Ginsberg e LSD – um poema

O poeta Chiu Yi Chih havia publicado no Facebook um trecho da minha tradução deste poema de Ginsberg. Em face do interesse suscitado, reproduzo-o na íntegra (de Uivo e outros poemas, L&PM). Reparem que ao final há uma teofania. Tenho algumas crônicas sobre esse tema, LSD – qualquer hora, publico.

ALLEN GINSBERG

Ácido Lisérgico

Ele[1] é um monstro múltiplo de um milhão de olhos

ele está escondido em todos os seus elefantes e eus

ele zumbe na máquina de escrever elétrica

ele é eletricidade ligada nela mesma, se tiver fios

ele é uma enorme teia de aranha

e eu estou no último milionésimo tentáculo infinito da teia, ansioso,

perdido, separado, um verme, um pensamento, um eu

um dos milhões de esqueletos da China

uma das partículas de erros

eu Allen Ginsberg uma consciência separada

eu que quero ser Deus eu que quero ouvir a infinitésima minúscula vibração da harmonia eterna

eu que espero tremulo pela minha destruição por essa música etérea do fogo

eu que detesto Deus lhe dou um nome

eu que cometo erros na eterna máquina de escrever

eu que estou Condenado

 

Mas na extremidade final do universo a Aranha sem nome com milhões de olhos

tecendo-se interminavelmente

o monstro que não é um monstro chega perto de mim com maçãs, perfumes, ferrovias, televisores, crânios

um universo que se come e se bebe a si mesmo

sangue do meu crânio

criatura tibetana de peito cabeludo e Zodíaco no meu estômago

esta vítima sacrificial incapaz de estar numa boa

 

Meu rosto no espelho, o cabelo fino, sangue congestionado em listas sob os olhos, chupador de caralhos, uma ruína, uma luxúria falante

um estalo, um rosnado, um tique de consciência no infinito

um miserável aos olhos de todos os Universos

tentando escapar do meu Ser, incapaz de chegar até o Olho

eu vomito, eu estou em transe, meu corpo é tomado por convulsões, meu estômago se revolta, água saindo da minha boca, aqui estou eu no inferno

ossos secos de miríades de múmias sem vida nuas na teia, os Fantasmas, eu sou um Fantasma

eu grito de onde estou na música, para o quarto, para quem mais estiver perto, você, É você Deus?

Não, você quer que eu seja o seu Deus?

Não haverá Resposta?

É preciso haver sempre uma resposta? responde você,

como se dependesse de mim dizer Sim ou Não

Graças a Deus que eu não sou Deus! Graças a Deus que eu não sou Deus!

Porém eu anseio por um Sim ou por uma Harmonia para penetrar nela

em qualquer canto do universo, em qualquer condição seja qual for

um Sim, Há… um Sim eu Sou… um Sim você É… um Nós

 

Um Nós

e isso deve ser um Ele, e um Eles, e uma Coisa Sem Resposta

Ele rasteja, ele espera, ele pára, ele começa, ele é as Trombetas da Batalha em sua Esclerose Múltipla

ele não é minha esperança

ele não é minha morte na Eternidade

ele não é minha palavra, nem a poesia

atenção à minha palavra

 

Ele é uma Armadilha Fantasma tecida pelos sacerdotes em Sikkim ou no Tibete

um telão no qual mil fios de cores diferentes

estão entretecidos, uma raquete espiritual de tênis

da qual quando a olho írradiam-se ondas etéreas de luz

energia brilhante passando pelos fios como por bilhões de anos

os feixes de fios trocando de tonalidade transformando-se um no outro como se a

Armadilha Fantasma

fosse uma imagem do Universo em miniatura

parte consciente sensível da máquina interligada

fazendo ondas que saem do Tempo até o Observador

exibindo sua própria imagem em miniatura de uma vez por todas

repetida minúscula cada vez menor com intermináveis variações através de si mesma

sendo o mesmo em cada parte

 

