Novidade editorial: Ivan Goll pela Sol Negro

Já havia comentado aqui as refinadas publicações da Sol Negro Edições de Natal, RN, de Márcio Simões, a propósito de III novelas exemplares & 20 poemas intransigentes de Hans Arp e Vicente Huidobro, preparada por Floriano Martins. Também mencionei, da mesma editora, a bela tradução de Visões das filhas de Albion de William Blake por Simões e uma série de poemas em prosa por Viviane de Santana Paulo e Floriano Martins.

São tiragens limitadas de exemplares numerados; podem ser encomendadas à editora através de sua página de internet, solnegroeditora.blogspot.com.br.

Agora, Simões publicou uma coletânea de poemas de Yvan Goll, O fruto de Saturno, também com tradução dele. É bilíngüe: vem com o original em inglês e introdução de Nan Watkins.

Cobre lacunas culturais.

Yvan Goll (1891-1950), franco-alemão (publicou nas duas línguas), judeu que se refugiou nos Estados Unidos, é nota de rodapé em histórias da literatura por haver publico um Manifesto do surrealismo em 1924 (também reproduzido nesta edição). Motivou Breton a fazer o seu, muito mais substancioso. O manifesto de Goll é episódico: comete o erro de reclamar por causa da adoção de Freud por Breton e seus companheiros: justamente uma das suas contribuições importantes, ao ampliar o campo da poética. Ademais, já se declaravam surrealistas desde 1921.

A leitura deste O fruto de Saturno de Goll mostra um poeta original; e, principalmente, um esoterista: mais um para o rico capítulo das relações entre poesia e as disciplinas herméticas. (nesse registro, da convergência de esoterismo e poesia, aposto que um dos próximos editados por Simões será René Daumal)

Selecionei alguns poemas de O fruto de Saturno:

ELEGIA DO ÁTOMO
a Lukas Foss
I

Assim a centelha prometeica retorna
À sua fonte desfeita

Nos pomares de pechblenda nasceu o fruto sagrado
Doce átomo cindido em seu centro fetal
No gêmeo nascer-morrer do destino

A alta voltagem da ira
Fez a pedra correr como óleo
O aço ferver até o vapor
Deidade atômica
Bombardeia meu coração à vontade
Com os nêutrons de tua verdade
Transforma meus olhos em estrelas amarelas de nitrato
Aceito secretamente com a sabedoria da pomba
Minha morte e ressurreição

II

O raio dos raios estilhaça minha alma insana
E me alimenta de energia desumana

Oh nova natividade no berço proteico
Oh festival da morte para as coxas feridas e fatigadas da terra
Libertando o amor concêntrico

A Árvore da Ciência florescendo à Saturno
Acrescenta à trindade real

Rosa espiritual de séculos passados
Roda mestra do mundo das rodas
Era luz essa rosa

Era redonda
Como a rosa do universo
Como meu olho onde todos os olhos se escondem
Redonda como o orvalho
Redonda como minha cabeça
Onde as estrelas de milhões de átomos amadurecem

III

No começo era o verbo
No começo era o número

O verbo: essência primeva da qual
Em sete mil noites de labores
O Cabalista compôs os 70 nomes de Deus

O verbo: Guia dos Perplexos
Vindo do carvão da memória

O elemento dos elementos
Despejado na forja mental

Oh ao som da música de estrelas minguantes
E do delírio de sinos prenhes
Saídos de meus sonhos algébricos
E medos muito mais velhos
Dança: meu átomo amado
Carnotita transfigurada

IV

A Vestimenta Divina cobria minhas coxas acariciadas
Junto às bestas sagradas e aos anjos enlouquecidos

E os 10 números oriundos da testa de Adão
A fruta esférica da Sephiroth
Tornaram-se os emblemas de sua coroa

A cifra: berço da esfinge
Memorial de auroras pré-natais

Depois do tripé de Delfos e do domo das catedrais
Das harmonias rodopiantes de Pitágoras
Depois da pira de Bruno e do tempo de Einstein

Conduzindo a roda
O 10 novamente no doce urânio 235
O raio sete vezes colorido
Surgindo do Si-Mesmo moribundo
O Infinito violentado em Alamogordo

V

Substância e Emanação Única: Ibn Arabi
Deus em Nós Nós em Deus: Santa Teresa
Um em Tudo Tudo em Um: Zósimo
A rocha anciã da contemplação
Extraída agora com a energia de edelvais

Molécula amada
Lançada do passado ao futuro
Pela minha alma

O globo de gás azul sobre meu crânio
Subitamente vazio
Vazio como um átomo-arrebite enferrujado
Carregando o cadáver de Deus

E o homem solitário solitário

 

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