Um encontro e dois poemas

Gostei da sessão com palestra – debate – entrevista de sábado passado, dia 27, na série “O que é poesia” coordenada por Edson Cruz (crivou-me de perguntas), na Casa das Rosas. Público considerável – no saguão e salas adjacentes. Quantas pessoas? Umas 76? Ou 84…? Ou foram 93…? Tudo estará disponível on line, no portal Musa Rara. Assim que for liberado, adicionarei a esta postagem.

Edson pediu-me que lesse um poema, este a seguir, “A princípio”, que nunca havia lido antes. Célia Musili o achou e postou no Facebook – mas com as dificuldades com a disposição gráfica do poema, por causa das limitações do aplicativo da rede social. Reproduzo-o aqui, mais reconstituído. É de 1976. Já tinha cacoete de memorialista. É precursor do interesse que o tema – década de 1960, vida que levávamos, grupo de amigos – suscitaria mais tarde, a partir de 2000.

Adiciono outro, da mesma época, que saiu agora na antologia Poesia.Br, escolhido por Sergio Cohn (que também o havia publicado em Azougue e Os dentes da memória). A história editorial desse poema é engraçada, alternadamente recusado e escolhido. Dois modos complementares de dizer a mesma coisa, contar a mesma história?  

Ambos estão em Jardins da provocação e Estranhas experiências.

A PRINCÍPIO

Esta é a utilidade da memória: libertação

T. S. Eliot

se é para reconstruir o tempo
               e descrever as coisas
          então
                    vamos reconstruir o tempo e contar as coisas
os poetas que eu li
               se quiserem saber

fernandopessoapierrereverdysaintjohnperserobertdesnosviniciusginsberg
corsoferlinghettibretonpauléluardmallarméartaudrilkerousselpongepoun
dcarlosdrummondoswaldmariomichauxlautréamontnerudanovalisblakeb
enjaminpéretkleisthölderlinnietzschesenghorcézaireoctaviopazpivamach
adoalberticernudajarryeliotstephangeorgerimbaudcummingscabraltzaracr
evelmuriloapollinairesoupaulttraklbennbaudelaire

porradas na mente com mais força
                    aguilhões no cérebro
                         o lixo da memória pegando fogo
as imagens poéticas libertam-se em quartos de hotel
como a história de Raymond Roussel

          viajando pelo Índico sem sair do camarote do navio
               furando pneus na Pérsia e achando elegante
          o texto torna-se realidade
               e converge na direção dos meus passos
     amores imprevistos em lugares estranhos porém verdadeiros
          e quartos de hotéis de cidades que desconheço
               nas quais não me localizo
                    deslocado no espaço porém frente a frente comigo mesmo
                         caminhando por paisagens interiores
          o pensamento empurrando as imagens para a frente
                                   como uma avalanche
                                        um vômito
                                             um espasmo
                                                  uma convulsão
                                                       um orgasmo
então eu estava bêbado e intoxicado de García Lorca
havia lido     relido     treslido     Poeta em Nova Iorque     Divã do Tamarit     Odes    Pranto para Ignacio Sanches Mejía     Bodas de Sangue     Bernarda Alba
                    eu vivia santificado
                              escrevia aberrações e enormidades
                                   as palavras dissolviam-se em éter
                              as fascinantes plantas carnívoras
                              abrindo-se palpitantes de vida
                              e o vegetal tomando conta de tudo
nós construímos a década de 60:
               uma ruptura incandescente
                    e a partir daí tudo começou a jorrar
                         e ainda era obscuro, pré-histórico e larvar
                              a palavra iluminava a realidade
                                   deslizando pelos cantos do quarto
a cena se repete e é sempre a mesma coisa:
em 1965 eu pensava em suicidar-me
          debruçado sobre a noite gelada
               escrevia sem parar e invocava fantasmas
     os amigos: Piva Maninha Bicelli Décio Rodrigo e tantos outros
          chamar     invocar     nomear     Xamã
               as luzes de São Paulo
                    refletiam-se no teto do apartamento
                         formando estrias leitosas
               vermelho dos crepúsculos e violáceo dos néons
                         tempo vitrificado
                         em que não importava a hora
                             entardecer                         meio da noite madrugada
     acordava-se para algum ritual novo
               explorações pelos arredores da cidade
                    ou por regiões do corpo
          conjurações e posses:
                      nossos corpos iluminavam-se de dentro para fora
                           a cada movimento
                                esfregando-se lenta e pausadamente
          arak maconha pernod ópio, anteparos da visão
uma década de apartamentos translúcidos e liquefeitos
sons de harpa flauta saxofone sempre invadindo o ar denso
tiros pela janela
motociclistas recortados contra o entardecer
uma velocidade particular
     e foi só isso
          foi assim que tudo começou
               e nunca mais parou
          rodamoinhos da mente
     se quiserem saber
          todo poema é participante
               a foda também é participante
                    a paranóia é sagrada
     tremor nas mãos                                                   tiques nervosos
                        recolocar tudo no seu lugar
               outra vez
                                                            pensar

