O que dizem os prelados

Uma espantosa torrente de bobagens provém, por estes dias, de autoridades eclesiásticas.

Ontem, sábado 02 de março, conforme matéria em O Estado de São Paulo, o cardeal espanhol Julián Herranz, um dos autores do dossiê sobre escândalos na Santa Sé, não apenas reclamou de hipocrisia dos que criticam a Igreja católica; mas declarou que essas críticas provém de “uma sociedade que está se neopaganizando”.

Então está havendo neopaganismo hoje? Em que consiste? Em mais leitores de Hölderlin, procurando resgatar e trazer de volta os antigos deuses pagãos, que se retiraram do mundo em um tempo de carência? Em apreciadores de Novalis, cultuando Jesus Cristo do modo como o poeta romântico propôs em Geistliche Lieder, como restaurador dos deuses e cultos da Antiguidade? Aqueles que partilham o lamento de Baudelaire, antecipando Nietzsche, por Vênus,  “a radiosa Vênus antiga, a Afrodite nascida da branca espuma”, que “não atravessou impunemente as horrendas trevas da Idade Média”, haver-se retirado?

Ou refere-se o cardeal aos adeptos dos cultos sincréticos afro-americanos, umbanda, candomblé, tambor de Mina, catimbó, pajelança, santería, vodu? Ou, ainda, utiliza-se do termo no modo genérico, como antigamente, para justificar intervenções militares e empreendimentos de colonização?

“Paganismo” pode ser o politeísmo e panteísmo das religiões arcaicas, para as quais a natureza é sagrada, povoada de deuses. A causa da defesa do meio ambiente agradeceria por seu retorno.

Já Ratzinger, ainda durante seu pontificado, reclamou do “relativismo”.  Novamente: o que é isso? A que corresponde? A um crescimento dos leitores de Michel Foucault, com sua arqueologia do saber, relativizando-o? Aos seguidores das teses de Whorf-Sapir, o assim chamado relativismo lingüístico (com o qual concordo), segundo o qual diferentes línguas produzem visões de mundo e culturas diversas?

O antônimo de “relativismo” é “absolutismo”: um regime político. Isso esclarece o sentido da crítica de Ratzinger ao mundo moderno. É mesmo a reivindicação do espírito da Contra-Reforma, contrário á separação entre Estado e Igreja, essa conquista do Iluminismo.

O cardeal de São Paulo, Scherer, por sua vez reclamou em entrevistas do “hedonismo”  nas sociedades contemporâneas. O que é hedonismo? Uma corrente filosófica que consagra a felicidade, o prazer, o viver bem. Uma de suas expressões, o epicurismo. A busca da felicidade, de uma vida melhor, é direito consagrado nas declarações de direitos humanos e da cidadania, e em constituições, inclusive a nossa. Se dependesse dele, reverteria mais essa contribuição do Iluminismo.

A Igreja pré-conciliar, que beleza. Pacelli, o papa Pio 12: outro dia jornais divulgaram uma correspondência dele ao comando norte-americano, pedindo que, na ocupação de Roma, não mandassem soldados negros.

Os confrontos de religião e ciência: antigamente, a Igreja era contra o modelo heliocêntrico de Copérnico e Galileu; mais tarde, foi contra o evolucionismo de Darwin, além de se escandalizar com Freud; hoje, é contra a medicina genética, a pesquisa com células-tronco.

Nas décadas de 1950 e 1960, o projeto de instalação de um Museu de Arqueologia na USP, de Paulo Duarte, foi retardado por causa da pressão contrária do cardeal de São Paulo na época, Dom Carlos carmelo de Vasconcelos Mota. Alegação: iria difundir o evolucionismo de Darwin.

Os regimes católicos: no Portugal salazarista, maçons recebiam o mesmo tratamento, cadeia, que os comunistas. Franco, já na década de 1960, diante de um atentado contra seu regime, também acusou publicamente os maçons (e os comunistas, claro).

Prelados, apoiados em ordens religiosas obscurantistas, Opus Dei e afins, empenham-se em favor de um insensato e impossível retorno a esse estado de coisas. São coadjuvados por seitas e grupos religiosos de outras denominações. Mesmo com o crescimento, nos últimos anos, de sua representação política, não reverterão avanços promovidos pelo Iluminismo, por movimentos sociais, mais recentemente pela contracultura e rebeliões juvenis. Mas incomodarão, darão trabalho, além de provocarem confusão e mais cenas constrangedoras e grotescas como essas a que temos presenciado.

Anúncios

4 responses to this post.

  1. A institucionalização da fé ( se é que esse império clerical ainda conserva algo relativo a fé) está rumando para a derrocada final e isso se evidencia em cada declaração de ódio e censura proferida por estes sacerdotes da vergonha. O apocalipse se anuncia e será tão estrondoso quanto o bater de asas de uma mariposa. Bem vindo seja o mundo novo.

    Resposta

  2. Posted by Eduardo Toledo on 04/03/2013 at 07:12

    Ao ‘profanar’ sem entendimento de causa o tal “neopaganismo”, ao reclamar e não explicar um tal “relativismo” – a histórica instituição está fazendo de tudo para se isolar de vez da população e decretar oficialmente sua decadência. Mais parece o corpo legislativo brasileiro… Neopaganismo não exclui o monoteísmo. Relativismo parece excluir o rito ecumênico cada vez mais adotado por religiosos. O nosso Cristo é outro.

    Resposta

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: