La Paz, Paulo Coelho, Claudio Willer

Onipresente. O modo como Rosane Pavam transcriou o que eu havia dito sobre Paulo Coelho por sua vez gerou um comentário de Felipe Lindoso em um blog chamado Publinews, acusando-me de elitismo. Coelho ainda reapareceu, mencionado, nos comentários de leitores no Facebook à minha postagem sobre Feira de Frankfurt, a propósito da difusão da literatura brasileira no exterior, ou da falta de difusão. Ligo a TV, Globonews, Espaço Aberto Literatura, agora, neste começo de ano: mais Coelho, reprisam a matéria sobre Manuscrito encontrado em Accra.

Meu comentário original, e originador dos outros, era justamente sobre o anacronismo de se discutir Paulo Coelho, nessa altura. Este: http://escritablog.blogspot.com.br/2013/01/ultimas_26.html

Querem Paulo Coelho? OK. Aí vai.

Encontrei-o em agosto de 1999. Feira do Livro de La Paz. Havia lido Diário de um mago e Brida. Uma simpática moça que freqüentava a UBE pôs os dois livros nas minhas mãos: “Você tem que ler! É muito bom!”. Foi em 1990, eu presidia a UBE. Li, não me custou um esforço intelectual enorme. Também li crônicas dele na revista da Folha – achei inteligente o modo como fugia ao confronto com um cientista, ou repórter científico; e selecionava bem seus apólogos.

Éramos, nós dois, os representantes do Brasil naquela Feira do Livro. Eu, porque a prefeitura de La Paz havia oficiado à de São Paulo, pedindo representante. Protocolar, portanto, o que não obstou que me apresentasse como poeta, treino para ocasiões subseqüentes, em que o convite foi puramente literário, e não político. A presença de Coelho era inexplicável (logo se explicaria).

Saguão do hotel, manhã do primeiro dia, lá estávamos, de saída para a Feira do Livro. Cumprimentamo-nos, autografei-lhe um exemplar de Volta, perguntei-lhe (como sabem, o tema literatura e ocultismo não me é estranho) sobre Brida, como era, aquela apologia do paganismo, das wikkas, mais a história da rememoração do massacre de Montsegur, dos cátaros provençais, e se não havia contradição com sua profissão de fé católica, culto á Virgem etc. Respondeu-me que esse era um assunto complexo, que depois falaríamos. Nunca mais – escorregadio, caberia a comparação com um peixe ou um sabonete molhado, encontrávamo-nos a toda hora, cordial, educado, mas não voltamos a conversar.

Naqueles dois primeiros dias de feira, estava derrubado pelo “sorochi”, o mal-estar das alturas – não pensava que fosse pegar e me afetar daquele jeito, , achava que ia ser mesma coisa que Agulhas Negras, mas em La Paz é insuportável. Pílulas para “sorochi” provocam sono, nem fui ao coquetel de abertura, adormeci enquanto conversava com a simpática escritora argentina no ônibus do passeio turístico no dia seguinte, um vexame. Coelho estava aclimatado: viera por terra com uma pequena comitiva, a agente-secretária e mais alguém, por Lima, Cuzco e Machu Picchu – percorreu os Andes.

Felizmente, ao terceiro dia já me sentia bem – fiz minha leitura de poesia, sessão de autógrafos de Coelho havia sido na véspera, as filas habituais. Como sempre nesses eventos, toda noite havia alguma programação, jantar ou coquetel. Aquela noite, recepção na Embaixada do México, o país-tema. Essas recepções de embaixadas, acho que todos sabem como são – suntuosas, bem produzidas. Aprecio guacamoles. Serviram vinho, e não tequila. Circulara a informação de que, no dia seguinte, seria o aniversário de Coelho.

A uma dada altura – quase meia noite – Coelho vestiu a famosa capa preta. “Já vai?”, perguntei. “Não, não ….”, respondeu. Pouco depois, eu o vi acender um cigarro. Estranhei, pois ele não fuma. E sumiu de vista, desapareceu. Entendi: saiu, foi receber seu próprio aniversário lá fora. Um ritual propiciatório. Praticante, de verdade. Continuei a conversa com bolivianos e mexicanos, não comentei com ninguém.

