Mais poesia, mais Radovan Ivsic

A propósito de minha postagem anterior: registrar o valor no campo da literatura e artes seria tarefa da crítica, e não das pontuações do CAPES e classificações de universidades. Contudo, a crítica dá a impressão de continuar do mesmo jeito como no século 19, conforme retratada no capítulo final do excelente A Folie Baudelaire de Roberto Calasso (Companhia das Letras, 2012). Era assim: Sainte-Beuve nem aí para Baudelaire; Anatole France reclamando que ninguém mais escrevia versos como os de Racine e vetando a inclusão de Mallarmé no Parnasse Contemporain.

Uma chance para a crítica redimir-se: registrar entre os melhores lançamentos de 2013 este Poesia reunida do croata Radovan Ivsic, pela Lumme editor, tradução de Eclair Antonio de Almeida Filho. Já havia comentado aqui.  E copiado os poemas “De tudo” e “Brioni”: https://claudiowiller.wordpress.com/2013/05/22/radovan-ivsic-e-edmond-jabes-na-casa-das-rosas-retransmitindo/

Agora, selecionei os primeiros poemas da série “Meteoros” e os últimos da série “Sonhei”. Tenho arquivos com traduções de Eclair. Havia levado algo a oficinas literárias e cursos de surrealismo. Exercício de criação para uma próxima oficina, quem sabe: levar poemas de Ivsic, em seguida pedir aos participantes que adormeçam e sonhem imagens poéticas. Comigo deu certo.

Teria mais a dizer sobre essa edição e poesia surrealista. Ficará para a próxima postagem. Leitores, vão às livrarias – ou à editora Lumme: vendas@lummeeditor.com  – e principalmente aos poemas:

METEOROS

1

            Sombria, ela está no vazio. Seu dedo desperta, hesita, depois torna-se peixe. Todo seu corpo se alumia. É o nevoeiro, diz para si mesma.

2

            Pesada, no turbilhão, ela é apenas uma ferida. Um grito entreabre sua boca mas os dedos de seus pés são borboletas e alçam vôo. É o relâmpago, diz para si mesma.

3

            Vermelha, ela se assusta: não são mais as escamas que recobrem seu corpo mas os lábios tão pequenos, inumeráveis. Ela se envolve num lençol branco. É a neve, diz para si mesma.

4

            Trêmula, ela avança em direção ao abismo embora ela gostaria de fugir. Não é um abismo, é um abutre que se precipita em direção à ponta nua de seu seio. É a miragem, diz para si mesma.

5

            Citadina, ela tem o segredo para abrir as jaulas. Com o primeiro tigre, ela desce no metrô. Em pouco tempo, estão no deserto. As ampolas se apagam mas no escuro dois olhos verdes não tardarão a se iluminar. É o eclipse, diz para si mesma.

6

            Ofegante, ela atingiu o cume da mais alta falésia. De repente, atrás de um rochedo, ela percebe um olho e depois um outro: milhares de pupilas ávidas fixam-se sobre ela. Rápida, ela começa a se despir. Nua enfim, ela avança em direção à encosta abrupta, ervosa, e desce até a planície fazendo a roda. É o ciclone, diz para si mesma.

7

            Noturna, no musgo ela descobre as estrelas, os traços de um cervo e enfim uma fonte. Um arminho em fuga se esconde em sua axila. É o cometa, diz para si mesma.

SONHEI

3

Viro-me, vejo o mar de uma cor indeterminada e três conchas vermelhas. De um cipreste sai um cervo. De seu olhar tranqüilo brotam avencas numa angra. Ajoelho-me para colher um pouco da relva escondida entre os seixos. Espero o cervo adormecer. Quando o vejo chorar lágrima após lágrima, cravo-lhe a relva entre os galhos. Uma jovem azul sai-lhe da cabeça e por inteiro tremo com os beijos nus que ela deposita sobre minhas pálpebras. Com um supremo esforço, abro os olhos para quebrar o segredo, mas uma ondulante lâmina negra o arrebata e choro toda a noite no vento, frio.

4

Esta floresta é clara como seda. Um esquilo branco flui caudaloso nas ramagens e me traz a primavera desvairada. Pergunto-me se é preciso esperar até que o amor ecloda o galho morto da esperança ou se não seria preferível partir em direção à praia, entrar furtivamente na água e nadar amplamente até o alto mar, tão novo. Gostaria de andar, mas sinto que não tenho mais pernas. Tornei-me uma árvore e tenho folhas. Estou a ponto de brotar e rio, mas não é mais um riso, é o murmúrio ameaçador da minha nova folhagem. Deveria me preparar para o amor mas torno a me fechar e nado em direção ao sono.

5

            As cores me circulam e me sublevam. O que vejo então não é mais nem uma árvore, nem uma montanha, nem um camaleão, nem um arco-íris, nem o dia. De todos os lados, as flores nascentes me fixam, vêm e desaparecem por trás de minhas pálpebras, por trás de minha obscuridade. Banho-me com as algas nuas, e uma só vaga poderia fazer cintilar o pesado anel da tranqüilidade. O silêncio se espalha como uma onda em torno da pedra caída num lago imóvel, largo, onde nem mesmo o eco pode salvar o passado. Em meu olho alguma coisa se mexe como o jogo jocoso dos seixos da torrente e depois há a árvore como uma sombra que eu gostaria de visitar mas permaneço petrificado. Parece-me que não posso me mexer senão à maneira do girassol, seguindo o sol

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6 responses to this post.

  1. Willer, eu sou um dos que aguarda a oportunidade de uma oficina contigo.
    Há algo em gestação?
    Grande abraço.

    Responder

  2. O pouco que vi de Ivsic até agora já me leva a outra dimensão. E uma oficina para adormecer e sonhar imagens poéticas? Puxa… essa quero fazer. E poderia durar anos!! bjs

    Responder

  3. Oi Claudio. Existe alguma possibilidade de você fazer uma oficina aqui no Rio? Gostaria muito de participar. Um abraço.

    Responder

  4. […] SP, com o provável melhor lançamento de 2013, Poesia reunida de Radovan Ivsic, também aqui em https://claudiowiller.wordpress.com/2013/05/29/mais-poesia-mais-radovan-ivsic/ Os novos poetas brasileiros pela Patuá, Dobra, Kazuá. O ensaio A arqueologia do resíduo: os […]

    Responder

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