Mais poemas: agora, o meu

Completando a série que pretendia publicar aqui, neste blog (haverá mais, é claro), segue a prosa poética, originariamente publicada em Jardins da provocação e depois em Estranhas experiências, que Carmem Silvia Presotto havia postado no Facebook.

Escrevo de modo espontâneo – muitas vezes, é escrita automática. Este não – criação foi deliberada, consciente, “trabalhada”, queria fixar no papel uma determinada impressão, de como era a luz no quarto com a persiana baixada. Tentei algumas vezes, parei, refiz, copidesquei até ficar como queria.

Misteriosos caminhos da criação literária. Acabo de mandar para uma antologia um poema – também sairá no meu próximo livro – intitulado “Trópico de sagitário”. A imagem me veio à mente, apareceu em um flash – achei bonita, anotei, e esse título me sugeriu mais algumas frases. 100% espontâneo, sem parar para pensar. Só a epígrafe, adicionei ao preparar para publicação. Depois, detive-me nos sentidos: não existe trópico de sagitário; eu é que sou desse signo – e “trópico” lembra, é claro, Henry Miller, autor da minha predileção, inclusive pela prosa poética. O poema é, portanto, sobre autobiográfico. Pensando bem – como é poema curto, também vou publicá-lo, acrescentá-lo a esta postagem.

Boa leitura.

VIAGENS 5

OS POETAS APENAS TRANSCREVEM O QUE OUTROS POETAS JÁ DISSERAM

Aos amantes uma outra vida é concedida

Hölderlin

Despertamos neste domingo de tentáculos solares que ameaçam tomar conta do resto da semana; com a persiana baixa, o quarto é penumbra dourada, entardecer constante seja qual for a hora do dia. Viajantes imóveis, olhamos o filete de fumaça do cigarro plantado no centro do quarto, seu movimento vagaroso aparentando a vida dos sargaços, aguapés, labirintos e demais símbolos da memória. Como plantas aquáticas à deriva, viemos parar aqui, fugitivos do excessivo mundo, prisioneiros voluntários deste mínimo espaço. A cada nova carícia, cada perda de mãos nos meandros do corpo do outro, transformamo-nos em personagens do mesmo sonho: o mundo finalmente reduzido à dimensão da colcha jogada sobre a cama, à geometria harmoniosa dos lençóis amassados e travesseiros náufragos. Nossa nudez é um desafio ao tempo: todas as horas formas do sempre, multiplicadas pelo mesmo gesto de acariciar-se. Possuídos pela mesma calma dos rios que deságuam em seu pântano e vão reconhecendo aos poucos suas novas margens de contornos imprecisos, suas raízes e troncos submersos, falamos pouco, pois tudo tem significado, até mesmo os gestos mais simples, acender um cigarro, tomar café. O despertar é reconhecimento e retomada dos mesmos gestos rituais, mãos construindo novos labirintos de sensação do macio e do áspero da pele, navegação de um para o outro para depois voltarmos a nos afundar nos lençóis mornos. Não fazemos questão de ser muito mais que isso, um arquipélago de superfícies do corpo e sensações da pele. E esta umidade que só o amor consegue criar, impregnando o ar e recobrindo a parede. E os cheiros do corpo, o que dizer deles, desta aura de suor, esperma, perfume, hálito, secreção e mistério, que carregamos conosco e que nos dá a certeza de existir e estarmos vivos. Identidade com o mar, conhecimento das vozes do entardecer, memória dos passos sendo acolhidos pela areia da praia. Somos signos da terra, nos acompanha algo de chão apenas revolvido, pequenos lagos com suas plantas, florestas que ainda existem. Como tudo isso é diferente do resto, e nos torna irreversíveis. Todos os poemas o mesmo poema. Libertamo-nos, deixamos de ser prisioneiros do horóscopo. Recolocamos o mundo em seu devido lugar, após tomar uma poção mágica. Cumplicidade de samurais que se preparam para a luta em uma prontidão de espadas, sabedoria daqueles que sabem mover-se na escuridão. A percepção desentravada nesta planície de penumbra dourada de entardecer que se reflete na pele. Não importa onde você esteja agora, e quão distante. Não existem saudades, porém sóis circulando em nossas veias. Nenhuma sensação de perda ou de vazio, porém de acréscimo, alguma coisa que ganhamos nessa complicada errância pelo planeta em busca da nossa identidade. E também esta névoa familiar que pousa ao meu lado na semilucidez da vigília, feita de sensações de corpo, presenças, toques da pele, pulsações, tesão, este confuso novelo de memórias, de vozes e de cheiros que aos poucos vai se desatando e se transformando em poema.

 

TRÓPICO DE SAGITÁRIO

Empenhara-me, efetivamente, com toda a sinceridade d’alma, em revertê-lo ao seu estado primitivo de filho do sol

Rimbaud

fragmentos celestes

                                            suspensos a uma nuvem

                         podemos observar o lento giro dos portões do mar

                         e sentir que a vida toda se condensa em um momento

 

                         as palavras respiram

                                               no livro invisível

                                                                                feito de água

                         novas sensações

                                                      escondidas por trás do vento

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3 responses to this post.

  1. Viagens 5 é um dos meus textos preferidos em Jardins da Provocação, uma vez publiquei na minha página, de uma beleza estonteante e fala de uma forma íntima com o leitor. Sigamos com a poesia, fundamental em tempos estáveis e mais ainda nos críticos. Bjs!

    Responder

  2. Ótimos poemas! O mestre continua em forma!

    Responder

  3. Posted by Eliane on 21/06/2013 at 00:54

    Muito Belo! Nesses tempos em que alguns ficam apreensivos, outros em total descrença e muitos esperançosos, gostaria de ter o dom da palavra poética.

    Responder

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