A festa e o homofóbico

No final de 1959, morava com meus pais no Brooklin Novo, Rua Michigan. Ao nos mudarmos daquele ermo, resolvi dar uma festa de despedida do lugar. Aproveitei que meus pais saiam aos sábados à noite, deixando a casa à minha disposição. Juntaram-se duas turmas – a da ACM, Associação Cristã de Moços, onde eu nadava e coordenava um grupo de música; e a dos freqüentadores dos bares atrás da Biblioteca e na Avenida São Luis, por onde também já circulava: então, o ponto de encontro de uma fauna híbrida, de intelectuais e artistas a playboys, passando pelas amostras então possíveis da diversidade sexual. Não convidei, propriamente – como sempre, a notícia se espalhou, as pessoas vieram.

Não vi muita coisa daquela festa. A maior parte da noite, fiquei no carro de um amigo estacionado em frente da casa, entretendo-me com uma moça – juro, não me lembro mais quem era. Saí do carro e voltei para dentro da casa térrea pouco antes de meus pais chegarem – viram muita coisa, um belo panorama de fim de festa. Dois amigos meus, André e Demétrio, estendidos no chão do quarto deles, desmaiados de tanto beber (o que rolava então? vodca? também não me lembro). Viram outros desmaios, bagunça, sujeira pra todos os lados. Não deram escândalo, eram tolerantes, só ficaram olhando enquanto todo mundo levantava acampamento. Já era madrugada mesmo e o Brooklin ficava longe,os  bêbados iam sendo carregados e enfiados nos automóveis, outros seguiram a pé.

Das cenas hilariantes, de algumas, fiquei sabendo depois. Um grupo que bebericava na cozinha. A mocinha – graciosíssima, uma loira de olhos azuis e pele clara, cara de boneca – da turma da ACM, Aninha, chamava-se, e o namoradinho dela. O atraente ator gay da turma da São Luis, Jean Lafont  (que fim terá levado?) pegou na mão do rapaz que aceitou, deixou-se acariciar, Aninha, quando reparou, teve um ataque, começou a gritar. Outras cenas, Sergio Mamberti, que estava lá (e não freqüentava a ACM) me relatou anos mais tarde – houve algo no quintal dos fundos.

Veio à festa um rapaz, da turma da ACM, um chato: acho que se chamava Milton, mas não tenho certeza. Fazia o tipo compenetrado. Especialidade dele eram reclamar de homossexuais. Eram “problemados”, dizia, em um tom dramático – como é que podia uma coisa dessas, ficava repetindo. Mal o tolerávamos. Homofobia era a regra, homossexuais – naquele tempo dizia-se “entendido”, e não “gay” – eram um bocado segregados – ou então, se enrustiam, ficavam no armário.

Um amigo, Roberto Amaral (outro que nunca mais) me contou, contorcendo-se de rir: o terreno baldio ao lado de casa, alguns da festa transferiram-se para lá (foram fazer o que? fumar maconha?). Pois bem, aquele Milton ofereceu o seguinte espetáculo: esqueceu suas reservas com relação ao homossexualismo, encostou-se em  um rapaz; baixou suas calças, virou-se de costas, curvou-se, agarrou o pau do outro e o enfiou em seu rabo. Assim – sumariamente, rapidamente, com a maior naturalidade.

Existe toda uma literatura com enredos de machões que soltaram a franga – João Silvério Trevisan dedicou alguns contos ao tema.  Roberto Piva, muito atento a tudo que fosse relato perverso, certamente saberia de histórias parecidas, dos momentos em que alguém teve a revelação da sua identidade sexual.

Desde aquela noite, o desbravador dos matinhos da Rua Michigan nunca mais foi visto. Que fim terá levado? Sabendo-se flagrado, resolveu sumir? Entrou no exército? Procurou um psiquiatra? Escondeu-se em algum nicho burocrático? Filiou-se a algum culto religioso?  Assumiu-se como “entendido” e passou a circular em outros ambientes? A viver com um amante, e ambos foram felizes para sempre? Ou radicalizou e virou travesti? Não que me interesse saber o que houve com ele – bastou ter-nos oferecido aquela performance exemplar, didática.

Generalizações devem ser evitadas. Não seria capaz de afirmar que todo oponente dos gays consome-se no desejo de fazer uma coisa dessas. Mas o episódio é paradigmático. Tem um elevado valor simbólico, ou como metáfora. Gays, em meio século, ganharam alguns direitos, algum reconhecimento. Apesar de uma forte reação conservadora, mobilizando, acredito, todos os êmulos daquele pretérito e obscuro Milton.

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3 responses to this post.

  1. Posted by Guilherme Ziggy on 11/04/2013 at 21:15

    Muito bom, Willer! Nos mande mais crônicas, teu humor ácido é uma beleza.

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  2. Nesta idade uma vez saímos todos nus da casa do Zé Lucas que trabalha no Hospital vera cruz em patos de minas e você pode ligar para ele fim de festa fim de álcool depois de chuva e a terra vermelha de Brasilândia de Minas molhada nós todos de pantalonas bocas de sinos queríamos ir no Guim ( o dono do bar mais brabo da cidade com fama de matador da lagoa grande…conversas de cidades pequenas…)tomar umas cervejas mas disseram vamos sujar as roupas e eu vamos deixar todas as roupas aqui e assim fizemos deixamos nossos montes de panos na casa do nosso amigo e fomos nus demos boa noite sentamos e pedimos cervejas ele saiu do balcão atendeu como se estivéssemos vestidos brincamos falamos rimos muito depois não sei quem pagou acho que Horley quando ganhamos a rua ainda rolou uma guerra de barro & poças…ERA 72 para 73. nasci em 58, aí em São Miguel Paulista, do lado daquela igreja de pau Brasil que diziam que foram os índios que construíram.

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  3. Ótima crônica pelo tema e todos os personagens envolvidos. Falávamos outro dia do quanto os gays se organizaram, poucos segmentos conseguem colocar dois milhões de pessoas em manifestações na rua. Na contrapartida, temos hj a ala conservadora , incluindo católicos e evangélicos, que tb colocam 2 milhões de pessoas nas ruas. A gente fica embasbacado e, como tb disseram outro dia: “E agora? Resta seguir Jesus ou …Madonna.” rs,

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