambridge of Medieval History de 2005, Cambridge University Press).

2. Sophia, a capital da Bulgária, homenageia a divindade gnóstica  que representa a sabedoria e inadvertidamente, por erro, cria o mundo ao engendrar o demiurgo Ialdabaoth. Resgatada por Jesus Cristo, conforme a Pistis Sophia. E transformada em Santa Sofia no cristianismo; muito cultuada na ramificação bizantino-ortodoxa.

3. A lenda ou mito da fraternidade e paridade de Cristo e Satã é dos bogomilos (Mircea Eliade em Mephistophèlés et l’androgyne): acreditavam que Satanaël fosse o primogênito de Deus e Cristo o segundo filho (comento em meu Um obscuro encanto: gnose, gnosticismo e a poesia moderna).

4. Bulgária, terra de alusões. A expressão bugres vem de búlgaros: não gostavam deles nem um pouco na Idade Média, por causa da dissidência religiosa – assunto que foi resolvido com intervenções militares de Bizâncio e o extermínio de praxe.

5. Pena não haver mais como perguntar a Campos de Carvalho: seus viajantes procuravam, não um país inexistente, porém uma religião extinta, uma mitologia que se tornou subterrânea? (tema inspira ensaio) (ou não, o ensaio já está aqui)

6. Dilma Rousseff, ao ir à Bulgária para visitar parentes: nenhum dos jornalistas e comentaristas que cobriram aquela viagem ou trataram dela teve o lampejo de associá-la à aventura criada por Campos de Carvalho.

7. Campos de Carvalho tornou-se assombração literária: às vezes aparece; é adaptado e encenado, estudado ou comentado; depois some de novo.

8. Quando o Brasil passará a ler alguns de seus melhores autores? – Além de O púcaro búlgaro, Vaca de nariz sutil, A Lua vem da Ásia e A chuva imóvel estão aí, à espera de mais leitores e estudiosos. Durante uma época, recebia consultas de pesquisadores por causa de meu “Campos de Carvalho: prosador surrealista?”, em http://www.revista.agulha.nom.br/ag4willer.html  – estranhei – motivo é que além desse meu artigo, não havia quase nada sobre ele.

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3 responses to this post.

  1. Um grande escritor imagético, irônico, sobretudo, irônico, sarcástico, visionário. Campos de Carvalho é um exército de lavas incessantes que rompem os tímpanos, os olhos, o fígado…surrealista no riso, autor que como Samuel Rawett pouco é comentado e estudado pelos críticos e leitores, querido Willer!

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  2. Fiz uma expedição à Bulgária de Campos de Carvalho através do teatro, com o espetáculo de Aderbal Freire Filho que tinha um dos cenários mais impressionantes que já vi , além do enredo de puro nonsense. Ando procurando os livros de Campos de Carvalho, mas é preciso encomendar nas livrarias, eles têm alguma coisa em catálogo, não tudo, e está sempre em alguma outra loja ou vão pedir à editora (rs). Da última vez foi assim, na Cultura, aqui em Campinas. Mais fácil achar nos sebos como Estante Virtual. Estou esperando justamente A Lua Vem da Ásia, A Vaca de Nariz Sutil. e A Chuva Imóvel, ou seja, quase tudo… bjs.

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  3. Posted by Raul Fiker on 30/01/2013 at 11:05

    Em 1963 deparei com a seguinte alegação no Vaca de Nariz Sutil: “Pago a pensão com a pensão que o Estado paga pelo meu estado.”

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