Ainda a propósito do Brasil em Frankfurt; no resto do mundo; e aqui mesmo

Será que minha postagem anterior foi entendida?

Pergunto por causa de alguns dos comentários resultantes. A discussão proposta não é sobre quem vai ou não vai, sobre convidados e ignorados. Nem sobre falta de transparência: o Ministério da Cultura divulgou releases, podem ser lidos através do Google. É sobre recursos reduzidos e, principalmente, desinteresse da mídia e opinião pública – se a preparação de eventos esportivos gera essa quantidade de notícias (com razão), também deveria sair algo sobre presença em acontecimentos culturais importantes.

Haveria mais, muito mais, dando prosseguimento, sobre erros e vexames em participações brasileiras no exterior, incompetência em ações além-fronteiras no campo da literatura, e da cultura em geral. Poderia estender, virava relato quilométrico.

Feira do Livro de Guadalajara, a mais importante da América Latina, em 2001, Brasil era tema ou convidado especial. Como lembrado por Floriano Martins, dentre outros erros, as caixas com uma edição de Poesia Sempre, a revista da Biblioteca Nacional, dedicada ao México, ficaram retidas na alfândega da capital mexicana por algum erro burocrático. Adido cultural e embaixador, apesar do empenho do editor da revista, o poeta Marco Lucchesi, não deram atenção. Poesia Sempre sobre o México ficou fora da feira. A literatura, em segundo plano em função do alto investimento em um show de Carlinhos Brown.

Bordeaux, 1993: o relato de uma professora de literatura da universidade local, pesquisadora de autores brasileiros. Foi conhecer o adido cultural brasileiro em Paris. Mal conversaram durante a entrevista, pois ele estava o tempo todo ao telefone, articulando sua transferência para outro cargo. Ao final, disse-lhe que, se quisesse, podia ficar com uma daquelas caixas de livros que eram mandadas pela Biblioteca Nacional.

Lisboa, 1992: Congresso de Escritores. Meu convite era como presidente da UBE, para tratar de um próximo congresso de escritores de língua portuguesa, coisa importante, e Ministério da Cultura pagou minha passagem. Ida oficial – outras vezes, fui como poeta, pessoa física. Na ocasião anterior, Congresso de Escritores de Língua Portuguesa, tivemos um adido cultural especialmente competente, Alberto da Costa e Silva, que se incorporou à nossa delegação. Achava que as coisas funcionavam sempre desse modo. Oficiei para a adida cultural, uma poeta, esposa ou viúva ou filha, não lembro, de um general do regime anterior – escreveu-me uma carta manuscrita de algumas páginas, sobre dificuldades do relacionamento com Portugal – e não apareceu, não deu as caras e nunca mais tive notícias dela.

Roma, 1993 – série de apresentações de poetas brasileiros na Embaixada do Brasil, Piazza Navona, coordenada por Maria Lúcia Verdi, que cuidava do Instituto de Estudos Brasileiros, e Márcia Teophilo. Uma das sessões, os convidados éramos eu e Antonio Fernando de Franceschi. Embaixador mandou recado desculpando-se por não comparecer. Adido cultural ficou no andar de cima e não se deu ao trabalho de descer, nem para nos cumprimentar. Achei esquisito – afinal, algum protocolo deveria ser seguido por diplomatas.

Festival de Poesia de Medellín, 2010 – o melhor da América do Sul, notoriamente. Após me convidar, o coordenador do festival, Fernando Rendón, pediu ao Ministério das Relações Exteriores que desse minha passagem. Nada, nenhuma resposta. O festival cobriu todos os custos da minha participação.

Recentemente, Feira do Livro em uma cidade na Espanha – organizadores fizeram lista de brasileiros que gostariam de convidar, pediram passagens ao Ministério das Relações Exteriores. Nada, nem responderam.

