La Paz, Paulo Coelho, Claudio Willer: capítulo 3

(quem ainda não viu, leia as duas postagens anteriores)

Como se sabe, junto com Raul Seixas e outros, Coelho era filiado a uma ramificação das ordens esotéricas inspiradas em Aleister Crowley, o escandaloso mago que desconhecia limites. Foi o período de algumas letras de música de qualidade poética, em parceria com Seixas, e um manual de vampirismo depois retirado de circulação. Diante da perspectiva abissal que se abria, procurou outros caminhos; e os achou. Assim como sua dicção, seu caminho na literatura: vieram as narrativas com temática esotérica, Diário de um mago, O alquimista e Brida, que despertaram enorme interesse, suscitaram polêmica, atraíram milhões de leitores e ganharam traduções pelo mundo afora. Em seguida, narrativas, pura e simplesmente, sem, necessariamente, compromisso com disciplinas ocultas, ordens secretas etc. Acompanhando seus lançamentos, sempre, as objeções da crítica, associando a difusão de sua obra à baixa qualidade literária.

Razões de meu interesse pelo tema, dedicando três publicações em meu blog (aliás, serão quatro), são, em parte, pelas razões expostas nas duas postagens precedentes: o acaso oferecer-me proximidade e alguns ângulos inesperados. Não vai nenhuma condenação moral: não consta que tenha prejudicado alguém; ao contrário, soube que já ajudou pessoas. No capítulo da difusão de informação falsa e disseminação de erros, quem merece destaque é seu concorrente por algum tempo em listas de mais vendidos, Dan Brown; esse sim, oportunista ativo, mercador da credulidade. Mesmo a apropriação de um enredo de Colin Wilson por Coelho: se fosse praticar literatura comparada, certamente acharia mais – mas todos fazem isso, e nada se compara ao modo como Brown roubou uma invencionice de Michael Baigent e Richard Lee sobre o Graal e a a lenda provençal medieval da migração de Maria Madalena, dando-a como fato histórico. Ou então, no campo da fraude, Lobsang Rampa, a apresentar-se por décadas como monge iniciado que conquistara a terceira visão. Que compêndio faria, se fosse arrolar todas as variedades do lixo pretensamente esotérico.

Mas isso não me impede de observar onde falta qualidade literária, além de alguma traição à informação histórica, em Coelho. É possível cobrar-lhe responsabilidade cultural.

Mas, primeiro, a questão da crítica e do jornalismo literário; da sua permanente falta de memória, sua cultura do esquecimento.

Por exemplo: ao passar pelo Google, procurando Paulo Coelho + Colin Wilson, cruzei com os comentários sobre Diário de um mago no extinto Leia por Teixeira Coelho. O sucesso do livro interpretado como crise do racionalismo e do espírito científico. Sim – mas faz tempo…  Muito tempo…! Zanoni de Edward Bulwer-Lytton é de 1842. Enorme sucesso, até mesmo respeitado, Bulwer-Lytton consta como escritor. Aventuras de um mago imortal, inspirado nas lendas criadas em torno do Conde de Saint-Germain, em uma relação com a Revolução Francesa semelhante àquela de Rambo com a Guerra do Vietnã. Subliteratura, folhetim barato – circula, é reeditado até hoje.

O outro lado, no plano do valor: Là-bas de J.-K. Huysmans, de 1891, seu relato sobre missas negras, magias e enfeitiçamentos. Provocou um terremoto. Multiplicou a voga satanista. Enxergo sua influência em um arco que vai de Cruz e Souza (duvidam? mostro os trechos) até J. Somerseth Maughan. Acho altíssima literatura – Huysmans, um estilista poderoso. Traduzido, dele, temos Às avessaspara fazer Là-bas, precisaria de muito tradutor. Charme adicional do livro, além da irada crítica conservadora à sociedade burguesa – para Huysmans, a mais sinistra bacanal religiosa era melhor que a banalidade burguesa – é ser baseado em fatos reais. Quem o levou às missas negras foi Berthe de Courrières, a devassa mulher de Rémy de Gourmont, o erudito historiador e crítico do simbolismo. E Huysmans relatou uma briga de bruxos famosa – aliás, ficou do lado errado, defendeu os magos negros Vintras e Boullan (Norman Cohn diz que Boullan tinha 600.000 adeptos na Europa – apesar da solidez desse historiador, duvido que fosse tudo isso, tamanha multidão fazendo sexo em altares e coisas mais impressionantes ainda) contra Stanislas de Guaïta e Oswald Wirth, rosacruzes, que eram do bem. Os livros de Guaïta, Le serpent de la génèse e Le temple de Satan, denunciando Vintras e Boullan, também foram estouros editoriais com reedições em série. As obras do Sär Josèphin Péladan, mentor do grupo, diante do qual poetas simbolistas batiam cabeça: sua estréia, Le vice suprème, tirou 23 edições consecutivas. Décadas atrás, alguém me convidou para traduzir Le serpent de la génèse e Le temple de Satan de Guaïtanão deu, e como se não bastasse essa pessoa que me convidou teve morte estranha. Aprecio muito Huysmans, escrevi sobre ele em Um obscuro encanto e um ensaio disponível on line.

Lista de obras de ocultismo, bruxaria e ciências ocultas confrontando o racionalismo iria longe. Um ótimo relato de como eram as coisas no século 19, O cemitério de Praga de Umberto Eco. De como são hoje, O pêndulo de Foucault, também de Eco: duas claras demonstrações de que erudição e textos de qualidade também podem entrar em listas de best-sellers.

Há uma recíproca desse antagonismo de razão e magia: a cooperação iluminista das duas correntes, ambas enfrentando o absolutismo e a opressão religiosa. O episódio mais emblemático, o encontro de Voltaire e Benjamin Franklin em uma loja maçônica – o maçom era Franklin; a loja, por ser lugar onde se podia conversar sossegado – outro capítulo, esse dos maçons na Independência dos Estados Unidos, sobre o qual Dan Brown tripudiou, produzindo besteiras à vontade.

As obras capitais sobre a cooperação entre os dois campos, do espírito científico e racionalismo, de um lado, e o esoterismo, de outro, continuam sendo as da historiadora Frances A. Yates; especialmente O Iluminismo Rosacruz.

Havia determinado um tamanho para publicações em blog, e o ultrapassei. Escreverei mais um capítulo – insistindo em que qualidade literária e temática esotérica podem coexistir, e tocando na questão da responsabilidade cultural de personalidades como Paulo Coelho.

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3 responses to this post.

  1. Posted by Elizabeth lorenzotti on 15/02/2013 at 12:18

    Excelente! Desole, na minha adolescncia adorava Lobsang Rampa 🙂

    Date: Fri, 15 Feb 2013 12:43:42 +0000 To: elizabethlorenzotti@hotmail.com

    Responder

  2. professor W, excelente essa série de artigos! estou adorando cada frase! essa desmistificação do esotérico e sua relação com o cientificismo! show!

    Você PRECISA escrever um ensaio sobre todas essas questões e publicar em um livro. Chega a ser um serviço de utilidade pública; precisamos estar bem informados para não cairmos na lábia – campeã de audiência – dos pseudo-estudiosos.

    Beijos, querido professor! Tenha um maravilhoso fim de semana!

    ***

    Responder

  3. Um banho de conhecimento. Muito mais bonito rememorar as coisas, falar das fontes, do que se apropriar da cultura como certos “magos” escorregadios. O verdadeiro mago aqui é vc!!! Bjss.

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