A “Carta ao Papa” de Artaud (e alguns comentários)

CARTA AO PAPA

Antonin Artaud

O Confessionário não é você, oh Papa, somos nós; entenda-nos e que os católicos nos entendam.

Em nome da Pátria, em nome da Família, você promove a venda das almas, a livre trituração dos corpos.

Temos, entre nós e nossas almas, suficientes caminhos para percorrer, suficientes distâncias para que neles se interponham os seus sacerdotes e esse amontoado de doutrinas afoitas das quais se nutrem todos os castrados do liberalismo mundial.

Teu Deus católico e cristão que, como todos os demais deuses, concebeu todo o mal:

1°. Você o enfiou no bolso.

2°. Nada temos a fazer com teus cânones, índex, pecado, confessionário, padralhada, nós pensamos em outra guerra, guerra contra você, Papa, cachorro.

Aqui o espírito se confessa para o espírito.

De ponta a ponta do teu carnaval romano, o que triunfa é o ódio sobre as verdades imediatas da alma, sobre essas chamas que chegam a consumir o espírito. Não existem deus, Bíblia, Evangelho; não existem palavras que possam deter o espírito.

Nós não estamos no mundo; ó Papa confinado no mundo; nem a terra nem Deus falam de você.

O mundo é o abismo da alma, Papa caquético, Papa alheio à alma; deixe-nos nadar em nossos corpos, deixe nossas almas, não precisamos do teu facão de claridades.

 – x –

Alguns comentários: Verifiquei, o texto que circula no meio digital é, sim, a transcrição integral da minha tradução da “Carta ao Papa” de Artaud em “Escritos de Antonin Artaud” (L&PM Pocket, 1983 e reedições – que pena não ter sido possível renovação do copyright, aquela seleção e meus comentários continuam vivos, reaparecendo na ensaística brasileira sobre Artaud). Reproduzi como editorial na revista eletrônica Agulha em 2007, a propósito da morte de João Paulo 2 º ou da eleição de Bento 16 ou ambas. Acho que está bem fazê-la circular a cada transição episcopal. Também foi apresentada na encenação São Paulo Surrealista da Cia Teatro do Incêndio de Marcelo Marcus Fonseca. Queria o vídeo: o ator Wanderley Martins transmite credibilidade.

A “Carta ao Papa” foi publicada em 1925 na revista La Révolution Surréaliste, parte de um conjunto preparado quando Artaud dirigia o Bureau de Recherches Surréalistes: “O suicídio é uma solução?”, “Segurança pública – a proibição do ópio”, “À mesa”, “Carta aos reitores das universidades européias”, “Carta ao Dalai-Lama” e “Carta aos médicos-chefes dos manicômios”. Textos coletivos: Alexandrian, em Le Surréalisme et le Rêve, vê neles a mão de Robert Desnos e Michel Leiris. Mas estão incorporados às obras completas de Artaud, e o estilo e temas são dele: principalmente da carta aos psiquiatras, profética; do suicídio (já com o tema do “suicidado pela sociedade” que reapareceria em seu majestoso texto sobre Van Gogh); do manifesto contra a proibição de “drogas”, bem atual.

Há estudiosos que operam com as categorias “Artaud” e “surrealismo” como se fossem antagônicas. Já mostrei que não, ao tratar dos encontros de Artaud e Breton em https://claudiowiller.wordpress.com/2012/02/03/andre-breton-e-antonin-artaud/

Ao comunicar a renúncia, Ratzinger, o Bento 16, pediu renovação da Igreja. Como assim, “renovação”…? Há um enfrentamento, desde o século 19, entre tradicionalistas e modernizadores. Como ideólogo, teólogo importante e dirigente da Congregação da Doutrina da Fé (antigo Santo Ofício), Ratzinger articulou o desmonte da igreja progressista e a restauração conservadora. Apoiou-se nas ordens religiosas, inclusive a Opus Dei, prestigiando esses redutos do espírito da Contra-Reforma. Reverteu a abertura promovida por João 23 e seu concílio Vaticano 2º. Deu no que estamos vendo.

Isso não significa que eu adote premissas do catolicismo progressista; especialmente aquela de um cristianismo primitivo, não-autoritário. A doutrina e organização da Igreja começam com Paulo – em 50 / 60 d.C, lembrando que suas epístolas e sua atuação precedem cronologicamente os Evangelhos sinóticos. E Paulo determinou a subordinação da mulher, com todas as letras, na Primeira Epístola aos Timóteos: “Eu não permito que a mulher ensine ou domine o homem. Que ela conserve, pois, o silêncio.” Mesmas admoestações em Coríntios 11 e Colossenses 3., Especialistas como Elaine Pagels manifestam dúvidas sobre a autenticidade dessas epístolas de Paulo – tanto faz, penso, pois são fundamentos doutrinários do mesmo modo, configurando o cristianismo como religião ainda mais patriarcal e sem dúvida mais repressora do corpo que o judaísmo do qual derivara.