Esta imagem da energia que se reproduz a si mesma nas profundezas do espaço do próprio Princípio

naquilo que poderia ser um O ou Aum[2]

e variações seguidas feitas da mesma Palavra círculos que se sucedem no mesmo molde da sua Aparição original

criando uma imagem maior de si mesma através das profundezas do Tempo

girando para fora pelas faixas de distantes Nebulosas & vastas astrologias

contidas, para serem fiéis a si mesmas, numa Mandala pintada na pele de um Elefante

ou na fotografia de uma pintura no flanco de um Elefante imaginário que sorri, pois com que o elefante se parece é uma piada irrelevante –

ele pode ser um Signo sustentado por um Demônio Flamejante, ou um Ogro da Transciência,

ou numa fotografia da minha própria barriga no vazio

ou no meu olho

ou no olho do monge que fez o Signo

ou no Seu próprio Olho que Se encara finalmente e morre

 

e contudo um olho pode morrer

e contudo meu olho pode morrer

o monstro do bilhão de olhos, o lnominável, o lrrespondível, o Escondido-de-mim, o interminável Ser

uma criatura que se pare a si mesma

freme em sua mais recôndita partícula, vê simultaneamente por todos os seus olhos em cada um deles de um modo diferente

o Uno e o não uno se movem por seus próprios caminhos

não consigo acompanhar

 

E eu fiz uma imagem do monstro aqui

e farei outra ele dá sensação de Criptozóides

ele rasteja e ondula a sob o mar

ele está chegando para ocupar a cidade

ele invade o cerne de cada Consciência

ele é delicado como o Universo

ele me faz vomitar

pois eu tenho medo de perder sua aparição

ele aparece de qualquer modo

ele aparece de qualquer modo no espelho

ele escorre para fora do espelho corno o mar

ele é uma miríade de ondulações

ele escorre para fora do espelho e afoga quem o olha

ele afoga o mundo quando afoga o mundo

ele se afoga a si mesmo

ele flutua para longe como um cadáver cheio de música

com o barulho da guerra em sua cabeça

um riso de bebê em sua barriga

um grito de agonia no escuro mar

um sorriso nos lábios de uma estátua cega

ele estava lá

ele não era meu

eu queria usá-lo para mim

ser heróico

mas ele não está à venda para esta consciência

ele segue por seu caminho para sempre

ele completará todas as criaturas

ele será o rádio do futuro

ele se ouvirá a si mesmo no tempo

ele quer um descanso

ele está cansado de se ouvir e de se ver

ele quer outra forma outra vítima

ele me quer

ele me dá bons motivos

ele me dá motivos para existir

ele me dá intermináveis respostas

uma consciência para separar-se e uma consciência para ver

eu sou chamado para ser Um ou o outro, para dizer se sou ambos e ser nenhum

ele pode cuidar de si sem mim

ele é o Duplamente sem Resposta (não responde a esse nome)

ele zumbe em máquina de elétrica escrever

ele bate uma palavra fragmentária que é

uma palavra fragmentária,

MANDALA

Deuses dançam em seus próprios corpos

Novas flores se abrem esquecendo a Morte

Olhos celestiais acima do desconsolo da ilusão

Eu vejo o alegre Criador

Faixas se elevam em um hino aos mundos

Bandeiras e estandartes tremulando na transcendência

Uma imagem permanece no final com miríades de olhos na Eternidade

Esta é a Obra! Este é o Saber! Este é o Fim do homem!

SF, 2 de junho, 1959


[1] ÁCIDO LISÉRGICO – escrito durante uma experiência com LSD promovida pelo departamento de pesquisas médicas da Universidade de Stanford, gravada, na qual eram mostradas gravuras, tocadas músicas, no estilo das sessões em voga nos anos 60. Mais tarde, Ginsberg escreveu um texto indignado, publicado em Poems All Over the Place, exigindo as gravações de volta e afirmando que as sessões eram um expediente da CIA para ficar sabendo da intimidade de pessoas que incomodavam ao sistema. Nesta série de poemas sob efeito de alucinógenos, pronomes pessoais, obrigatórios em inglês e dispensáveis em português, foram mantidos, pois está sendo relatado o confronto entre um “eu” e um “ele”, o indivíduo e um outro, mutante e ameaçador. Imagens do poema correspondem a estímulos visuais apresentados na sessão.

[2] Aum – o som mantrânico, tibetano.

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2 responses to this post.

  1. Quanta transcendência cabe em Deus e numa viagem lisérgica..e vamos tomar todos os ácidos suas crônicas, publique-as… bjs!

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