Brasil, tema da Feira do Livro de Frankfurt de 2013

Será em outubro.

É justificada a preocupação com os preparativos para a Copa das Confederações, este ano; a Copa do Mundo de futebol, ano que vem; e as Olimpíadas em 2016. Temos que prestar atenção em cronogramas, não só de estádios, mas das obras na infraestrutura; vigiar a expansão dos orçamentos.

E mais: acho reacionário, seqüela do tipo de crítica cultural que examinei em uma postagem anterior neste blog, contrastar a recepção apoteótica a personalidades e eventos do esporte e aquela, minguada, à cultura. Monteiro Lobato fazia isso, na década de 1930; entristecido, observava que multidões haviam comparecido à chegada de um campeão de boxe, e ninguém àquela de um cientista importante. Não adianta: a escala de diferentes categorias de eventos não é a mesma; mas, felizmente, sua projeção na diacronia também; por isso, hoje Einstein é mais lembrado e citado que Primo Carnera. Ademais, eventos literários repercutem, sim – Flip, Bienal do Livro e sucedâneos rendem matérias e atraem público; premiações anuais, acaloradas controvérsias (inclusive um recorde de acessos neste blog, a propósito do Jabuti e Biblioteca Nacional).

Ainda assim, é esquisito ninguém tocar neste assunto: nós na próxima Feira de Frankfurt. Nenhum comentário na imprensa; sequer nos ambientes letrados.

Nossos editores conhecem, vão lá todo ano. Estão, contudo, habituados a comprar, não a vender: Feira de Frankfurt, principal evento do mundo na modalidade, é centrada na negociação de direitos autorais. A relação é de mão única – todos atentos à chance de adquirir algum best seller, e não àquela de vender títulos nacionais. E nossos autores padecem, em sua maioria, de um arraigado provincianismo; afirmação de nacionalismo, para eles, é mostrar que não estão nem aí para o que se passa no exterior. Críticos e jornalistas da literatura estão devendo um balanço das ocasiões em que estivemos lá fora; um exame das ações culturais, comitivas e critérios subjacentes; e, principalmente, dos resultados.

Pesquisando no Google, achei uns anódinos releases oficiais, do Ministério da Cultura. Cinco escritores vivos serão homenageados: Ferreira Gullar, Milton Hatoum, Bernardo Carvalho, João Ubaldo Ribeiro, Raduan Nassar. E também Oswald de Andrade, Haroldo de Campos, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Hilda Hilst, Mario de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Manuel Bandeira, Olavo Bilac, Carlos Drummond de Andrade e Machado de Assis. Merecem. Também é dito algo sobre “diversidade cultural” do Brasil – acho que já ouvi ou li isso antes. Dão declarações sobre estreitar relações com a Alemanha – não, Marta Suplicy e Galeno Amorim (o coordenador desta vez) – não é com a Alemanha, é com o mundo…! É um evento internacional…! Há uma comissão de seleção de autores: Manuel da Costa Pinto, Maria Antonieta Cunha e Antonio Martinelli. Agora – agora…!!! – a notícia é de 5 de fevereiro, anteontem – organizadores viajam a Frankfurt para “conhecer o espaço disponível”… Sobre estímulo à negociação de direitos autorais, formação de acervos em bibliotecas lá fora e outros tópicos de política cultural, eventos e mostras temáticas, comitivas e critérios de sua formação, por enquanto nada. Ah, sim – há o blog criado pela Biblioteca Nacional: http://www.brazil13frankfurtbookfair.com/de/news/aktuell.html – informa a dotação de U$ 270.000,00 para subvencionar traduções (para a Copa, quanto é mesmo que vai ser?).

Perderemos a chance de corrigir erros anteriores. Melhor, é claro, uma participação discreta que um desastre. Brasil já foi tema em Frankfurt, em 1994. Sendo um evento de editores, a organização havia ficado a cargo da Câmara Brasileira do Livro. Deram-me, na época, um catálogo com o projeto daquela participação: focalizava muito sol, praia, carnaval, moças morenas que rebolavam (“mulatas”, dizia-se na época). Típico material para deslumbrados turistas libidinosos da mais baixa extração. Preparei um texto sobre provincianismo e os estereótipos na representação e divulgação do Brasil no exterior. Mostrei a Fábio Lucas, que presidia a UBE (eu era conselheiro). A entidade o adotou e enviou como contribuição a todos os organizadores envolvidos, Ministério da Cultura, Câmara Brasileira do Livro e nossa representante do evento na Alemanha, a tradutora e agente literária Ray Güde-Mertin.

