Uma tradução de Allen Ginsberg: a “Canção da vovó Terra”, “Grandma Earth’s Song”

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Um dos poemas que traduzi para o espetáculo Canções de uma Festa Elétrica, do Grotowski Ensemble, em 2013. “Grandma Earth’s Song”. É um poema mais que irônico, sarcástico, nada otimista, de 1988, publicado em Cosmopolitan Greetings – como sempre, bem profético.

Canção da Vovó Terra

Comecei a descer a encosta da Capitol Hill percorrendo as negras e desconhecidas avenidas centrais,
confuso e sem saber quais ruas seguir desde o distrito de Fillmore até o Paço Municipal no centro do vale,
e ao passar por um quarteirão ou dois eu vi uma frágil velha andando na minha direção
subindo a colina, uma senhora maltrapilha carregando sacos andando com passos firmes e antigos a Velha Mamãe terra
arrastando um carrinho de compras cheio de latas garrafas jornais & plástico
Atados
Com meias de seda caminhando e cantando sozinha a caminho do Paço Municipal

Quando obtusas origens escrevem leis
de Jerusalém a Nova York
Pobres Judeus quebram Queixos de Árabes
Negros comem porco ensebado

Quais as Notícias do Planeta?
a pílula de veneno de Wall Street
Palestinos apedrejam Judeus
Água escorre encosta abaixo

Jovens soldados vão morrer
O velho presidente pega aids
Eles levaram o céu à falência
A camada de ozônio se extingue

Gente doida descolou dinheiro
Eu sou o dono dos Capitólios
O Xerife me chama de queridinho
O exército é um bando de malucos

Eu quero meus carnês da Previdência
Eu quero meu próprio filme
Eu tenho dez lamparinas de Querosene
Eu estou com 99 anos de idade

Essa cidade já morreu
Esse país está indo ladeira abaixo
Esse estado é feito de chumbo
Não consigo sentir meus filhos

Meu nome é Gaia ha ha ha
ponham-me na cadeia eu vou ferrar o céu
Nada a perder ou a ganhar Papai
Nascido e você vai morrer

Bombas de Adão & jornalistas espalham boatos
Falsários fazem piadas no Salão Oval
Eu vivo em caixas de papelão
Eles mataram o útero do oceano

Rasgue seu carnê da Previdência
Comerei meu caminho até o Céu
Joguem-me em Walnut Creek[1]
Eu vomitarei o Oceano Pacífico

Observando enquanto ela passava, achei que improvisava repentes das ruas
Canção épica popular gargalhando no Cérebro imortal de cada um
Tudo o que vier à mente é a política certa para arruinar o Estado Policial

Meu post anterior: https://claudiowiller.wordpress.com/2013/04/24/ciclo-grotowski-e-ginsberg-surrealista/


[1] Walnut Creek: localidade nas imediações de San Francisco, na Bay Area

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5 responses to this post.

  1. Atualíssimo, como sempre, o tal do Ginsberg, mestre Willer. Obrigado pela bela e oportuna tradução!

    Responder

  2. Muito boa a Canção da Vovó Terra, Ginsberg não perde a deixa contra o politicamente correto. Parabéns

    Responder

  3. Posted by Ricardo Ruiz on 06/09/2014 at 19:38

    Que ritmo ! ! ! Ginzburg era um arauto do Contemporâneo ! A tradução traduz com maestria o trator do transgressor ! Amem

    Responder

  4. Posted by cmusilli on 30/01/2015 at 20:57

    Ginsberg, sempre atual!

    Responder

  5. Muito bom! Não conhecia. Abraço

    Responder

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