Vazio da Cultura?

Fui citado na edição desta semana da revista Carta Capital: “Se Paulo Coelho é escritor, raciocina o professor Claudio Willer, qualquer um que produza livros também deve ser incluído na estatística, sem que, para essa acuidade sociológica, esteja implícito um julgamento de valor artístico”.

É transcriação, por Rosane Pavam, do comentário no Facebook sobre o artigo de um sociólogo no suplemento Ilustríssima da Folha de S. Paulo. Também chamou a atenção de Wladyr Nader, que sugeriu ampliação para publicar em seu blog. Aí está:

http://escritablog.blogspot.com.br/2013/01/ultimas_26.html

A matéria de Rosane Pavam, intitulada “O belo não está à venda”, trata da “submissão ao mercado”: essa “impede que a arte relevante apareça”. Capítulo da pauta principal: “O vazio da cultura (ou a imbecilização do Brasil)”. No editorial, Mino Carta afirma: “Há muito tempo o Brasil não produz escritores como Guimarães Rosa ou Gilberto Freire.” Dá mais exemplos: “pintores como Candido Portinari”, “historiadores como Raymundo Faoro”, “polivalentes cultores da ironia como Nelson Rodrigues”, “jornalistas como Claudio Abramo”, “repórteres como Rubem Braga e Joel Silveira”.  Como exemplos do “papel destrutivo com truculência nunca dantes navegada” da mídia, menciona o BBB, MMA ou UFC e telenovelas atuais. Confunde valor e nostalgia ao evocar programas de rádio como a PRK30: seguindo nessa linha, acabaria comentando a beleza das propagandas de Glostora e Emulsão de Scott.

O filósofo Vladimir Safatle contribui, relacionando ciclos da economia e criatividade: “É fato que todos os momentos de crescimento econômico brasileiro foram traduzidos em momentos de grande explosão criativa. Foi assim nos anos 30, nos anos 50 e mesmo nos anos 70, em plena ditadura.” Mas hoje falta “exercício crítico”. É “como se julgamentos de valor no campo da cultura fossem exercícios proibidos” por uma “uma nova doxa”.

Sim. Há um refluxo da crítica. Por falta de críticos, de espaço ou de competência editorial? Na década de 1980, a revista Isto É, inclusive nos períodos em que Mino Carta a dirigia, publicava de cinco a seis matérias, artigos e resenhas, comentando livros. O semanário concorrente, também. Hoje, não há nada – nem na Isto É, nem na Carta Capital. Outros espaços também desapareceram ou estreitaram-se.

A evocação de figuras do passado, argumentando que não temos mais Guimarães Rosa, tem precedentes importantes. Um deles, o historiador Oswald Spengler. Em A decadência do Ocidente, afirmou que a literatura atingira o ápice com Goethe, seu inspirador e paradigma. Depois de Goethe, a literatura havia acabado.

Spengler saiu de moda. Desapareceram edições de A decadência do Ocidente. Seu outro livro importante, O homem e a técnica, nem em sebos. Seu elitismo mereceu a observação de Walter Benjamin de que examinava a história como se visitasse um museu. Via o gótico como esplendor da civilização, pouco se importando com a expectativa de vida na Idade Média ser de uns 30 anos. Mas exerceu enorme influência. Henry Miller, William Burroughs e Jack Kerouac foram spenglerianos. Partilharam a desconfiança perante o “homem fáustico”.

Spengler foi original: achava – é dito com todas as letras em A decadência do Ocidente – que socialismo, nazismo e democracia liberal eram a mesma coisa; igualmente, “socialismos”. Por sua repugnância aristocrática diante das massas, recusou-se a ser adotado pelo nazismo, apesar da teoria da decadência ajustar-se como uma luva: detestou Hitler, achou-o um plebeu inculto; e o nazismo, coisa de ralé.

Outros conservadores apontaram para personagens de elevada estatura como argumento para expor a decadência do presente. T. S. Eliot e Ezra Pound invocaram Dante Alighieri. O argumento que subjaz a The Waste Land é, em uma sociedade como a nossa, ser impossível uma A Divina Comédia. Eliot idealizou ingenuamente a Idade Média em “The Idea of a Christian Society”, como sociedade consistentemente religiosa.

Pound relacionou apogeu de civilizações e cultura, em um modo assemelhado ao argumento exposto por Safatle: decadência das nações acarretava decadência artítica e literária . Octavio Paz contestou, observando que a Espanha do Século de Ouro, de Gôngora e Quevedo, havia sido a mesma do Conde-Duque de Olivares: criavam arte maravilhosa, enquanto a nação afundava.

