Mais sobre subliteratos, abantesmas, íncubos e súcubos, encostos e outras manifestações

Dos comentários que minha postagem anterior recebeu, transcrevo um, para dar maior visibilidade – é de Carlos Pessoa Rosa, editor do Meiotom, além de poeta refinado. Entende que esse problema – novos autores (e alguns mais velhos) que extrapolam, sem autocrítica e senso de medida – é cultural e educacional. Resulta de falha do sistema de ensino:

Acho que não vai se lembrar, fui na premiação, você julgador, um privilégio ser um dos escolhidos, outro havia sido o Geraldo Neres, conversamos enquanto aguardava o transporte que o devolveria à casa, pedi um conselho seu, a resposta: escreva e escreva e escreva… É isto, sem suor, não há bom resultado, não só na escrita, em qualquer atividade. Continuo a seguir seu conselho, há muito caminho pela frente. Quanto aos que não aceitam crítica, acredito ser fruto da falta de debates, de uma escola que estimule a reflexão e a autocrítica, estamos a colher o que nossa sociedade plantou, com seus anos de milagre econômico… Colhemos miséria, consumo possessivo, exercício de facilidades e mais a soberba adubada pela mediocridade. Muito bom seu texto, como sempre.

Seria o fenômeno especificamente brasileiro, relacionado a nossos quase 70% de analfabetos funcionais, à fragilidade de nossas políticas culturais públicas, à falta de críticos e de leitores profissionais em editoras? Lembro-me de um filme, O rei da comédia, The king of comedy, de 1982, com Robert De Niro e Jerry Lewis, de Martin Scorcese: De Niro é o admirador obcecado, que seqüestra Lewis, seu ídolo. Outro, mais recente, A janela secreta, The secret window, com Johnny Depp, que faz um escritor perseguido por seu alterego, interpretado por John Turturro. Ainda assim, europeus me parecem mais reservados e atentos a limites – é claro que não precisa chegar ao exagero do formalismo francês: “classe margistrale”, perguntas só depois da aula, e isso se o professor quiser atender, e para tratar alguém por toi e não por vous precisa de muita intimidade – os que vêm morar aqui preferem nosso estilo do pé na calçada com dedão de fora.

Literatos com epicentrismo, isso tenho visto há tempos, especialmente na UBE. Mas que o declínio das políticas culturais públicas contribui, quanto a isso não há dúvida. Vida cultural mais regular oferece parâmetros, orienta. A piora é, principalmente, nas municipalidades – já comentei isso antes. Basta ver Campinas, como era na década de 1980 e como está agora. Cidades ricas, que arrecadam bem, e sem verba nem para pagar cachê de conferencista. Outras, localidades pequenas, de 15.000 habitantes, com Secretaria de Cultura – pra quê? cabide de empregos? Tem a cidade pobre do Ceará que gastou seis milhões em shows, foi noticiado – estão investigando – fazem isso pelo Brasil afora, para contratações artísticas não precisam de licitação, então inventam esses eventos superfaturados. Só não entendo população local não sublevar-se, mas, ao contrário, comparecer. E não reclamar das condições da biblioteca local, se é que existe alguma. E o prefeito de São Carlos, SP? Encerrou pontos de cultura, um programa com verbas federais, acusando participantes de fumar maconha, como se uma coisa tivesse relação com a outra.

Populismo, em sua variante tradicional, ou na mais nova, sociocultural, também contribui. Participante de oficina comigo me relatou de outra a que compareceu, coordenada por uma professora de orientação sociocultural, o que viesse era recebido assim: “Muito bem! Você está se auto-expressando! É o mais importante!” Valor literário era, evidentemente, coisa de elite, pura expressão de preconceitos de classe.

 Enfim, há muita gente empenhada em mostrar que sempre é possível piorar.

Em tempo; Informa um leitor do facebook, Bahiaflaneur Flaneur: “para se ter uma idea : 500.000 reais, orçamento anual da cultura – nao tem secretario de cultura, tem uma fundacao gregorio de mattos – para a cidade de Salvador ! 500.000 reais.
E milhoes para axé, conselho do carnaval e banqueiros-empresarios-filinhos de papai grudados là dentro ha dezenas de anos…”

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3 responses to this post.

  1. já comecei a juntar os R$ 427,00 – O senhor não me escapa. hehe…

    Beijossss!!!

    saudades!

    Lu

    Responder

  2. Posted by Kátia Negrisoli on 15/04/2013 at 22:27

    Muito bom o texto e a referência feita às Secretarias de Cultura de cidades com um número pequeno de habitantes! Sempre é possível piorar e é o que vejo nestes 26 anos lecionando Língua Portuguesa para alunos da Rede Pública. Somos quase que coercidos a aceitar o ignóbil e débil como bom, fingir que está tudo bem e prosseguirmos com uma educação duvidosa, onde quem manda e direciona o currículo é o patrão e assim ficamos: piorados. Facilidade mais mediocridade é uma equação nada racional. Mesmo assim, prossigamos…

    Responder

  3. Estão confundindo cultura com business, atenção midiática ou uma arte-qualquer-coisa-pós-moderna. E dos poucos que têm compreensão, outro tanto fecha-se “à francesa” na redoma da “alta cultura”. Ficam poucos espaços para os que verdadeiramente pensam com isenção.

    Responder

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