Igualmente, a centralização da Igreja, a doutrina do mandato entregue por Cristo aos apóstolos, e desses ao papa e aos bispos. É do século 2º, de Tertuliano e outros Pais da Igreja; bem anterior, portanto, ao cristianismo tornar-se religião imperial no século 4º, entre Constantino e Teodósio.

Na postagem precedente, citei poetas que denunciaram o seqüestro do sagrado pela religião institucional. Jacques Lacan já havia dito que “os poetas, que não sabem o que dizem, como é bem sabido, sempre dizem, no entanto, as coisas antes dos outros.”

(As citações de Paulo e Lacan, extraí de meu Um obscuro encanto)

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6 responses to this post.

  1. Post mais que adequado ao momento, os cardeais já estão reunidos em Roma para o conclave, vão ficar em clausura para escolher o novo Papa. Artaud matou a pau o perfil da Igreja de antes e do depois. Não há nada a esperar, Bento XVI resgatou entre outros costumes, rezar a missa em latim e tratou de tentar jogar a pá de cal na Teologia da Libertação. Leonardo Boff que já sentou na cadeirinha onde esteve Galileu Galilei por causa da tal teologia, disse que chegou a ter relativa amizade com Bento XVI antes dele ser papa, depois romperam. Diz Boff: “Ele ( Bento XVI) foi contaminado pelo bacilo romano que faz com que todos os que trabalham no Vaticano rapidamente encontrem mil razões para serem conservadores. Então sim, fiquei mais que surpreso, verdadeiramente decepcionado.” Ou seja, a saída do Vaticano é sempre a treva, nunca a luz, que eles apagam.

    Mas temos compensações no mundo: li seu livro sobre Artaud e ainda me deleito com ele sempre que preciso de um pouco de subversão, rs. Tomara que a LP&M faça nova edição: é muito precioso. E me lembro que Freud tb falou sobre a poesia: “Não há um lugar onde eu vá, onde já não tenha estado um poeta.” Lacan corrobora. Belo post, de muita riqueza, como tantos outros.

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  2. Desde ontem estou procurando ler algo sobre as biografias dos “papáveis”. A situação é séria. Quase todos são conservadores; alguns são tidos como centristas, termo que não compreendo. O negro, de Gana, é conservador. Os brasileiros não me convenceram- conservadores também. Odilo Scherer senta a pua na teologia da libertação. Tarcisio Bertone é nazistóide (li no uol).
    Oscar Maradiaga (de Honduras) é considerado de esquerda/liberal; talvez o melhorzinho. O austríaco Christof Schönborn é contra o celibato e defende o uso de preservativos. Gianfranco Ravasi aceita a teoria da evolução e a vê compatível com a religião.
    Nenhum menciona coisas relevantes como o resgate da mulher para um lugar mais digno. Nem sei por que procuro me informar sobre essas coisas. Viva Artaud. Não haveremos de enforcar o último rei nas tripas do último padre?

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  3. Posted by Maurício on 03/03/2013 at 12:15

    Não digo, “viva Artaud”, digo viva você, Cláudio Willer! As informações, as críticas pontuais e des-pontuais, as pontas de uma lança, afiadíssimas, que se direcionam ao alvo/núcleo das palavras nos fazem espectadores do absurdo. Acompanho sua escrita há tempo, sua insistência e incômodo com as normas impostas e estabelecidas, com o status quo pregado pelos asseclas, pelos ortodoxos e dogmáticos se direcionam aos nossos olhos e se estendem ao nosso corpo e transubstanciam. Ler o que escreve é deleite e nos tiram da letargia. o que escreve passou à frente, faço reviver e criar desconforto. Ler você é sair da mesmice, é ver o mundo, os poetas, os homens comuns com outros olhos. Você proporciona o espanto. Como digo aos mesmos alunos, se espantem, alarguem as mentes, vejam o que está por trás das tintas e da moldura. Acompanho seu blog, acompanho você no face, acompanho você com meus alunos, nas salas de aula, em que eles falam, se indignam com os vieses da vida. Só tenho que agradecer. Se aproximei de Artaud, Paulo Mendes Campos, da Geração Beat, você tem uma maravilhosa participação. Obrigado!

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