A eleição

(certos temas, prefiro esperar 48 horas antes de tratar deles)

(sim, meu título copia aquele de um filme de 1999, Election, protagonizado por Matthew Broderick e Reese Witherspoon, dirigido por Alexander Payne – tem em DVD – é sobre hipocrisia, carreirismo e oportunismo)

A combinação de exibicionismo e ingenuidade do pastor- deputado Marco Feliciano, do PSC de São Paulo, o fez ficar famoso. Talvez não do modo como gostaria. Circularam suas declarações racistas e homofóbicas, o vídeo em que aparece achacando um fiel, a notícia do processo por estelionato, os inquéritos no Supremo; repercutiram as manifestações de protesto contra sua eleição como presidente da Comissão de Direitos Humanos e minorias da Câmara Federal.

Ou não, para ele tanto faz. E se não fosse Marco Feliciano, teríamos outro igualzinho, da mesma bancada, partilhando o mesmo credo. Parece aqueles personagens do filme Matrix, sinistros invasores vindos de uma realidade virtual, todos com o mesmo penteado, mesma cara, mesmo terno, mesmos óculos escuros.

Sua eleição resultou de um arranjo entre partidos. O PT abriu mão da comissão, à qual historicamente era ligado, em troca de outras que apresentam maior interesse pelo acesso a recursos, controle de cargos ou algum outro modo de influenciar a administração pública. A bancada petista retirar-se em protesto, acompanhada por aquela do PDT, foi jogo de cena. O PC do B poderia ter ficado com essa comissão, mas preferiu a Cultura – no jargão, evitou as bolas divididas. O PSDB, que já teve lideranças ativas na defesa dos direitos humanos, em um desempenho vergonhoso, apoiou integralmente a eleição de Marco Feliciano. O PMDB foi decisivo na sua articulação, através do deputado Eduardo Cunha, que atuou como ponte entre a “bancada evangélica” e ruralistas. Protestos de verdade, apenas do minoritário PSOL.

Outras indicações para comissões também ilustram a metáfora da raposa cuidando do galinheiro. Expõem o rebaixamento da representação parlamentar no Brasil. Nunca foi grande coisa: o escândalo dos “anões do orçamento” aconteceu em 1993. Desvio de recursos através de emendas parlamentares é endêmico em nosso país. Contudo, esforçam-se para mostrar que, através da atuação de grupos bem organizados, principalmente religiosos, beneficiados pela facilidade para criar siglas partidárias, sempre é possível piorar.

Agora, esperar o que vem aí. Muita coisa, certamente. Haverá obstáculos nas tentativas de redução da violência contra homossexuais. Outro tema que entraria em pauta é o reconhecimento dos “profissionais do sexo” – mulheres e também homens. Mais uma comprovação da hipocrisia brasileira – há países em que a comercialização do sexo é proibida, outros em que é permitida e regulamentada. Aqui, a legislação finge que não existe, à parte a proibição da “exploração do lenocínio”. Regulamentação, reconhecimento da profissão, possibilitando declarar rendimentos e alguma aposentadoria, retiraria pessoas de situações degradantes, reduziria sua exploração. Terão que esperar. E bastante, em face do empenho de Marco Feliciano e seus pares, assistidos pela maioria cúmplice, na restauração do ensino religioso, em estampar “Deus” nas cédulas da moeda brasileira e reverter a separação de religiões e Estado.

Subirei o tom, nas próximas ocasiões em que tratar de Geração Beat, contracultura e sua contribuição em favor de uma sociedade mais aberta. Quando Sergio Cohn se dispôs a publicar meus manifestos pela editora Azougue, achei que o mais antigo, de 1964, poderia ser anacrônico. Não é mais. Reacionários me atualizam. Em 1964, o jornal Última Hora de São Paulo publicava com destaque uma série de artigos do Padre Charbonneau combatendo o homossexualismo. A polícia invadia “hotéis suspeitos”, que recebiam casais sem a certidão de casamento. Uniões estáveis eram algo espúrio. Moças “de família” terem vida sexual, um problema sério. Pouco antes, o então governador Janio Quadros havia proibido sumariamente a inócua peça Quarto de empregada, de Roberto Freire. O jornal A Gazeta, por um tempo o mais lido em São Paulo, publicava uma coluna chamada “Cotação moral dos espetáculos”, comentando o que era aceitável ou não, nos filmes em cartaz – isso, mesmo com a pesada censura em vigor.

Belos tempos. Chegaremos lá, voltaremos a esse estado de coisas, se depender de Marco Feliciano e seus numerosos confrades. Dará trabalho retornar ao futuro, restaurando conquistas do Iluminismo e das rebeliões românticas.

Minhas alusões ao cinema – em um poema, já escrevi: “a vida como um filme passando” – mas não achava que o sentido da frase seria esse.

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2 responses to this post.

  1. Excelente texto, Cláudio!

    Vi que Antonio Cícero e Adriano Nunes também já se manifestaram quanto ao ocorrido…
    Não seria possível buscar um engajamento por parte da UBE para reforçar a oposição a este absurdo?

    Tudo de bom!

    Responder

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