Ciclo Grotowski e Ginsberg surrealista

Um dos poemas de Ginsberg que traduzi para a performance de hoje e amanhã no SESC-Consolação, Canções de uma Festa Elétrica, parte do Ciclo Grotowski pelo Workcenter, é o “Rocket poem”, “Poema foguete” – o trecho final. Foi publicado originariamente em Kaddish, de 1961, mas eu havia deixado de lado na minha seleção para a publicação pela L&PM. Ginsberg, também, não fez questão da inclusão do poema. Relendo (e traduzindo), vejo que o poema, eufórico, de associações livres, é um dos que representam a face mais surrealista do autor de Uivo. Por isso, reproduzo aqui o trecho. Em seguida, noticiário sobre a performance de hoje (estarei) e amanhã. Já havia publicado, aqui, elogio ao profissionalismo desse grupo, a propósito da encenação de I am America (apresentada ano passado no festival de São José do Rio Preto), com a qual colaborei. Reproduzo, também.

Allen Ginsberg:

Poema foguete

Este é meu foguete meu foguete pessoal eu envio minha mensagem Além
Alguém que me ouça aí
Minha imortalidade
Sem aço ou cobalto basalto ou diamante ouro ou fogo mercurial
Sem cabines de preencher passaportes papeladas militaristas
Sem eu finalmente
Puro pensamento
Mensagem para todos e em todo lugar a mesma
Lanço meu foguete para pousar em qualquer planeta que o aguarde
 De preferência doces planetas religiosos onde não haja dinheiro
Planetas de quarta dimensão planetas onde a Morte projeta filmes
Planetas que falam (com cortesia) da física antiga e a própria poesia é manufaturada pelas árvores
O Planeta final onde o Grande Cérebro do Universo está à espera de um poema
Para aterrissar em seu bolso dourado
Juntando-se às outras mensagens lamentos musicais em bilhetes de amor gritos de
Desespero e o milhão de pensamentos impronunciáveis dos sapos
Eu lhe mando meu foguete de uma química espantosa
Mais que meu cabelo meu esperma ou as células do meu corpo
O pensamento a toda que voa para o alto com meu desejo tão instantâneo quanto
O universo e mais rápido que a luz
E deixo todas as demais perguntas incompletas por enquanto para me virar e voltar a dormir na minha negra cama na terra

CICLO GROTOWSKI COMEÇA COM LEITURA DE GINSBERG

O Sesc Consolação abre nesta quarta-feira (24) programação dedicada à obra do diretor e dramaturgo polonês Jerzy Grotowski. Durante um mês, peças de teatro e oficinas serão apresentadas nesta unidade do Sesc por um grupo de Pontedera (Itália), parte da programação também irá para o Teatro Anchieta. Na Itália, Grotowski fundou em 1986 – a convite da Fondazione Pontedera de Teatro – o Workcenter, no qual desenvolveria sua pesquisa revolucionária.
Herdeiros de seu trabalho, os diretores Thomas Richards e Mario Biagini trazem ao Brasil espetáculos, performances, exibição de filmes, lançamento de livro, conferências e sessões de trabalhos que compõem o ciclo.
Nesta quarta-feira, às 20 horas, a programação começa no Sesc Consolação com o espetáculo Canções de uma Festa Elétrica, criado por Mario Biagini, que será apresentado na área de Convivência (andar térreo), com entrada franca. Haverá uma segunda sessão na quinta-feira (25), no mesmo horário. Canções de uma Festa Elétrica é uma leitura teatral do poeta beat norte-americano Allen Ginsberg, feita através de músicas e performances. A tradução dos poemas de Ginsberg é de Claudio Willer.
O ciclo Grotowski prossegue até 19 de maio com intensa programação. Segue link com programa completo: http://www.artepluralweb.com.br/atualizacao/releases/13/04/grotowski.html?YSpeed=5&Ysquare=145.48175259480882&Ydiff=20.518247405191175&Ymove=4.103649481038235
Meu comentário sobre profissionalismo e I am America.

https://claudiowiller.wordpress.com/2012/07/13/allen-ginsberg-direitos-autorais-profissionalismo-e-pirataria/

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2 responses to this post.

  1. […] Faz sentido – não só pela estrutura do poema, mas pelo episódio da fracassada tentativa de encontro de Ginsberg e Breton na época, já comentada aqui, em https://claudiowiller.wordpress.com/2012/03/17/beat-e-surrealismo-encontros-e-desencontros/ . Mas são poéticas distintas – Ginsberg foi um objetivista, e todas as imagens resumem episódios biográficos, realmente acontecidos – embora em outros poemas fosse surreal, como também já observei aqui, em https://claudiowiller.wordpress.com/2013/04/24/ciclo-grotowski-e-ginsberg-surrealista/ […]

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