A insurreição dos índios: algumas máximas, reflexões e aforismos

Havia postado algo no Facebook. Mas no blog é melhor, permanece. E ainda acrescento, atualizações feitas a 05/06.

A estatística divulgada (entre outros lugares, no Jornal Nacional de 03/06) de que índios têm 13% do território brasileiro, mais que a agricultura, é enganadora. Esses territórios indígenas estão concentrados no Norte da Amazônia. Se não fossem dos índios, seriam reservas florestais ou, quando muito, teriam 80% preservados, com mata nativa. Além disso, cifras entendem como “agricultura” o plantio, mas não a pecuária – se acrescentar, mais que triplica. A Folha de 04/06 dá números melhores, que converti em percentuais sobre o total de 851,6 milhões de hectares:
pecuária, 20,20%;
 agricultura, 9,3 %;
terras indígenas, 12,27 %;
os restantes 58%, “outros”.
Resta esclarecerem o que são “outros”, e se a categoria não inclui, além das reservas ambientais e do semiárido, subaproveitado (décadas de promessas não cumpridas e planos não realizados), terras agriculturáveis não utilizadas.
Pecuária: eu vi – por exemplo, final de 2011, vôo de Brasília a Campo Grande, lugar na janela, dia de sol, as extensões de pasto sem nada, criação com um ou outro rebanho, rios sem mata ciliar e nada de reservas de mata nativa. Tem chão, me parece, se quiserem ampliar agricultura.  Embrapa assistirá – desempenhará papel melhor do que opinar sobre reservas indígenas, como pretendem agora.

Em tempo (postado a 05/06): matéria de hoje na Folha e Uol traz informação mais precisa sobre a extensão de teras de índios especificamente em Mato Grosso do Sul: http://www1.folha.uol.com.br/poder/2013/06/1289897-analise-reservas-de-ms-tem-areas-menores-do-que-as-da-amazonia.shtml – como se vê, há muito índio para puca terra. Vítima desse confronto, além dos próprios índios: a objetividade. Governo federal, em vez de tomar providências para resolver, preferiu desautorizar a Funai, endossar a tese da conspiração de antropólogos e complicar mais ainda o processo da demarcação e transferência de terras. E, após a informação enganadora veiculada pelo Jornal Nacional, algum dos grandes veículos de imprensa fica nos devendo uma boa reportagem em algum desses lugares onde há índios miseravelmente confinados.

Alguém que abre uma declaração dizendo “O que nós queremos, enquanto governo…”, como o fez  Gleisi Hoffmann no Paraná, não deveria ocupar cargo público expressivo. Proponho lei contra a redundância e o enunciado vazio.

Sergio Cohn postou transcrição dos elogios de Kátia Abreu, a dirigente ruralista, a Dilma Rousseff. O entendimento de ambas é a fórmula perfeita para resolver tensões sociais; para superar contradições, para realizar a utopia, a racionalidade absoluta na História.

Essa gente parece preocupar-se exclusivamente com isto: de onde virão apoios? quem vai ajudar a conseguir mais votos? como amarrar patrocinadores com mais solidez? Reféns de seus financiadores, visivelmente – e querendo mostrar serviço para eles.

A foto da índia dependurada, que comentei em postagem anterior – https://claudiowiller.wordpress.com/2013/05/31/desta-vez-os-indios-terena/ – não, memória não me traiu – o caso também é relatado aqui: http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/o-relatorio-figueiredo-e-o-massacre-de-indigenas-na-ditadura – recebi de Luciano Alonso – mas, por meu registro, foi antes (pouco antes) do regime militar. Ou há várias imagens como essa, era comum dependurar índias daquele jeito. Outras barbaridades seguiram-se, muitas.

A propósito: e a apuração da morte do índio terena? Demora tudo isso, para saber calibre de bala?

O mais importante, este documento: http://amazonia.org.br/2013/06/carta-aberta-desqualifica%C3%A7%C3%A3o-da-funai-repete-%C3%BAltimo-governo-militar/ A questão fundamental: Constituição de 1988 prevê a demarcação de terras indígenas; e deu prazo de cinco anos. Atual governo, em vez de correr atrás, recuperar tempo perdido, resolveu tumultuar, dificultando demarcações. Paralelo com regime militar procede. Quem diria – já foram progressistas, ao que consta. Tudo muda, já foi dito. Ou nunca mudou? (outra hora conto a piada de Laurel & Hardy, o gordo e o magro, sobre mudanças – ou já conhecem?).

Para completar, dois pontos de vista, algo convergentes, algo conflitantes. Um deles, dos ruralistas de MS, ameaçando reagir pelo método tradicional, a bala:

http://www1.folha.uol.com.br/poder/2013/06/1290111-estamos-falando-de-um-massacre-iminente-diz-lider-de-produtores-de-ms.shtml?utm_medium=twitter&utm_source=twitterfeed

Outro, do Ministério Público de MS:

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,ministerio-publico-acusa-uniao-de-omissao-,1038893,0.htm

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2 responses to this post.

  1. Nunca pensei que episódios tristes seriam reeditados num governo dito popular e que chegou ao poder discursando contra a opressão. Pois são capazes de burlar, fraudar números, falar pelos ruralistas como se fossem um deles. Decepciona. Pior, parte da população corrobora com isso, julgando índios improdutivos e “sem direito a tanta terra”. Na verdade, as reservas indígenas preservam meio ambiente e culturas, sempre afirmo onde há índio há floresta e fora isso resta-nos a visão de um Centro-Oeste e de uma Amazônia empobrecidos sem sua cobertura de matas, plantando soja para engordar porcos na China. Esta é a mentalidade produtivista de quem quer tirar o índio de sua terra, para deixar devastação no lugar, além de lugarejos empobrecidos como os que vi no Maranhão e Pará sujeitos à lei bruta dos garimpos e dos latifúndios. O brasileiro médio urbano não conhece floresta nem índio, pensa num tipo de desenvolvimento que está a anos-luz do que se encontra nestas plagas de rodeios e ruralistas ensandecidos pelo lucro imediato. A preservação da cultura indígena é uma questão de preservação nacional contra mentalidades distorcidas por um capitalismo bruto.

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