Subliteratos raivosos e outros abantesmas

Foram dois, em uma semana.

Um, de São Luis, MA – pediu meu endereço, mandou-me o livro dele, quis saber o que achei, escrevi-lhe que não havia gostado, respondeu com desaforos e recusou minha sugestão de relacionar-se com o bom ambiente literário daquela cidade.

Outro, após inumeráveis pedidos de opinião, parecer, recomendação, quando lhe respondi, expondo o que achava, xingou-me e ainda postou mais alguns insultos no Facebook. Depois, desculpou-se.

Portanto, chega. Doravante, só leio de quem já conheço – e a quem aprecio. Fechei o guichê.

Talvez devesse cobrar. Inventar uma tabela. R$ 538,00 para examinar originais ou novo livro, que tal? Se for mais longo, narrativa em prosa, então R$ 723,00? Prefácio breve: R$ 614,00? Posfácio mais ensaístico, R$ 911,00? Isso, se gostar, pois não sou pluma de aluguel. Para quem estiver em dificuldades, grana curta, deixo por R$ 427,00, afinal, não sou explorador dos pobres. Tem gente imbuída de respeito profissional que me paga. Editores, empresas ativas, evidentemente, o pagamento é condição preliminar. Afinal, não recebo para ser banca de teses? Para colaborar em publicações de empresas jornalísticas?

Postagem aqui, neste blog, e não só no Facebook, é para dispor do link e já ir mandando para quem me procurar.

Ah – blogueiros, também – virou proliferação.

Idem, com relação a pedidos de entrevista. Transcrevo, ao final, o acesso à crônica de Nelson Motta no Estadão. Muito verdadeira: se fossemos atender a todos, não sobrava tempo para mais nada. Tem gente querendo resolver com entrevistas o que deveria ser objeto de pesquisa bibliográfica. Perguntam-me aquilo que deveriam ter lido. Faz tempo – a repórter do Jornal do Brasil em 2005, sobre o cinqüentenário do Uivo de Ginsberg e minha tradução, “Ih… Não deu tempo de ler…” – livro de bolso, que tem em todo lugar.

Fiz uma pasta, “entrevistas comigo”: são 146 arquivos, repetem-se um bocado. A indefectível pergunta sobre o início da minha relação com literatura beat; ou seja, o que já relatei no capítulo final de Geração Beat – a outra, sobre o que me fez ser poeta – às vezes, uso o recurso copiar / colar, tiro respostas de um arquivo e ponho em outro. Jamais perceberão.

Imagino como deve ser com autores que têm visibilidade bem maior – os Affonso, Augusto, Ferreira Gullar etc. Reclamação de Drummond é famosa. Só não esperava repeti-la.

Assombrações em equipamentos culturais. Como, normalmente, não cobram ingresso, então tem gente que vai lá por não ter para onde ir, não dispor de alternativas de lazer. Antes, havia mais. Antiga sede da UBE era muito mal assombrada. Auditório da Biblioteca Mário de Andrade, vinham figuras de arrepiar os cabelos – interrompiam palestras, às vezes. Apareceu um fantasma desses na abertura do meu curso sobre poesia e prosa, na Biblioteca Alceu, mês passado – felizmente, ficou só cinco minutos (retornou ao cemitério adjacente…?) Perguntar ao Fred Barbosa como ele faz na Casa das Rosas, que filtros usa, como exorcizou – faz tempo que não observo aparições por lá.

Sobre filtros e exorcismos: sei alguns. Tempos atrás, acho que em 2003, iniciava uma oficina de criação poética na Casa da Palavra em Santo André. Inscrições eram abertas, nenhuma seleção prévia. Sala lotada, mais de quarenta pessoas. Tinha de tudo. Uma senhora: “Leituras…? Não, não costumo ler…. Poesia…? a gente escreve poesia na comunidade…”. O robusto sindicalista, havia estudado Marx e Lênin, agora lia Stalin; literatura, só Brecht. Dia seguinte, passei na xerocopiadora perto de casa, tirei quarenta cópias de uma das minhas edições de The Waste Land, Terra sem vida, de T. S. Eliot, bilíngüe e com notas, montei, grampeei, distribuí na outra sessão para os que vieram – alguns, já havia afugentado com minha explanação sobre Baudelaire – e anunciei: “Quero que todos leiam, vamos discutir este poema na próxima sessão, sei que é um texto difícil, então, se não entenderem alguma coisa, não se preocupem…” Na sessão seguinte, dos quarenta, vieram dezesseis. Declarei: “Ótimo..! Agora, somos uma elite cultural..!” José Geraldo Neres fez parte, acho que Edson Camargo também, e mais alguns poetas e prosadores que consolidaram seu estilo e ampliaram seu conhecimento – tanto é que, a pedido dos participantes, voltei, acabei coordenando oficinas lá por três anos consecutivos.

Não facilito, participantes de cursos e oficinas devem agradecer-me  por isso. Cito, às vezes, o trecho de A outra voz de Octavio Paz sobre leitores de Dante e Petrarca em seu tempo: minoria, uns poucos, elite; mas uma elite que incluiu rebeldes, pessoas que ajudaram a mudar a história, transformar a sociedade. Nesse sentido, faço questão de ser elitista. Populismo rebaixa, deixa tudo como está.

O link do Nelson:

http://arquivoetc.blogspot.com.br/2013/04/boca-livre-cultural-nelson-motta.html

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13 responses to this post.