Haveria mais. No dia seguinte, o ponto alto, protocolarmente, da nossa visita a La Paz. Almoço com a prefeita, que nos daria uma comenda, um canudo contendo um diploma de visitantes ilustres. Foi em um restaurante, pois a prefeitura estava cercada por uma manifestação popular (na véspera, na avenida principal, me senti como se estivesse aqui, mas em 1977 ou 1968, encostei-me no prédio do Banco do Brasil enquanto a multidão passava).

E cadê Paulo Coelho? Não veio ao almoço com a prefeita. Haviam ido, ele e a comitiva, ao Lago Titicaca, alguém informou. Foi quando entendi tudo.

(Publicações em blogs não devem ser extensas, uma lauda e meia é um tamanho adequado – vou dividir essa história em capítulos, dará mais duas crônicas que postarei a cada 24 ou 36 horas, relatando o que houve em La Paz, além de observações sobre literatura e ocultismo, complementos ao que já publiquei sobre o tema)

Anúncios

6 responses to this post.

  1. Posted by Elizabeth lorenzotti on 13/02/2013 at 21:14

    acabei de ler no face. felipete continuar furioso. and his wife. deuses nunca erram , como diz uma amiga. Como voce ousou escrever? e como eu ousei comentar? dai me deletaram. a democracia!aaakakakakak esses posts em capitulos estao otimos. voce tinha comentado algo sobre o Paulo Coelho e a Bolivia, acho que nalgum curso.eu at acho que as praticas dele devem ter a ver com esse sucesso mundial.ele sabe de coisas e de como us-las. bjs

    Date: Wed, 13 Feb 2013 22:11:53 +0000 To: elizabethlorenzotti@hotmail.com

    Responder

  2. Comentou sobre esse encontro numa das aulas de criação poética na USP em 2011, muito boa essa sincronicidade, Willer e Coelho em La Paz, o Poeta e o picareta, dois lados da mesma moeda literatura? Espero que a continuação não demore. =)

    Responder

  3. Gente, daqui há 50 anos, Raul Seixas recuperará seu trono e será mais famoso que PC. Toda a lenha dele está sendo queimada agora, não há nada que indique que haverá sobrevida nesse personagem (Li Diário de Um Mago nos fins dos anos 80 e, recentemente, comprei num sebo, pela bagatela de um real, o À Margem do Rio Piedra Sentei e Chorei. Juro que tentei umas quatro vezes, mas o livro não vai, não desce. Não consegui passar da pág. 10, 12, por aí).

    Responder

  4. “Serviram vinho, e não tequila”, putz! que festa chata! hehe…

    Querido Willer, acho tão ‘déjà vu’ toda essa discussão sobre a qualidade literária de Paulo Coelho, parece que estamos nos anos 1980 e O ALQUIMISTA na lista da VEJA por quase um ano como o livro mais vendido.
    Paulo Coelho é o escritor-midiático. Ele sempre soube se aproveitar dos temas esotéricos para ganhar o público e a mídia.

    Li muito Paulo Coelho na adolescência. Depois não mais, pois perdeu a graça. Depois que se apaixona por Rosa e Gullar, ‘quem é Paulo Coelho?’, ah, o parceiro vendido do Raul, sei…

    Caro Willer, o sistema precisa dos ‘mitos’ e ‘heróis’ para vender seus princípios, meios e fins. Não perca seu precioso tempo com Paulo Coelho. Prefiro quando escreve sobre poesia.

    Beijosss!!!

    Responder

  5. Posted by Carlos on 14/02/2013 at 13:03

    Mestre Willer: Desculpa incomodar, mas gostaria de saber se existe alguma edição de ‘Anotações para um apocalipse’, além da edição de Massao Ohno, que é impossível de encontrar. Procurei por todos lados e só consegui encontrar uma (aparente) seleção no livro ‘Estranhas experiências’, ou estou enganado e, na verdade, ‘Anotações para um apocalipse’ está completo nessa edição de Lamparinha? Muito obrigado. Adorei encontrar seu blog. Um grande abraço.

    Responder

  6. Lendo cada capítulo com atenção, deliciosos estes relatos pessoais, os flashs sobre os encontros entre escritores, particularidades, minúcias,adoro este tipo de crônica. Bjsss!

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: