La Paz, Paulo Coelho, Claudio Willer: capítulo 5

Ontem, sábado, almoço, um dos assuntos foi esta série sobre ocultismo, literatura e Paulo Coelho. Meu anfitrião, Antonio Zago, mostrou-me a biografia de Coelho por Fernando Morais, O mago, lançada em 2008 pela Planeta. Desconhecia. Com 632 páginas, vendeu 100.000 exemplares e tem para download.

A parte inicial de O mago de Morais, poderei utilizar quando tratar de contracultura no Brasil. Há muita informação. Lá pela metade, diz que, depois de Brida, a crítica “cerrou fileiras” contra Coelho. O artigo de Teixeira Coelho na Leia, já mencionada aqui, é citada, com a observação de ser difícil.

Operar com as categorias “fácil” e “difícil” sugere que objeções da crítica a Coelho são por ele ser legível, acessível ao povo. Morais fez uma involuntária sátira das denúncias da conspiração da mídia a propósito de acontecimentos na esfera política. Críticos defenderiam valores da elite: por isso, rejeitam alguém que alcança tamanha difusão, por não escrever “difícil”. Isso, com o mais midiático dos autores brasileiros: toda vez que lança algo, ganha páginas na Ilustrada e afins, e matérias na TV – sempre em tom respeitoso (como já disse, assisti por acaso à reprise da matéria sobre Manuscrito encontrado em Accra na Globonews – tratamento foi reverencial).

O baixo populismo é sempre reacionário. Supõe que se deva rebaixar a mensagem para alcançar as massas. Maiakovski insurgia-se contra isso, no despontar do regime soviético. E tantos outros – Oswald de Andrade, por exemplo, sobre seu “biscoito fino” para as massas.

Circunstâncias, em primeiro lugar o interesse de leitores, me levaram a estender esta série de artigos. Sua origem, meu comentário sobre o artigo do sociólogo no suplemento Ilustríssima (esse sim, “difícil”, árido), afirmando que o “sistema literário” barrar Coelho é rejeição da elite. Wladyr Nader repercutiu, houve o aproveitamento por Rosane Pavam na famosa Carta Capital sobre declínio da cultura, e a intervenção de Felipe Lindoso, acusando-me de elitismo pelas restrições a Coelho, dizendo que nunca estive na periferia.

Ah, a periferia – última vez, em Perus, despertou interesse eu mostrar que a leitura de Paranóia de Piva contribui para enxergar mais qualidades em Cocktails de Luís Aranha. Citei “Kafka e seus precursores” de Borges. Poderia ter feito a mesma coisa em uma pós-graduação em Letras na USP. Nunca facilito – não precisa. A propósito, Diadema não é periferia? Sessão com Roberto Piva, Afonso Henriques Neto e eu, auditório lotado, público interessado, reclamei de nunca terem feito essa mesa na USP. Tudo é possível, do melhor ao pior, em todo lugar. Já mencionei as 2.000 pessoas para a programação que incluiu minha palestra sobre tradução em Passo Fundo. Multidão, também, no festival de poesia em Nova Prata, lá perto.

“É disso que o povo gosta”: argumento rasteiro para justificar os R$ 600.000,00 do governo do Ceará para o show de Ivete Sangalo em Sobral e tantos outros desperdícios. Se me convidarem, vou a Sobral – juntará menos gente, mas custo menos que Ivete.

O próprio Coelho irradia baixo populismo; paradoxalmente, desde seu castelo. Em várias ocasiões – entre outras, na contribuição a uma coletânea de depoimentos de escritores organizada por Suênio Campos de Lucena (21 escritores brasileiros, Escrituras, 2001), ao ser indagado sobre sua qualidade literária, deixou claro que, para ele, obras como a de Machado e Clarice são outra coisa. Transcrevo:

SUÊNIO: Alguns acham que o senhor toma o lugar de escritores como Machado de Assis e Clarice Lispector, e outros vêem o seu sucesso como algo passageiro. COELHO: Minha literatura não tem nada a ver com a deles. Não somos concorrentes. Esta discussão me parece algo como o sexo dos anjos. Se o sujeito quiser comprar Machado ou essa escritora, ele fará isso com ou sem Paulo Coelho. Acho que o sucesso incomoda demais as pessoas. (…) Peço para você não insistir nisso.

Mas o equivalente a Machado de Assis e a Clarice Lispector para Éliphas Lévi, Papus, Guaïta ou Péladan, os autores referenciais naquele momento, os Shakespeare, Goethe, Victor Hugo, não eram outra coisa. Antes, eram a mesma coisa que para Nerval, Baudelaire, Rimbaud e Huysmans. Lévi queria que seu texto fosse conforme aos padrões da alta literatura; e Victor Hugo foi conhecê-lo. Essa ambição também é evidente no Sär Péladan, em Crowley, que tinha em alta conta sua própria produção poética e se achava melhor que Yeats, seu contendor na Ordem da Aurora Dourada. Partilhar valores literários contribuiu para o diálogo entre magos e literatos (tratarei disso na próxima postagem).

