Uma leitora e dois poemas

Tive dois poemas publicados no Facebook por uma leitora, Amanda Ferreira – ou melhor, um poema, o quinto da série “Poemas para ler em voz alta”, e um trecho, de “Carta”, ambos de Estranhas experiências. Reproduzo-os, com a disposição gráfica original, impossível no aplicativo do Facebook – assim como o fiz recentemente com o poema lido na sessão “O que é poesia”, postado por Celia Musili.

Não conhecia Amanda Ferreira –e vice-versa. Ou seja, não nos conhecíamos. Desconhecíamo-nos (estarei sendo redundante?). Ela achou Estranhas experiências em um saldão de livros no Rio de Janeiro, gostou do que leu e por isso divulgou na rede social. Ao final, aqui, o comentário dela.

Isso me sugere observações adicionais sobre cultura no meio digital. Antes (no século passado), já fui achado por leitores – mas o contato seria por carta, telefonema ou pessoalmente. E a divulgação de poemas seria impressa, em jornal, revista, fanzine – desde que o leitor tivesse acesso a essas midias. Agora, os dois modos somam-se, tornaram-se um só. E ampliaram-se. Mais ainda, com o repique aqui, neste blog. Nada a ver, insisto (havia observado isso na postagem anterior, aqui), com previsões sobre o signo na era digital, como aquelas nos manifestos da poesia concreta e inúmeras outras antecipações. Isso que ocorre é o mesmo, porém ampliado. A qualidade, essa vai por conta da sensibilidade de quem envia as mensagens. Nas pontas do circuito, continuam a existir seres humanos (felizmente). Voltarei ao assunto.

Poemas para ler em voz alta

5

Os lençóis brilhavam como se eu tivesse tomado veneno

Herberto Helder

é hora de dizer claramente como são as coisas:
               você abre suas portas suas pernas seus braços sua boca seu corpo
                             você se escancara
                                               eu embarco em você
                                                       eu me engajo me prendo me agarro navego em você
                                         plano em um jogo de arriscado equilíbrio
                          atiro-me em seus abismos
                                         singro suavemente sua brisa
                             enfrento seus maremotos
                        viajo por sua velocidade
                                   eu me perco no emaranhado de seu pântano, no labirinto de terra e de areia, de água do mar e de água doce
                                            –  nós somos o pântano e somos o labirinto
                                  eu me cego em sua brancura
                    e me alço em sua ondulação
                                   você é o planeta onde pouso
                                          a nuvem em que me envolvo
                              aura estelar, dissipação de caudas de cometas
leva-me e me conduz
                              nessa dança desarticulada
                  para mais longe                              para o alto                    para o profundo
                                      arrasta-me
                                                              amor oxímoro
                                                        amor, palavra de paradoxos

 

Carta

Ao artista plástico Elvio Becheroni, a propósito de seu livro Luoghi di Memoria
[…]
impulsionava-nos certa atração pelo sublime
e nós nos entretínhamos a decifrar a errante caligrafia do tempo
nervosamente rabiscada na pauta das ondas
até que punhais de nuvens arcaicas emoldurando o entardecer
viessem se cravar em nosso infinito
e sentíssemos os cabelos da noite crescerem vagarosamente
pois a escuridão havia chegado
para reclinar-se em seu colchão de maresias
então,
entre a onda e o lampejo da onda
entrevimos o perfil em chamas de nossos corpos
entre o vivido e o não-vivido
o traço cambiante da arrebentação
entre os ruídos do mar e os ruídos da cidade
a complicada geometria de nossos silêncios
e um inesperado perfume de jasmins
por mim
nunca mais sairia dali
ficaria por lá mesmo
para sempre percorrendo a praia
a acompanhar a insofrida inquietação dos astros presos a suas órbitas
[…]

Comentários – na página de Amanda no Facebook:

Amanda Ferreira Luzia Porto, veja que coisa linda! Estou encantada com este livro.

Luzia Porto Que lindo! Que livro é esse, Amanda Ferreira?