  1. Fez bem em esclarecer, acompanhei alguns posts na sua página que davam pistas sobre essas “assombrações exigentes”, mas só agora entendi tudo. É isso mesmo, tem gente que quer sugar conhecimento de canudinho. Mais: tem que gente que acha que talento, disciplina e outras coisas necessárias à literatura são produzidas por osmose. E tem ainda os que só querem ficar perto dos notórios mas não dão nem amizade sincera em troca e à primeira insatisfação usam sua notoriedade para promover um escândalo, uma exposição que se tornará conhecida porque leva …o seu nome. Estes nem são capazes de promover um escândalo sozinhos! Exorcismo neles. Bjs!

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  2. Pelo que conta, uma oficina com vc deve ser muito interessante. Se morasse em São Paulo, participaria. Alias, furei um encontro (mas fui, mais tarde). Já dei oficinas de criação literária e sempre tenho medo de quem vou encontrar lá. É como você descreveu. Qdo eu dei minhas oficinas a direção da “casa” me puniu por dar conteúdo demais aos alunos.. A seguir, acabaram, com as oficinas de poesia, dizendo que não havia demanda. Ainda tenho esperanças de te conhecer, um dia. Enqto isso te acompanho pelo Face. bjs!

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  3. A lucidez de Willer faz com que certas pessoas se envergonhem ao dirigir qualquer palavra sem polimento em sua direção ou comportamento. O poeta não é um ‘escravo’ das vaidades de terceiros. Respeitem o poeta no seu sagrado sossego! Como disse Ginsberg: ” Nunca é tarde para não fazer nada. “

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  4. Acho que não vai se lembrar, fui na premiação, você julgador, um privilégio ser um dos escolhidos, outro havia sido, o Geraldo Neres, conversamos enquanto aguardava o transporte que o devolveria à casa, pedi um conselho seu, a resposta: escreva e escreva e escreva… É isto, sem suor, não há bom resultado, não só na escrita, em qualquer atividade. Continuo a seguir seu conselho, há muito caminho pela frente. Quanto aos que não aceitam crítica, acredito ser fruto da falta de debates, de uma escola que estimule a reflexão e a autocrítica, estamos a colher o que nossa sociedade plantou, com seus anos de milagre econômico… Colhemos miséria, consumo possessivo, exercício de facilidades e mais a soberba adubada pela mediocridade. Muito bom seu texto, como sempre.

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  5. essa galera é muito insana!! tudo por um pedaço de osso midiático!

    Ri demais agora lendo seu post; amei a tabela de preços! genial!(então terei de pagar R$ 427,OO – Você divide no cartão? hehe)

    se quiser uma administradora de recursos, estou às ordens. hehe…

    Beijos, professor!

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  6. Posted by Jennyfer Galdino on 14/04/2013 at 19:04

    Poxa, Willer. Eu fico pensando no desespero humano por atenção. Acho que sou mais acanhada quanto à isso, há tempos que estou ensaiando escrever um mero comentário por aqui…. É quase o ‘encontro com o maravilhoso’ poder dirigir a palavra às pessoas que a gente admira. Seria muito difícil pra mim, como simples leitora, dizer qualquer coisa que fosse. Acho que porque a maioria dos autores que eu leio hj não estão vivos. É bem mais simples uma comunicação indizível com os meus sentimentos gritando enquanto os leio. Pras pessoas mais próximas, que vão sendo devoradas pelo mundo, esquecendo da sede por um ‘oceano inteirinho pra nadar’, esquecendo dos detalhes crus e suculentos da vida, eu fico dizendo ‘não deixem comer sua poesia’. Sei lá, eu fico meio chateada, porque nós acabamos perdendo a fé nas pessoas quando isso acontece. As coisas que mais me impressionam me deixam emudecida. Eu até hj tenho dificuldade pra falar sobre Kaddish ou sobre Leonilson. Tem quase 5 anos que eu li o primeiro, tem quase um ano que eu fui numa exposição do segundo. Tem quase 40 min que estou tentando escrever esse comentário…. Palavras nunca expressarão o quanto seu trabalho significa pra mim. Bjos !

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  7. Adorei mestre, ri muito tb da tabela de preços toda quebradinhaaa…., e está certíssimo de cobrar, ainda achei barato, afinal o tempo de todos custa sempre algum valor, porque vc tem que ler e opinar de graça? bjs Ana Acquesta

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  8. Lembro até hoje desta oficina da Casa da Palavra em Santo André, foi uma das emlhores coisas que aconteceu em minha vida, literária e não literária.

    Mas acredita que ela tenha terminado com menos de dez pessoas.

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  9. Certeiro, Willer. O problema maior, contudo, é que os pedantes e pedintes não estão aqui nos Comentários. Eles não o leem (nunda leem ninguém – talvez apenas o subescritos que escrevem), e mesmo que o fizerem, não compreenderão. E na primeira oportunidade estarão de novo estendendo as mãos.

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  10. Posted by Sarah Helena on 17/04/2013 at 02:20

    E como foi produtiva a leitura de Waste Land, de abrir a cabeça na base da britadeira.

    Sempre que aparece assombração numa discussão, saco umas citações das suas oficinas. Tem sido meu exorcismo pessoal contra gente avulsa que vem falar besteira quando discuto literatura pela internet.

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