Poesia e cinema: Hitchcock

Conforme anunciado na postagem anterior, o poema sobre o cineasta. Poetas mentem: não foi escrito por ocasião de seu centenário. Percorria canais de TV e fui parar naquele que exibia o documentário, esse sim, para o centenário. Anotei as imagens do poema em um caderno; achei-o mais tarde. Data, não sei: mas foi depois da oficina relatada na postagem anterior, e antes do meu artigo na Reserva Cultural. Lido por Paulo Ortiz na sessão de leitura de poemas meus a 25/01.

CINEMAS

[…]

2

ANOTAÇÕES PARA MINHA BIOGRAFIA NO CENTENÁRIO DE ALFRED HITCHCOCK

sempre amei as imagens
               mas eu queria mesmo era ser um narrador
                            modo de assemelhar-me ao cineasta da vertigem

e foi assim que passei a sentir vontade de escrever
            sobre o mistério do rosto daquela mulher
            que segue ao encontro do aventureiro
            que a cada dia tem que reiniciar
            a dolorosa caminhada
            rumo à torre, à esquina, à margem, ao centro
            à fatal reconquista da felicidade a dois
            quando tão pouco importa o abismo
            pois a vida passa depressa demais
            e só queríamos um momento, um único instante nosso
– e agora sou eu
                   aquele que mergulha
                            no frio oceano da paixão

– agora sou eu
                  aquele que caminha
                                    cego e surdo

através do estrondo, da revelação, do clarão, da imensidão
                       para sempre prisioneiro dessa história
               da vida como risco permanente de um passo em falso
e agora sou eu

para quem as fachadas de San Francisco se fecham em círculo
cuidado
                          olhe bem
                         o efêmero está aí
é preciso desvendar
                                                                                        desvencilhar-se
                                                     para saber
                                                      quem fui
                                                     o que sou
                        cuidado

Anúncios

One response to this post.

  1. “quando tão pouco importa o abismo
    pois a vida passa depressa demais”

    Te ler é sempre atravessar um portal.

    Beijos, professor! Tenha um lindo fim de semana!

    Lu

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: