Mais censura: agora, o caso Kassandra em Santa Catarina

A seguir, texto vigoroso de Marco Vasques sobre censura a uma peça teatral em Santa Catarina.

Como prolifera. Tivemos a apreensão de livros em Macaé, a lei em favor da moral e dos bons costumes no Rio de Janeiro, os incríveis casos no Facebook (os mais recentes, mais uma foto de jornal de índios brasileiros e uma foto de 1939 exposta no museu do Jeu de Paume em Paris…), cláusulas de censura prévia em edital do Ministério da Cultura – tudo registrado aqui, neste blog. Haverá mais, receio.

Após a reprodução do artigo, alguns links: sobre o Erro Grupo, também catarinense, que foi autuado por causa de uma cena de nudez de 30 segundos; reprodução da matéria de Marco Vasques na revista catarinense Osiris; matérias em O Estado de S. Paulo de hoje sobre ocupação de comissões pela “bancada evangélica” – costumavam chamar a isso de aparelhamento.

CASO KASSANDRA

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [18/03/2013]

Todos sabemos, pelo menos aqueles que vivem intimamente no meio teatral, que durante o último Festival de Teatro Isnard Azevedo tivemos um caso explícito de censura por conta da nudez cênica. Como se a nudez não estivesse todos os dias ao nosso alcance por tudo o que é meio de massa que insiste em fazer do corpo mais um produto do capitalismo. Todos sabemos, pelo menos aqueles que presenciaram, que o Erro Grupo foi autuado por conta de um nu de 30 segundos, que era um dos possíveis finais do espetáculo Hasard. Todos sabemos que a peça teatral O Tempo de Eduardo Dias – tragédia em 4 tempos, dos escritores Amílcar Neves e Francisco José Pereira, sofreu interdição judicial.

Todos sabemos que uma empresa, vendedora de planos de saúde, exigiu de um músico ― que pleiteava recursos para fazer seu álbum ― que retirasse algumas frases de umas letras. Ele retirou e foi agraciado com o famigerado recurso. Todos sabemos que a mesma empresa, que pretendia apoiar um livro de contos, exigiu que o autor retirasse um conto em que um dos personagens, um adolescente de 15 anos, morre divagando sobre a possibilidade de todas as enfermeiras agirem como prostitutas, doando-se fisicamente a todos os enfermos com um ato de extrema unção. O autor não aceitou e não recebeu o recurso solicitado.

Todos sabemos que a Ditadura Militar perseguiu, matou, censurou artistas e intelectuais. Todos sabemos que entramos em outras ditaduras: a do consumo, a da economia, a da ignorância, a da intolerância, a da opressão, a da omissão… Agora, todos ficamos sabendo que o espetáculo Kassandra, que é um ato poético grandioso, foi censurado por ter como cenário uma das casas de diversões mais famosas da cidade, o Bokarra.

Tudo que tínhamos para falar sobre as qualidades estéticas, poéticas e cênicas de Kassandra já expusemos neste jornal, onde exercemos também a crítica teatral. Talvez seja preciso dizer que o espetáculo Kassandra usa o Bokarra Club apenas como cenário, ou seja, o bordel fecha para recebê-lo; talvez seja preciso dizer que Kassandra é um trabalho construído com o aval financeiro da Fundação Nacional das Artes; talvez seja preciso dizer que a censura tem que ser combatida, jamais aceita; talvez seja preciso dizer que aceitar a ingerência, em uma programação cultural que tem uma curadoria, revela muito do que gestores, políticos, artistas e produtores culturais são capazes de fazer (ou não) para alcançarem seus objetivos; talvez seja preciso rever ― e os franceses estão fazendo isso ― o namoro milenar entre o poder político e a arte; talvez seja necessário saber quem solicitou a ausência de Kassandra na Maratona Cultural e indagar o motivo do “pedido” e, talvez, o mais triste dos talvezes seja pensar porque se aceitou tal “pedido”.

http://www.errogrupo.com.br/v4/pt/

http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,evangelicos-miram-comissoes-que-tem-poder-de-barrar-temas-sensiveis-a-igreja,1009916,0.htm

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,de-cada-7-deputados-1-faz-parte-da-bancada-,1009985,0.htm

http://revistaosirisliteratura.wordpress.com/

Haverá mais – receio.

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2 responses to this post.

  1. tempos de censura explícita depois da humanidade ter caminhado tanto no sentido contrário.
    Que estranhas são as instituições e um grande número de pessoas que ainda se sentem ofendidas com a nudez!! fico indignada, ou melhor, ruborizada de tanta vergonha desses seres!
    e vivem no século XXI!, mas com a cabeça e os culhões na Idade Média.

    Lamentável!

    Instigante post, professor!

    Beijos!

    Lu

    Resposta

  2. digo, colhões

    Resposta

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