Há mais símiles do “Há muito tempo o Brasil não produz escritores como Guimarães Rosa”. Alguns, examinados no recente A folie Baudelaire de Roberto Calasso (é ótimo – leiam), no capítulo intitulado “Kamchatka” (o termo com que Sainte-Beuve desqualificou Baudelaire). “Já não se sabe escrever após o fim do século XVIII”, afirmou Anatole France. Poesia? Nada, após Racine. Algumas vezes, ao me perguntarem sobre mídia e mercado prejudicarem a recepção da poesia, observei que, desde o tempo de Baudelaire, é a mesma coisa – até melhorou um pouco, acho.

Relações do bem estar e prosperidade com a criatividade, sugeridas por Safatle, geram paradoxos. A Romênia, por exemplo: como foi possível talentos, de Mircea Eliade a Paul Celan, cuja relação com a pátria consistiu em caírem fora assim que desse, e logo adotarem outra língua? E Portugal? Nas sombrias décadas do salazarismo, como puderam formar-se os Saramago, Sophia de Melo Breiner Andresen, Mário Cesariny, Lobo Antunes, Agustina Bessa-Luiz, Herberto Helder e tantos outros? Sobrou qualidade literária, de um modo impressionante.

Comentei, em postagem anterior, a aclamação catártica do balé Paranóia, por Ana Bottosso e a companhia de dança de Diadema, baseado na poesia de Piva. Reclamei da desatenção da imprensa, em https://claudiowiller.wordpress.com/2013/01/27/decadencia-do-jornalismo-cultural-e-noticiario-de-variedades/

Mino Carta não esteve lá. Vladimir Safatle não esteve lá. Rosane Pavam também não – mas acho que foi falha minha, se a avisasse, iria.

Sobre a relação de mídia e opinião pública, escreverei outra hora. Discordo de explicações demasiado reducionistas, mecanicistas.

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10 responses to this post.

  1. Posted by Marcelo on 04/02/2013 at 21:15

    Sempre que vejo esse papo dos “bons e velhos tempos” me pergunto se esse povo nunca leu um livro de história…. E nem precisa ser de literatura ou do pensamento. História dos fatos mesmo, do desejo infindável.

    Responder

  2. Preciso ler Spengler…

    Responder

  3. Posted by Miryam Mager on 05/02/2013 at 09:35

    Discutir, refletir, polemisar, espalhar possibilidades de olhar para o mundo humano, humanamente, sempre é bom. Quanto mais pontos de vista, menor a possibilidade de adesões “burras e cegas”.

    Responder

  4. Posted by Ruth on 05/02/2013 at 09:41

    Acho que o pouco que li da Revista Brasileiros pode ser um contraponto a tudo isso que você e os citados discutem.

    Responder

  5. mais um artigo campeão de audiência!! show!!

    realmente, a mídia (do status quo) reclama que não há bons autores ou boa arte, mas quase ninguém – com honrosas exceções – saem de seu berço esplêndido para conferir cultura e arte fora dos lugares óbvios.

    aliás, creio que um novo Guimarães Rosa, neste instante, só pode estar nos ‘sertões das gerais’, investigando novos caminhos para a linguagem e não nas elites academicistas.

    Que artigo brilhante, mestre Willer!

    Beijos!

    Responder

  6. Posted by Djalma on 05/02/2013 at 23:37

    “Oswald Spengler tem uma

    porta no seu tornozelo

    & nuvens através dele

    limpando a pele

    que projeta

    um velho cachecol marrom

    em seu olho

    eu penso

    pelos seus

    líquidos compassos de sátiro

    até

    um cenário de músculos

    impedido de esmagar

    o carvão de

    vidro verde

    que aquece

    a estrela nua de

    anteontem

    Oswald Spengler tem uma porta no seu tornozelo

    batendo

    até

    altas horas” (Piazzas, 1964)

    Responder

  7. Posted by Djalma on 05/02/2013 at 23:37

    Roberto Piva

    Responder

  8. Os jornais e revistas co circuito comercial não estão atentos à produção cultural, aos seus olhos não haveria poetas hj, os que encontramos estão na blogosfera em plena atividade, em inúmeras publicações eletrônicas. A academia tb não se importa com esta produção alternativa, aliás, torce o nariz para ela como coisa menor. No entanto, os rios de criatividade correm por aí como sempre correram, à esquerda, à margem, até por isso, muitos autores sempre tiveram reconhecimento depois de mortos. Minha conclusão é que a crítica da grande mídia só enxerga os mortos, isso faz parte do cemitério de ideias deles que se repete, se repete, se repete..Que gente tediosa, que jornalismo monótomo.

    Responder

  9. […] o dossiê da Carta Capital, saiu muita coisa interessante em tempo real. Cito, por exemplo, a resposta do escritor/tradutor Cláudio Willer que fora citado de forma equívoca pelo semanário …. Já o site Trezentos realizou uma crítica a esquerda, anotando, por exemplo, que “quando ele [o […]

    Responder

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