Amanda Ferreira Estranhas experiências e outros poemas, de Claudio Willer, editora Lamparina. Comprei no Shopping de São Gonçalo, num posto do Rio Poupa Tempo, onde se vendem livros a 2 e 3 reais. Preciso ir lá de novo.

Em tempo: novos comentários de Amanda, subsequentes à minha postagem deste link no Facebook:

Seu livro foi mesmo uma surpresa (ótima) pra mim. Quando vi na livraria, lembro-me que abri e li um poema. Achei de uma profundidade encantadora e levei. E que bom que tive esta oportunidade! Costumo compartilhar, principalmente no Facebook, tudo que eu considero de excelente qualidade, com o objetivo de que outras pessoas também tenham a oportunidade de conhecer. E sabia que a Luzia Porto, com seu gosto apuradíssimo, também adoraria os seus poemas. Discordo totalmente de pessoas que dizem que as redes sociais não servem pra nada. Tudo se adapta ao nosso modo. Se utilizamos para divulgar coisas boas, se torna uma excelente e indispensável ferramenta. Além de nos dar a chance de conhecer pessoas brilhantes e poetas incríveis como você. Beijos.

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5 responses to this post.

  1. Amanda Ferreira tem bom gosto. Estranhas Experiências também me arrebatou. Qdo adqui o meu, li e em seguida pedi outros para presentear amigos. Alias, eu só presenteio com livros e tenho certeza que quem os lerão não se sentirão como eu me sentia na infância quando, nos aniversários, as tias só me davam meias…

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  2. Obrigada, Assis de Mello. Estranhas Experiências e outros poemas é um livro para a vida inteira. Fiquei lisonjeada de ter vindo parar no blog do Claudio Willer, que admiro muito.

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  3. Já encomendei o Estranhas Experiências na Travessa. Adorei o que li e, agora, com a disposição gráfica adequada, o poema ficou ainda mais poético. Eu e Amanda Ferreira trocamos figurinhas pelo Facebook, por email, por telefone. Troco figurinha com muita gente no Face, graças a Deus.O excesso de informações e o excesso de estímulos desta pós-modernidade (?) em que vivemos não nos permite, muitas vezes, prestar atenção ao belo. Acabamos selecionando certas afinidades eletivas e prestamos mais atenção ao que elas compartilham. Fiquei também muito feliz quando vi que Erico Baymma, outro amigo de Face, conhecia o trabalho do Claudio e queria o nome do livro.

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  4. Estou na blogosfera desde fevereiro de 2010, caro professor Willer, e sempre divulguei a boa poesia, a boa música, os bons filmes. não só eu. centenas de pessoas que estão na rede apresentam o mesmo propósito: ARTE! Estamos lá, aqui, pela arte, de modo geral, e pela poesia, de modo específico. e isso se estende às redes sociais, haja vista o enorme número de grupos voltados para a poesia e artes como um todo.

    Pena que somente AGORA, o senhor se deu conta disso. Que intrigante!!

    Poderia enumerar, no mínimo, uma centena de pessoas e seus respectivos blogs e todo o belíssimo trabalho em benefício da cultura e da arte em nosso país.

    Esteja mais atento, professor!

    um abraço!

    Lou Albergaria

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  5. APAGANDO

    por Marcin Swietlicki

    “Limpar todas as pontas
    de cigarro da marca favorita
    para que não reste qualquer vestígio
    da minha passagem por aqui.

    Limpar as impressões digitais
    dormir um pouco entre os mortos
    limpar com um gesto o último rosto
    antes do sono.

    Sonhar o nada, uma redução precisa,
    as cores em fuga, deixando em fundo
    uma só palavra. Com ela
    ressuscitar.”

    (versão do castelhano, após tradução do polaco por Maciej Ziętara e Maurício Barrientos, incluida no livro “101 [6 poetas polacos contemporáneos]”, RIL Editores, Santiago do Chile, 2008)

    ***

    Adeus, professor W!

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