Magos de hoje são menos literários? Parece. Houve alguma perda de prestígio da literatura, uma redução da importância que lhe era atribuída como fonte do conhecimento e modelo para o uso da linguagem; e, por decorrência, para a expressão do pensamento. Nos séculos 18, 19, na primeira metade do século 20, em matéria de valor literário e valorização da literatura, escritores e magos pareciam olhar na mesma direção. Hoje, voltam-se para direções distintas? Na coletânea aqui citada, a pergunta sobre valor literário é feita a um dos entrevistados, o único mago dentre eles. No entanto, não há recíproca, a nenhum dos demais entrevistados é feita qualquer pergunta sobre magia, ocultismo ou hermetismo.

– No próximo capítulo, para encerrar a série (será que consigo?), algo sobre os bons magos literários (houve muitos).

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8 responses to this post.

  1. Corroborando com a ideia do “biscoito fino” do Oswald e sua argumentação aqui, lembrei-me que alguém um dia sugeriu que o ideal seria todo mundo do povo, da periferia, ter uma adega. Sou favorável à mesma coisa no caso das bibliotecas. Aguardamos a vez dos “bons magos” em seu próximo post! Bj!

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  2. Ate aqui tudo bem. Vc conhece ocultismo ( pelo menos na teoria) Discordo de mta coisa, mas é seu blog, nao o meu .
    Pq esvrevo? Por causa de C. Wilson. Como dizem os espanhóis, “ojo” Li mta coisa dele, conheci-o pessoalmente na Australia, mas um escritor que entende de tudo (leia alguns de seus ensaios) ñ entende de nada
    Qto ao Manuscrito: se tivesse lido, nao teria escrito parte desse blog
    Finalmente: acertou 100% no aniversário sempre comemorado ao ar livre, sem NADA entre minha cabeça e o céu
    Forte abraço, aguardo o cap final (embora intua q vai glorificar E.L., que ñ merece. Imagino q leu “Historia d magia” e o capitulo final é de doer…)

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  3. Esqueci um pto importante (ainda C Wilson): nas primeiras ediçōes de BRIDA a foto da orelha sou eu com Montségur atrás. Ali está a verdadeira fonte

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  4. Li o texto de um culturalista uma vez que dizia que o culto à “alta literatura” só conduzia ao elitismo e à catástrofe. Para ele, o argumento que provava essa visão era que Hitler cultivava a alta literatura.

    Depois do culturalismo (vulgar), o trabalho do crítico literário, de aplicar critérios para a leitura de textos, de prezar por uma certa qualidade estética, narrativa, existencial, passou a ser visto como o trabalho da “exclusão”. Quantas vezes não se ouviu, em cursos de literatura, que Adorno era um elitista, porque criticava os produtos da indústria cultural. No entanto, se se ler com bastante cuidado a Dialética do Esclarecimento, será possível perceber que, dentro de seus próprios critérios estéticos, de sua própria forma de perceber a arte, Adorno possui bastante coerência, faz um trabalho de análise muito detalhado. Ele percebeu, naquela época, a decadência das ideias que giravam em torno da “Bildung”, da formação cultural, iniciada por Goethe… e porque esses valores perderam espaço para a indústria cultural, passou-se a chamar Adorno de elitista, de conservador, de reacionário…
    Mas o argumento é sempre esse: ele “exclui”… ninguém ainda teve capacidade de defender que Adorno é elitista discutindo seus próprios argumentos, seus próprios conceitos.

    O fato é que percebo, em meio a essa discussão toda, uma tendência estúpida a colocar o valor estético como valor conservador. Paulo Coelho é podre de rico, escreve livros sobre viagens para o exterior, de roupa engomadinha… de outro lado, um sujeitos como Artaud, Whitman, Van Gogh, e tantos outros renovadores da linguagem artística, da “alta” arte, foram sujeitos miseráveis e atormentados, que não tinham um puto no bolso. O crítico, tentando compreendê-los, é chamado de elitista… já o Paulo Coelho, nadando em direito e escrevendo merda, é o artista popular…. Acho muito estranho como é conduzida essa discussão na academia. Deveríamos repensar a ordem do “elitista” e do “popular”, quando falarmos de estética.

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  5. haha…está muito divertida essa série, professor!

    e instrutiva, claro.

    Beijos!

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  6. Entretanto, toda essa discussão sobre valor literário me remete a Nietzsche:

    ‘É preciso que haja os maus escritores para que possam satisfazer os maus leitores’.
    em Além do bem e do mal

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  7. ou foi em Humano demasiado humano… fiquei na dúvida. depois pego o livro e vejo. tá vendo, quando falo em maus leitores, hehe…

    Beijos!

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  8. Posted by Ruth on 20/02/2013 at 17:35

    Isso ainda vai virar um livro de ensaios…

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