Ginsberg: outro poema, para comparações

Eu deveria ter agregado á postagem anterior. Aos assinantes, peço desculpas por fazê-los abrir o blog a toda hora. Não sou maníaco e não pretendo ultrapassar umas três a quatro postagens por semana. Mas é que a comparação dos dois poemas, a “Canção da Vovó Terra” e o “Sutra do girassol”, me pareceu interessante. Ambos têm a região de San Francisco como cenário; ambos focalizam a degradação urbana. Mas como mudou o tom, no intervalo de 33 anos, de 1956 a 1988! No “Sutra do girassol”, um dos poemas mais populares de Ginsberg – foi traduzido por outros três bons poetas, além de mim – esta tradução é a mesma publicada em livro, em Uivo e outros poemas, L&PM – há uma transcendência, um misticismo, a proclamação da existência de uma essência luminosa em todas as coisas, superando a degradação. Já na “Canção da Vovó Terra”, não há mais nada: acabou. Resta a Gaia recolher os destroços e retirar-se: é isso que me parece dizer o poema.

Sutra do girassol[1]

Caminhei pela beira do cais de bananas e latarias e me sentei à sombra enorme de uma locomotiva da Southern Pacific para olhar o sol que se punha entre as colinas de casas como caixotes e chorar.

Jack Kerouac sentou-se a meu lado sobre um poste de ferro quebrado e enferrujado, companheiro, pensávamos os mesmos pensamentos da alma, chapados e de olhos tristes, cercados pelas retorcidas raízes de aço das árvores da maquinaria,

A água oleosa do rio refletia o rubro céu, o sol naufragava nos cumes dos últimos morros de Frisco,[2] nenhum peixe nessas águas, nenhum ermitão nessas montanhas, só nós dois com nossos olhos embaçados e ressaca de velhos vagabundos à beira-rio, malandros cansados.

Olha o Girassol, disse ele, lá estava a sombra cinzenta e morta contra o céu, do tamanho de um homem, encostada ressecada no topo do montão de serragem velha– 

– Ergui-me encantado – meu primeiro girassol, recordações de Blake – minhas visões – Harlem

e infernos dos rios do Leste, pontes com o clangor dos Sanduíches Gordurosos de Joe,[3] carrinhos de bebês mortos, negros pneus carecas largados lá, o poema do cais à beira-rio, preservativos & penicos, facas nada inoxidáveis de aço, só o lixo úmido e os artefatos de afiados gumes passando para o passado –

e o Girassol cinzento reclinado contra o crepúsculo, desoladamente rachado e ressecado pela fuligem e a fumaça e o pó de velhas locomotivas em seu olho – 

corola de turvas pontas retorcidas e partidas como uma coroa arrebentada, sementes roladas do seu rosto, boca em breve desdentada ao ar ensolarado, raios de sol se apagando na cabeça cabeluda como uma teia de fios secos,

folhas tesas como ramos presos ao tronco, gesto enraizado na serragem, pedaços de estuque caídos dos negros galhos, mosca morta na orelha,

Ímpia coisa velha destroçada, você, meu girassol, Ó minha alma, como então te amei!

A fuligem não era uma fuligem humana porém morte e locomotivas humanas,

toda essa roupagem de pó, esse véu de pele escurecida da estrada, essa fumaça da face, essa pálpebra de negra miséria, essa fuliginosa mão ou falo ou protuberância de algo artificial pior que a própria sujeira – industrial – moderna – toda a civilização maculando sua louca coroa dourada –

e todos esses torvos pensamentos de morte e olhos empoeirados do desamor e tocos e raízes retorcidas embaixo, dentro do seu montão de areia e serragem, notas falsas de borracha de dólar, pele de maquinaria, as entranhas e vísceras do carro que tosse e chora, as latas vazias e abandonadas com suas enferrujadas línguas de fora, o que mais poderia eu nomear, a cinza queimada de algum cigarro do caralho, bocetas dos carrinhos e os túrgidos seios dos carros, bundas gastas dos bancos e esfíncteres dos dínamos – todo esse

emaranhado nas suas raízes mumificadas – e você aí postado a minha frente ao sol poente, toda a sua glória em sua forma!

Beleza perfeita de um girassol! excelente existência perfeita de um adorável girassol! doce olho natural voltado para a lua nova “hip”, desperto vivaz e excitado respirando a dourada brisa da luz do sol poente!

Quantas moscas zumbiram a seu redor ignorando sua fuligem, enquanto você amaldiçoava os céus da ferrovia em sua alma em flor?

Pobre flor morta? Quando foi que você esqueceu que era uma flor? quando foi que você olhou para sua pele e resolveu que era uma suja e impotente locomotiva velha? o espectro da locomotiva? a sombra e vulto de uma outrora poderosa locomotiva americana louca?

Você nunca foi uma locomotiva, Girassol, você é um girassol!

E você, Locomotiva, você é uma locomotiva, não se esqueça!

E assim agarrei o duro esqueleto do girassol e o finquei a meu lado como um cetro,

e faço meu sermão para minha alma, e também para a alma de Jack e para quem mais quiser me escutar.

– Nós não somos nossa pele de sujeira, nós não somos nossa horrorosa locomotiva sem imagem empoeirada e arrebentada, por dentro somos todos girassóis maravilhosos, nós somos abençoados por nosso próprio sêmen & dourados corpos peludos e nus da realização crescendo dentro dos loucos girassóis negros e formais ao pôr do sol, espreitados por nossos olhos à sombra da louca locomotiva do cais na visão do poente de latadas e colinas de Frisco sentados ao anoitecer.

Berkeley, 1955


[1] SUTRA DO GIRASSOL – Sutra são textos védicos, de doutrina filosófico-religiosa. O girassol é uma flor-símbolo para Ginsberg, que, na experiência místico-visionária de 1948 em seu apartamento no Harlem, lia o poema Ha! Sun-Flower dos Songs of Experience, quando ouviu a voz do próprio Blake recitando o poema.

[2] Frisco – San Francisco. Os moradores desta cidade não apreciam essa designação.

[3] Sanduíches Gordurosos de Joe – Joe’s é outra cadeia de lanchonetes.

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3 responses to this post.

  1. BRAVO!!!

    “isso de ser exatamente o que a gente é ainda vai nos levar além.” Leminski

    Beijos, querido professor W!!

    Responder

  2. Posted by Raul Fiker on 22/05/2013 at 06:46

    Obrigado pela tradução. O Sutra do Girassol sempre foi um dos meus ginsbergs preferidos.

    Responder

  3. é um dos meus amuletos preferidos.

    Responder

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