Agora, um trecho de Allen Ginsberg

Foi lido e examinado na recente oficina, em Ribeirão Preto, semana passada, a propósito de anáforas e imagens. É o final de “Kaddish”, o extenso poema sobre sua mãe, louca, que tinha surtos e passou boa parte da vida internada. Comparei com o poema precedente, de Breton, É como se um fosse o negativo do outro.

A comparação é sugerida por Barry Miles, em seu excelente The Beat Hotel – das minhas recomendações a editores interessados em publicar mais sobre geração beat. Miles acha, inclusive, que Ginsberg havia lido “L’Union Libre” de Breton na época em que começou a escrever “Kaddish”, em 1958, em Paris.

Faz sentido – não só pela estrutura do poema, mas pelo episódio da fracassada tentativa de encontro de Ginsberg e Breton na época, já comentada aqui, em https://claudiowiller.wordpress.com/2012/03/17/beat-e-surrealismo-encontros-e-desencontros/ . Mas são poéticas distintas – Ginsberg foi um objetivista, e todas as imagens resumem episódios biográficos, realmente acontecidos – embora em outros poemas fosse surreal, como também já observei aqui, em https://claudiowiller.wordpress.com/2013/04/24/ciclo-grotowski-e-ginsberg-surrealista/

Outro comentário de Miles: de que Ginsberg chorava ao escrever poesia, e chorou muito ao escrever “Kaddish”, por isso tinha certeza de que o poema seria bom – o oposto de “a emoção não cria” de Cabral. O recente Negócios de família (editora Peixoto Neto), correspondência de Allen Ginsberg com seu pai, o também poeta Louis Ginsberg, inclui comentários desse sobre o poema do filho: admirou, mas não suportou a “longa barba negra ao redor da vagina”, pediu que retirasse. Diferenças de gerações e de poéticas.

“Kaddish” é um poema portentoso, obra prima – leiam-no na íntegra, em minha tradução de Ginsberg, bem acessível em pocket.

Allen Ginsberg

Kaddish

IV

Ó, mãe
o que eu deixei fora
Ó, mãe
o que eu esqueci
Ó, mãe
adeus com um comprido sapato preto
adeus
com o Partido Comunista e uma meia rasgada
adeus
com seis fios de cabelo negro no vão dos teus seios
adeus
com teu velho vestido e uma longa barba negra ao redor da vagina
adeus
com tua barriga flácida
com teu medo de Hitler
com tua boca de histórias sem graça
com teus dedos de bandolins quebrados
com teus braços de gordas varandas de Patterson
com tua barriga de greves e chaminés
com teu queixo de Trotsky e a Guerra Espanhola
com tua voz cantando pelos trabalhadores arrebentados caindo aos pedaços com teu nariz de trepada mal dada com teu nariz de cheiro de picles de Newark
com teus olhos
com teus olhos de Rússia
com teus olhos sem dinheiro
com teus olhos de falsa China
com teus olhos de tia Elanor
com teus olhos de Índia faminta
com teus olhos mijando no parque
com teus olhos de América em plena queda
com teus olhos de fracasso ao piano
com teus olhos dos parentes na Califórnia
com teus olhos de Ma Rainey[1] morrendo numa ambulância
com teus olhos de Checoslováquia atacada por robôs [2]
com teus olhos indo para a aula de pintura à noite em Bronx
com teus olhos de Vovó assassina no horizonte da Escada de Emergência
com teus olhos fugindo nua do apartamento gritando pelo corredor
com teus olhos sendo levada embora por policiais numa ambulância
com teus olhos amarrada na mesa de operação
com teus olhos de pâncreas extraído
com teus olhos de operação de apêndice
com teus olhos de aborto
com teus olhos de ovários arrancados
com teus olhos de eletrochoque
com teus olhos de lobotomia
com teus olhos de divórcio
com teus olhos de ataque
com teus olhos, só
com teus olhos
com teus olhos
com tua Morte cheia de Flores

V

Có có có corvos crocitam no sol branco sobre lápides em Long Island
Senhor Senhor Senhor Naomi debaixo dessa grama metade da minha vida e tão minha quanto sua
Có có seja meu olho sepultado no mesmo Solo onde estou postado como Anjo
Senhor Senhor grande Olho que mira Tudo e se move numa nuvem negra
có có estranho grito de Seres arremessados ao céu sobre árvores ondeantes
Senhor Senhor Ó, Dominador de gigantes Ultrapassa minha voz num campo ilimitado no Sheol[3]
Có có o chamado do Tempo solto do chão e lançado por um momento no universo
Senhor Senhor um eco no céu o vento atravessa folhas dilaceradas o troar da memória
có có os anos todos meu nascimento um sonho có có Nova York o ônibus o sapato partido a enorme escola có có tudo Visões do Senhor
Senhor Senhor Senhor có có có Senhor Senhor Senhor có có có Senhor

 NY, 1959


[1] Ma Rainey – a grande cantora de jazz da primeira metade do século.

[2] Checoslováquia atacada por robôs – imagem por associação livre, pois a palavra robô foi inventada por um escritor checoeslovaco, Karel Kapek, precursor da ficção científica.

[3] Sheol – território da morte, equivalente hebraico do Hades grego.

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