Não queríamos dar escândalo, só colaborar. Aconteceu, porém, de Ray Güde-Mertin perder a paciência e desentender-se com o coordenador dessa participação brasileira, Felipe Lindoso – dirigente da Câmara Brasileira do Livro e responsável direto pelo bestialógio. Ao divulgar a ruptura, ela passou o documento da UBE / meu para o então correspondente da Veja na Alemanha, William Waak; esse publicou matéria, transcrevendo. Repercutiu, foi pipocando sob forma de críticas no restante da imprensa.

Soube que Lygia Fagundes Telles, em sua palestra, não conseguia fazer-se ouvir por causa do barulho da apresentação da escola de samba na sala ao lado. E que o interesse por autores brasileiros na Europa decresceu, por algum tempo, por causa daquele deplorável desempenho. Não buscava o protagonismo em polêmicas, mas todos os envolvidos souberam que o texto-base das críticas fora meu; tenho desafetos a mais, por isso, até hoje.

Brasil também foi tema do Salon du Livre de Paris, em 1998. Após o desastre de Frankfurt, a coordenação passou para a Biblioteca Nacional. Discretíssima, sem qualquer brilho, mas, ao menos, sem erros clamorosos.

Sabemos criar eventos e mostras temáticas de literatura. Teríamos algo para mostrar lá fora. Museu da Língua Portuguesa, por exemplo: exposições focalizando escritores importantes tornaram esse equipamento o mais visitado em São Paulo. Outras instituições locais também vêm mostrando competência. Mas não há mais tempo. Nem recursos. Uma pena.

Quando aprenderemos?

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5 responses to this post.

  1. texto pujante! amei e aprendi um pouco mais sempre contigo, mestre Willer!

    Beijos!! Tenha um belíssimo carnaval! (pra não perdermos o costume…rsrs)

    Lu

    Responder

  2. Willer, reitero meu apoio incondicional com as suas colocações. Assino junto, ao lado, e abaixo.

    Responder

  3. Cláudio … entre editores e autores a amizade é coisa rara e, mesmo havendo,não torna o editor confiante de que tem um bom negócio: ele,quando lê é quase uma raridade em seu meio (dono de livraria,este sim,deve agir igual ao dono de boteco,isto é: deve evitar beber)… Editor é um cara que está preparado para gerir negócios diferentes de criação artística … coisas que levam em consideração marketing (eles são péssimos neste setor) … Frankfurt, pelo que me diz um amigo que trabalha na Feira para uma agente (isso, por aqui não temos mesmo), é uma bolsa de apostas impressionante e os “agentes” são imprescindíveis, nem tanto para reconhecer e agendar encontros com quem interessa em trocas de mão cruzada … acredite se quiser, esse amigo e outros amigos deles tem uma função especial na feira: dirigir para alguns lugares quem traz novidades em língua portuguesa e quer levar outras, em qualquer língua … sabe para que? É nestes encontros que os que ganham pequenas comissões, representam grandes editores (chamam de publishers) e faturam uns trocados … não compram nada (não estão autorizados a fazer isso: no máximo promessas futuras) … só vendem que lhes mandam … igual na indústra do disco, do cinema … não temos cacife para mudar este jogo: nossos representantes são meros reprodutores de produtos em série … nossa FLIP,por exemplo,é muito melhor para ganhar comissões alugando pousadas e vendendo ingressos para palestras para secretarias de cultura de pequenos municipios (os caras vão com as famílias e os eventos ditos “sold-out” são reabertos na hora para que filas maiors d que a dos pré-pagos, ocupem as cadeiras vazias e, em alguns casos,paguem mais caros o que já estava sendo vendido (os que compraram,com o mesmo dinheiro público que está pagando suas passagens, alimentação e hospedagem para as famílias está sendo gasto em passeios de escunas e restaurantes em Paraty) … ou vc acha mesmo que a direção deste evento pensa em Literatura? Acho que dirigir a FLIP é bem interessante para quem tem prática na área de negócios imobiliários em zonas de veraneio e turismo … tenho quase certeira!
    De qualquer forma: confirmo apoio integral ao seu posicionamento … conte comigo!

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  4. Posted by Helena B C Pereira on 16/02/2013 at 22:58

    Willer, excelente o texto sobre a Feira de Frankfurt. Apesar da verba ridícula (face às verbas para tantos eventos), acho que é a primeira vez em que patrocinam traduções, certo? Você conhece alguém que esteja participando dessa chamada? abraços, Helena

    Responder

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