Cultura e universidade; quantidades e qualidades

(em breve vou postar mais poesia – claro que prefiro)

Há dois tipos de antologia de poesia contemporânea brasileira que prefiro não discutir, já comentei aqui: a) aquelas de que não faço parte, por motivos óbvios; b) aquelas de que faço parte, por motivos igualmente evidentes.

Uma variante é dizer que não comento dois tipos de eventos em áreas nas quais atuo: a) aqueles aos quais não fui convidado; b) aqueles aos quais fui convidado, nos quais me apresentei.

Mas, exercendo o direito de contradizer-me (Baudelaire, em seu elogio aos poetas malditos: “Na enumeração extensa dos direitos do homem que a sabedoria do século XIX recomenda com tanta freqüência e de modo tão conveniente, dois, muito importantes, foram esquecidos, que são o direito de contradizer-se e o direito de cair fora”), comento o VIII Colóquio de Filosofia e Literatura: Lautréamont. Foi em Goiânia, dias 15, 16 e 17 deste mês. Minha palestra, “Lautréamont, leitor de Baudelaire”, noticiada em https://claudiowiller.wordpress.com/tag/viii-coloquio-de-filosofia-e-literatura-lautreamont/

Gostei. Compacto e funcional. Uma palestra pela manhã, duas à tarde, só. Achei bonito algumas dezenas de interessados em Lautréamont comparecerem. Diferente de outros simpósios a que me convidaram, que me pareceram excessivos: programação demais, maratona de palestras, mesas, comunicações, resultando em perda de informação – e tudo estourando horários.

Esses trens acadêmicos são conseqüência, penso, das avaliações quantitativas do desempenho. Atraem a clientela dos certificados: ao final, todos saem felizes com os respectivos atestados de que compareceram ou se apresentaram, contabilizando pontos ganhos e mais uma entrada no Lattes.

Acho bom haver currículo Lattes. É biografia intelectual, fonte para consultas. Mas, se, de um lado, complica para aquele professor que vai levando com a barriga, fazendo o mínimo, de outro obscurece a qualidade. Há gente trabalhando para pontuar, pois isso decide promoções e até emprego. Alguém absorto em uma pesquisa que demanda concentração por muitos anos desaparece, como se não fizesse nada.

Na minha área atual (Letras / Literatura) e em Humanidades em geral há distorções. Por exemplo, periódicos estarem á frente de livros. Um químico, se quiser atualizar-se, só dispõe de periódicos especializados para consultar; mesma coisa, para comunicar sua pesquisa. Nós, não – o livro tem maior alcance, vida própria, chega a mais leitores (embora, ultimamente , periódicos on line ampliem alcance e autor não preciso esperar seis anos para seu trabalho sair). Uma boa revista literária ou suplemento podem ser mais efetivos. Lattes tampouco registra – até onde entendi suas entradas   –  a “fortuna” crítica (quisera eu, cada crítica favorável acrescentar saldo à conta…) ou bibliografia “passiva” (epa…!), mesmo endo marcas de reconhecimento.

Até certo ponto é bom, obriga essa gente a trabalhar. Se essas qualificações servirem para expor picaretas do ensino, que demitem professores qualificados para reduzir custos, então já cumprem uma função importante. Minha crítica não é tão radical como a de Piva, em favor de substituir professores universitários por babalaôs e universidades por terreiros. Os dois modos de transmissão do conhecimento poderiam coexistir e interagir.

Saiu mais um ranqueamento, classificação de  universidades. Dessa vez, da América Latina e com a USP à frente – costuma alternar-se com a UNAM mexicana:

http://educacao.uol.com.br/noticias/2013/05/28/brasil-tem-4-universidades-em-ranking-de-10-melhores-da-america-latina.htm

Classificações têm utilidade, também, para conferir a credibilidade de informações: por exemplo, matéria recente da Veja dando estatísticas da universidade de Reading, Inglaterra, de que não está havendo aquecimento global. Universidade de Reading não consta nos ranqueamentos – portanto, pesquisa é tão fria quanto o focinho de um beagle em perfeitas condições de saúde – mas ainda, com pessoas ligadas a instituições sólidas insistindo em que há, sim, aquecimento global. A revista semanal publicar a matéria sem esses reparos atinge fundamentos do jornalismo.

Estranho a Sorbonne não constar nessas quantificações / qualificações. Université de Paris é dividida, Paris 1 (Sorbonne), 2, etc, e isso enfraquece, divide pontuação. Franceses não gostam dessas coisas, acham que é americanismo. C&T é na École Politéchnique. Mas, mesmo assim, um lugar que configurou a crítica, a partir do qual USP e outras foram formatadas – a expressão irônica “sorbonícolas” é de Rabelais, século 16. Ter história não conta?

Ensino deve ser classificado e qualificado, e temos que nos interessar pelo tema, nem que seja por estarmos em um país com 70% de analfabetos funcionais. Mas a palavra e o pensamento merecem outros critérios, modelos e categorias. Alguma tentativa de passar do gelo tecnocrático para a cultura viva.

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2 responses to this post.

  1. Acho que as pessoas estão mais interessadas em pontuar que acrescentar. Há um desvio sério nas nossas universidades que é o de os professores não terem tempo para pesquisa e o afastamento de professores com vivência e experiência das matérias básicas, passando tal responsabilidade para os mestres e doutores que deveriam estar preocupados com suas teses. Também vejo o ‘ranking’ como algo perigoso que, acrescentado às questões anteriores, podem acomodar. Por mais que estejamos bem e reconheçam lá fora nosso trabalho, tem áreas – e são muitas – em que estamos bem aquém do mundo acadêmico avançado (as humanas não fogem dessa realidade).

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  2. Só fui até a graduação, às vezes sinto uma grande vontade de dar prosseguimento na jornada acadêmica, mas quase sempre desanimo. Ler esse tipo de texto anima, assim como o seu enfoque ao trabalho de pesquisa, que é um ótimo exemplo que dá para conciliar conciliar regras, precisão com criatividade e rebeldia. Confesso que tinha muitas ressalvas a doutores em literatura até conhecê-lo. Essa citação do Baudelaire é ótima, colocarei no meu cartão de visitas. Sem dúvidas, um dos textos críticos desse blog que eu mais gostei. Afiadíssimo, a imagem do nariz de beagle gelado é MARAVILHOSA. Obrigado por compartilhar seus pensamentos sobre esse assunto que é bem caudaloso.

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