 

AUTOBIOGRAFIA SELVAGEM

1961: Do grande olho saíam todas as coisas. Caminhava-se em meio ao maremoto, sondava-se o tempo, a indiferença dos dragões alados não comovia ninguém.
1962: Pelos cantos das casas, pelos cantos, encolhíamo-nos e rolávamos, saltimbancos de uma nova ordem das coisas. Algum tipo inédito de som era despejado sobre a cidade. Aumentava a umidade do ambiente, nem sempre fazia frio. Devo contar tudo. Garrafas voaram pela janela.
1963: O terremoto, a convulsão, o susto pálido. E o entardecer que se abria como uma grande vagina para engolir-me. A mais pura esquizofrenia. Pastéis alados começavam a cobrir a paisagem, e pousavam nos beirais e parapeitos. Transcrevia-se a loucura. Como descrever tudo o que aconteceu?
1964: A grande risada. Contemplei o mundo, presenciei os fatos de perto, a partir da minha cama. Impossíveis outras posturas. Alucinações no Maranhão e Recife. Que odor de ferrugem permeava as madrugadas! Mas algo se preparava.
1965: Chovia demais, era muita lama cobrindo tudo. Lembro-me de um olhar, uns olhos, talvez por detrás residisse alguém. Não sei; seria incapaz de contar tudo. Somente o plano inclinado, e era oleoso. Um dia trepamos numa árvore, era bonito, e fazia sol.
1966: O eco dos tambores. As anunciações. As auréolas. As corolas. Os revérberos. Também dessa vez, todo mundo estava lá. Um começo misterioso de qualquer coisa. Novamente o olhar habitado, estendendo-se e tomando conta dos subúrbios.
1967: Não sei quando começou. Durante um tempo, carregou-se um canivete espanhol.
1968: Uma certa acidez e ferrugem no ar. A poeira também se fazia sentir. O calor era aquele calor que precede as batalhas. Mas tudo bem, juntamos os pedaços galhardamente.
1969: Como era extensa aquela praia. Viera ao mundo para brincar, mas havia-me esquecido. Claridade, talvez. Entenda quem quiser. 1969 foi um ano rodeado de gotículas como um halo lunar.
1970: Aquele tambor, e o vértice fincado! Dizíamos sempre a mesma coisa, um aguilhão de ouro atravessando os dias e juntando-os na mesma fieira.
1971: Resto de selvageria. Certas coisas não devem ser ditas, apenas esculpidas em jacarandá.
1972: Redondo ou ovalado. No fundo da caverna, fogueiras acesas.
1973: Não consigo lembrar-me.

1974, 1975, 197……………………………………………….

E agora, e agora estamos aqui, fixos e trespassados no tempo. E agora estamos um frente ao outro, olho contra olho, sexo contra sexo, abrindo sucessivas cortinas do oculto olhar. E agora sabemos tudo o que se passa e o que vai acontecer. Somos definitivos como uma profissão de fé. Somos uma confissão arrancada à meia-noite. Prenuncia-se um diálogo poético. Os amigos começam a chegar, cheiro de malas e corrimões no ar. O grande olho despeja novos caminhantes, eles procuram seus aposentos e se instalam.

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4 responses to this post.

  1. Lindo, lindo o poema A Princípio “reconstituído” assim , em sua forma original. O encontro foi ótimo, a palestra idem (casa cheia e as pessoas muito atentas), assim como o bate-papo após o evento, o vinho e tudo!! Bjs

    Resposta

  2. Posted by Kátia Negrisoli on 30/04/2013 at 22:58

    A princípio e Autobiografia Selvagem, dois belíssimos poemas. Diferentes formas, o primeiro com ritmo, movimento, um apelo futurista, surreal, confessional. O néon, o apartamento, a vitrificação. O segundo fatiado em anos a memória como discos de vinil que ainda tocam maravilhosamente naquela vitrola. “Uma profissão de fé”e os largos corrimões da memória trazem as pessoas e as colocam em seus lugares e estou aqui, escrevendo para o poeta.

    Maravilhosamente encantada!

    k.

    Resposta

  3. […] que já havia comentado aqui, perguntando se o público foi de 76, 84 ou 93 pessoas. Está em https://claudiowiller.wordpress.com/2013/04/30/um-encontro-e-dois-poemas/  Ao final da sessão, na altura de duas horas e 10 minutos, leitura do poema já reproduzido nesse […]

    Resposta

  4. apenas para constar: todas as vezes que o mencionei em meu blog:

    http://loualbergaria.blogspot.com.br/search/label/Claudio%20Willer

    muito antes.

    hahaha…. sou mesmo ciumenta e odeio injustiça!!

    Beijossss!!!!

    Lou

    Resposta

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