La Paz, Paulo Coelho, Claudio Willer: capítulo 4

(quem ainda não viu, leia as três postagens anteriores)

Resolvi ampliar, seguir em frente e postar algo sobre magos literários, sua influência, a contribuição de alguns deles e o injusto esquecimento de outros. Inclusive, tenho algo em arquivos que pode ser reaproveitado.

Mas, primeiro, completar observações – o pouco que teria a dizer, além do relato bem factual, do encontro em La Paz, nas duas primeiras postagens da série – sobre Paulo Coelho e o pouco que li dele.

Diário de um mago vende algo, mas não entrega. Sim, há uma ordem ou confraria de magos, guerreiros da luz empenhados no bom combate – mas ele não pode dizer mais a respeito; é proibido revelar segredos iniciáticos. Mesmo expediente, entre outros, de Éliphas Levi em Dogma e ritual de alta magia: conhece arcanos, porém secretos.

Contudo, antes de fechar portas, Levi diz muita coisa – nessa e em outras de suas obras há fórmulas e receituários de cerimônias mágicas, símbolos que são interpretados, a tentativa de sistematizar o ocultismo; e relatos, dos quais o mais interessante é uma evocação de Apolônio de Tiana. Em Coelho, nada. Depois de  apresentar-se como iniciado, o restante poderia ser a experiência de qualquer pedestre que fizesse aquele trajeto. O cão negro, grande coisa: aqui na metrópole de vez em quando cruzamos com algum pitbull, um mastim desgarrado; certa vez, na casa de um amigo meu em Teresópolis, haviam solto o dobermann de guarda, ficamos olhando um para o outro, virou-se e foi embora, não me mordeu, nem por isso achei que percorrer aquele jardim fosse roteiro de iniciação.

Para quem quiser saber sobre o Caminho de Santiago, recomendo, em primeira instância, o magnífico filme de Luis Buñuel:  A via láctea ou O estranho caminho de São Tiago (etimologia: Compostela = Campus Stelae = Via Láctea), de 1969. Seus peregrinos, dois aventureiros amorais, percorrem o espaço e o tempo: vão passando por todos os grandes debates e enfrentamentos teológicos desde 350 d.C, inclusive um impagável duelo de jesuítas e jansenistas. Sim, é como sustentam Buñuel e Lacarrière, seu roteirista: quem está enterrado sob a catedral galega não é o apóstolo evangélico, porém um gnóstico, o bispo dissidente Prisciliano, executado em 387 d.C. E sim, como mostra o filme: seus adeptos praticavam a licenciosidade, sexo grupal como meio de receber o Espírito Santo – desconfio que o priscilianismo permaneceu, de modo subterrâneo, e influenciou outros anarquismos místicos, rebeliões religiosas medievais.

O ponto de partida das peregrinações, a Torre Saint-Jacques em Paris. Está lá, na atual Rue de Rivoli; e em um poema importante de André Breton. Esse sim, foi um grande mago literário.

Brida, já comentei nas duas primeiras postagens. As fontes de que Coelho se valeu, como a rememoração dos cátaros comentada por Colin Wilson, aparente reencarnação, são muito mais interessantes

Após Brida, deixou esoterismo em segundo plano. Lançamentos subseqüentes chamaram a atenção pelo prestígio do autor. Mas não tiveram a mesma repercussão. O Aleph é inspirado no conto homônimo de Jorge Luis Borges, a história da descoberta da partícula que contém todas as coisas em todos os tempos do universo. Vi trechos: o que em Borges é ambivalente, irônico, enigmático, feito para despistar o leitor –  existe um Aleph, mas seu dono é um farsante, a revelação não leva a lugar algum, aquele Aleph talvez seja falso, o verdadeiro Aleph pode existir mas está em outro lugar –, em Coelho é monovalente, linear, com o Aleph reduzido a simplória metáfora da revelação, justamente o que Borges destrói; o relato é pastiche, despido das qualidades poéticas do original adaptado. Há uma recíproca borgeana do Aleph: é o Zahir, que está em todo lugar e pode ser todas as coisas existentes: Coelho também usou, o tema deve ter recebido o mesmo tratamento, sujeitando-o ao mesmo empobrecimento.

