Radovan Ivsic e Edmond Jabès na Casa das Rosas

Lançamentos de nada menos que Poesia Reunida de Ivsic e Desejo de um começo, Angústia de um só fim de Jabès

Dia 24, nesta próxima quarta-feira – ah! a partir das 19 h, ia esquecendo horário!

Publicados pela Lumme.

Traduzidos por Eclair Antonio Almeida Filho

Estará presente Annie Le Brun – ensaísta, viúva de Ivsic – junto com Eclair, tradutor, e Fernando Paixão, prefaciador. E eu, é claro. E alguns apreciadores de poesia aos quais eu já havia apresentado Ivsic na tradução de Eclair.

Atualização cultural e tanto. Ninguém poderá dizer que não está havendo edições da mais alta qualidade. Ivsic, o surrealismo permanente. Sobre Jabès, lembro o belo ensaio de Jacques Derrida em A escritura e a diferença.

A seguir: dois poemas de Ivsic (saíram também no Folhetim – desculpem, no Sabático – não, na Ilustríssima – confundo suplementos, reais e virtuais) e um trecho de Jabès. (ninguém poderá reclamar de falta de poesia de qualidade neste blog)

DE TUDO

De tudo que sei
E que sei que sabes
De tudo que vejo
E que sei que tu vês
De tudo que ouço
Quando escuto teu coração
De tudo que me dizes
E que tanto amo
De tudo que se passa
Quando fechas os olhos
De todos os sonhos
De todas as estrelas
De todas as nuvens
De tudo isso sabes
O que me alegra ainda mais?

De tudo isso o que me alegra ainda mais
É que sei que sabes
Porque tu sabes e eu sei também
Tu sabes que me amas
E eu sei que te amo.

BRIONI

Para Annie
Os cervos são borboletas
as borboletas  são peixes
os peixes são claridade
a claridade é morte
a morte é laranja
a laranja é vulcão
o vulcão é feno
o feno é elefante
o elefante é afogamento
o afogamento é riso
o riso é montanha
a montanha é anel
o anel é solidão
a solidão é areia
a areia é roda
a roda é terremoto
o terremoto é cílios
os cílios são cascata
a cascata é bigorna
a bigorna é lembranças
as lembranças são vermelho

o vermelho é chicote
o chicote é fim
o fim é mel
o mel é nuvem
a nuvem é o infinito
o infinito é infinito

Fragmentos de Desejo de um começo, Angústia de um só fim, de Edmond Jabès:

« …um livro – dissera ele – que jamais escreverei porque ninguém pode escrevê–lo, sendo um livro:

«  – contra o livro.

« – contra o pensamento.

« – contra a verdade e contra apalavra.

« – um livro, portanto, que se esfarela à medida que se forma.

« – contra o livro, pois o livrosó tem, por conteúdo, a si mesmo e ele não é nada.

« – contra o pensamento, poisesteé incapaz de pensar sua totalidade e mesmo o nada.

« – contra a verdade, pois a verdade éDeus e Deus escapa ao pensamento; contra a verdade, portanto, quepermanece, para nós, uma legendária desconhecida.

« – contra a palavra, enfim, pois a palavraapenas diz o que ela pode e esse pouco é o nada que só o nada poderia exprimir.

« E,no entanto, eu sei:

« – que o livro se escreve contra o livro que busca torná–lo nada.

« – que o pensamento pensa contra o pensamento que lhe inveja seu lugar.

« – que a verdade se impõe, através do instante vivido, enquanto só instante a viver.

« – que ovocábulo, apagando–se, não revela nadaalém do que a aflição dohomem que ele apaga ».

Radovan Ivsic (Zagreb, 1921-2009) é um crítico-poeta-dramaturgo surrealista franco-croata, de uma poesia que poderíamos chamar de um surrealismo da natureza, da magia e do sonho. Seu primeiro livro – Narciso – publicado em 1943, numa tiragem de 100 exemplares, foi retirado imediatamente de circulação pela polícia titista da então Iugoslávia sob a acusação de arte subversiva. Ao ver o clima de terror e repressão que tomou conta do seu país, Ivsic resolveu imigrar em 1954 para a França, sendo recebido em Paris por Benjamin Péret. Lá toma parte nas atividades surrealistas organizadas por Breton. Após a morte de Breton em 1966, Ivsic passa a dirigir em seu lugar as Éditions Surréalistes. Dentre suas peças teatrais, destaca-se Le Roi Gordogan. Sua obra em francês encontra-se publicada em três volumes pela Gallimard: Poèmes (este sairá em tradução integral pela Lumme sob o título de Poesia Reunida), Théâtre e Cascades (volume de textos críticos).

O poeta, ensaísta e escritor de fragmentos Edmond Jabès (Cairo, 1912 – Paris, 1991)  consagrou toda sua obra a escrever rumo ao Livro, ao livro, ao relato. Tanto que grande parte de seus livros traz a palavra « Livro » em seu título: temos sete Livros das Questões, quatro Livros dos Limites (que inclui um Livro do Diálogo e um Livro da Partilha), três Livros das Semelhanças, outros três Livros das Margens, um Livro da Hospitalidade. Podemos, inclusive, afirmar que todo livro jabesiano está na ausência de livro ou em busca de tornar-se livro e Livro. Seus meios são o deserto, a voz, o silêncio, sábios, estrangeiros, a pena (pluma), o neutro, o ilimitado, numa escritura fragmentária mas não fragmentada.

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One response to this post.

  1. Sem palavras, os poemas são maravilhosos!!! bjs e grata pela indicação de bom gosto.

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