Dividir despesas, país do convidado dar passagem, isso é praxe – mas não aqui. Podia ir atrás, falar com alguém, aí conseguia – mas não faço isso, é política literária. As vezes em que fiz, por exemplo no congresso de escritores em Portugal, quando falei com o simpático Rouanet (ministro da Cultura certo no governo errado, penso), era por ser coisa oficial, um congresso, e não para mostrar o que escrevo. Turismo literário, aprecio, e mais ainda sair nas respectivas antologias, mas com limites, também já recebi convites dos quais declinei, por estar ocupado aqui.

Relações assimétricas, é disso que estou tratando. Portugal, através da Biblioteca Nacional, vinha patrocinando publicações de autores portugueses, inclusive uma bela coleção de poesia pela editora Escrituras. França já patrocinou muita coisa. É normal – agora, com a crise, acabou. Nós, quando? O que já fizemos? Conseqüência: centros de estudos, bibliotecas e leitorados da nossa língua, são 90% Portugal, 10% Brasil. Idem, mercado editorial, difusão de obras e autores.

O escritor Antonio Torres lembrou, no Facebook, nos comentários à minha postagem, que esteve no Salon du Livre parisiense de 1998. Elogiou organização e o coordenador, Jean Sarzana. E com razão. Estive no Salon du Livre em 2000. País-tema era Portugal. Falei em uma mesa sobre lusofonia, língua portuguesa –interessava no contexto dos 500 anos e os debates sobre acordo ortográfico, que ferviam na época. Portugueses foram elegantes, não ligaram para o Brasil, na edição de 1998, havê-los ignorado. São três auditórios grandes para mesas e palestras, programação corrida, estavam sempre lotados. Minha sessão era às 14 horas, entrei no auditório às 14 horas, público e restante da mesa já estavam lá, começamos imediatamente, nada de atraso protocolar brasileiro. Que diferença da Bienal daqui: na última edição, mesa sobre profissionalização do escritor, público de meia dúzia , ao lado o monumental estande da editora de Edir Macedo e, como sempre, barulho interferindo. Salão parisiense, espaço é menor que da Bienal de São Paulo. Mas, além da programação intensa e organização perfeita, nos estandes de editoras predominava literatura de qualidade – fiz compras.

Aqui no Brasil, Flip funciona bem. Focaliza e convida também autores brasileiros, mas confirma que somos importadores de cultura – assim como a Bienal do Rio, a julgar pelo noticiário recente. De positivo, haver estimulado uma diversidade de encontros de escritores em outras localidades. Injustiça, essa cobertura toda para a Flip e ninguém falar na Jornada Literária de Passo Fundo, que faz isso há um quarto de século ou mais. Quando estive em Passo Fundo, 1991, dei palestra sobre tradução para um estádio lotado, duas mil pessoas – mesa, além de mim, João Antonio e o alemão trazido pelo Goethe: espantado, comentou comigo: “É, na minha terra também tem disso, mas publico é de 20 pessoas”.

Enfim: alguma dúvida de que esses temas, eventos literários aqui e presença brasileira no exterior, mereceriam mais atenção e discussão?

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3 responses to this post.

  1. Guadalajara 2010: “A literatura, em segundo plano em função do alto investimento em um show de Carlinhos Brown.”
    Salon du Livre, Paris, 1998: “Que diferença da Bienal daqui: na última edição, mesa sobre profissionalização do escritor, público de meia dúzia , ao lado o monumental estande da editora de Edir Macedo e, como sempre, barulho interferindo. ”
    Injustiça, essa cobertura toda para a Flip e ninguém falar na Jornada Literária de Passo Fundo, que faz isso há um quarto de século ou mais. Quando estive em Passo Fundo, 1991, dei palestra sobre tradução para um estádio lotado, duas mil pessoas – mesa, além de mim, João Antonio e o alemão trazido pelo Goethe: espantado, comentou comigo: “É, na minha terra também tem disso, mas publico é de 20 pessoas”
    Nada mais há a acrescentar..

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