O recente Manuscrito encontrado em Accra. Tem para download. Eu me pergunto: por que ele fez isso? O que deu nele? Para que cometer erros tão evidentes? Ele conhece os escritos de Nag Hammadi, menciona-os – deve saber que são criações de enorme riqueza simbólica, expressões de mitologias complexas – completamente diferentes do texto sapiencial linear, óbvio, que compõe Manuscrito encontrado em Accra.

Ah, sim – os escritos de Nag Hammadi são de 350 d.C, o manuscrito criado por Coelho seria de 1000 d.C. O que alguém acharia no Egito, na região de Nag Hammadi / Luxor / Accra, que fosse de 1000 d.C? Algum texto devocional muçulmano, mais provavelmente. Ou uma tradução árabe de Aristóteles ou algum outro clássico: como sabem, muito da Grécia clássica foi salvo da escuridão da baixa Idade Média e retornou a nós através de estudiosos árabes. O que mais? Um embrião do misticismo muçulmano, embora o lugar mais próprio para isso fosse, naquele momento, a Península Ibérica? Um precursor da cabala, levado pela diáspora? Um cristão copta subterrâneo? Uma boa idéia para um enredo de manuscrito encontrado: um texto salvo do último dos incêndios da Biblioteca de Alexandria, algum tesouro clássico. Mas tem que ser muito erudito para fazer isso: parada à altura de Umberto Eco, não de Coelho.

Ou então, podia ter mudado de lugar e época: Síria em 200 d.C, a antiga Edessa e mais um texto sapiencial, acrescentado àqueles atribuídos ao Apóstolo Tomé por Bardesanes e seus discípulos. Mas, novamente, é só comparar, confrontar o que Coelho escreve com a beleza e profundidade do que produziu aquela ramificação cristã do gnosticismo (ou gnóstica do cristianismo, tanto faz).

Narrativas apresentando um suposto manuscrito encontrado são uma tópica e um chavão. E um desafio, brilhantemente enfrentado, entre outros, por Borges em “O imortal” e por Eco em O nome da rosa. Precedentes evidenciam a pobreza do que Coelho empreendeu.

(novamente, escrevi mais do que havia planejado – seguirei, aguardem novas postagens sobre literatura e ocultismo)

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5 responses to this post.

  1. Mais do que entender a jornada de Paulo Coelho, adorei a sua jornada através do conhecimento. Cheguei a escrever uma resenha sobre o Manual do Vampirismo, li Coelho até Brida, depois me desencantei totalmente, quando ele trocou a fala de mago pela prosa de um mero ilusionista. Hj não me atrai em nada. E para defini-lo, reporto-me a um verso de um poema árabe, autor desconhecido, que li hj: “Oh alma, não cunhe as moedas com o ouro das palavras.” Grata pelos capítulos. Bjss!

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  2. Posted by Elizabeth lorenzotti on 16/02/2013 at 12:07

    mas foi otimo aquele felipe ter te provocado! cada atigo melhor que o outrobj

    Date: Sat, 16 Feb 2013 02:29:09 +0000 To: elizabethlorenzotti@hotmail.com

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  3. Prezado senhor Claudio, peço licença para reproduzir com aspas os parágrafos finais do quarto artigo, todos absolutamente geniais e oportunos, no romance em que tenho trabalhado, Língua de trapo na boca do povo, por considerar o foco de sua erudita argumentação o ponto nevrálgico das questões sobre as quais ali me debruço. Até porque, os autores que o senhor cita, foram por mim também citados, o que, certamente, vai além de pura e simples coincidência. A inclusão de seu nome na pendenga literária (perdão, modo de dizer) é a cola que há de permear a trama do Língua. Se puder considerar o atrevimento modesta homenagem à sua literatura, agradeço de joelhos até o fim de meus dias.

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  4. Brilhante como sempre, Claudio. Pretendia imprimir para ler com calma. Não consegui esperar… li na tela (com zoom de 200%). Agora sim, salvei cada uma das postagens na minha hemeroteca digital de coisas essenciais e vou imprimir para grifar.
    Célia, o verso que você citou- “Oh alma, não cunhe as moedas com o ouro das palavras”- é de Rumî. Há um CD de poemas árabes e sufis declamados pela Letícia Sabatella, com música de Marcus Vianna, que é uma maravilha. Chama-se Poemas Místicos do Oriente.

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