Rimbaud para manifestantes

Incendeiam. Lembra-me Rimbaud. Citando, do meu artigo na Cult:

[…] sua adesão à Comuna de Paris, a sangrenta revolta de março a maio de 1871 da qual não conseguiu participar (menor de idade e viajando sem dinheiro, foi detido e mandado de volta para Charleville). Seus poemas mais militantes mostram que a Comuna atraía como destruição. “As mãos de Jeanne-Marie” elogia as petroleuses, mulheres que, nas últimas horas antes da ofensiva das tropas de Versalhes, munidas de querosene, puseram-se a incendiar prédios públicos, sedes de instituições, esperando que nada sobrasse para os ocupantes. Para ele, “nobres damas” que, com suas “Mãos sagradas, / em vosso punho, onde acolheis / Nossas bocas jamais saciadas, / Gritam grilhões de alvos anéis!” Em “A orgia parisiense ou Paris se repovoa”, Rimbaud reclamou da cidade voltar ao normal e a burguesia retomar seus afazeres: “O poeta irá tomar o pranto dos Infames, / Os ódios do Forçado, as queixas dos Malditos; / E as mulheres serão flageladas de amor. / Seus versos saltarão: Ei-los! Ei-los! bandidos!”. Poeta e bandido: para Rimbaud, sinônimos.”

Na “semana sangrenta”, final da Comuna, foram mais de 30.000 mortos – boa parte, execução sumária. As petroleuses, incendiárias, foram presas e maltratadas. O poema “As mãos de Jeanne-Marie” foi resgatado e publicado pela primeira vez só em 1919, pelos surrealistas, na revista Littérature dirigida por Breton e Aragon.

Não estou recomendando que toquem fogo. Isto aqui não é a Comuna de Paris (ainda). Achei a tradução de “As mãos de Jeanne-Marie”, de Ivo Barroso em um lugar chamado Imprimis. O original, acompanhado de interpretação, em http://abardel.free.fr/petite_anthologie/les_mains.htm . Meu artigo sobre Rimbaud em http://revistacult.uol.com.br/home/2013/04/o-rebelde/

 As mãos de Jeanne-Marie

Arthur Rimbaud

Jeanne-Marie tem a mão forte,

Escuras mãos que o sol atana,

Pálida mão qual mão de morte.

_ Serão acaso as mãos de Juana? 

 

Terão tomado as cores cruas

Do charco da sensualidade?

Ou mergulharam-se nas luas

Dos lagos da serenidade? 

 

Beberam céus bárbaros, brutos,

Calmas, em joelhos deslumbrantes?

Terão enrolado charutos

Ou traficado com diamantes? 

 

Nos pés ardentes das Madonas

Fanaram flores de ouro informe?

Negro sangrar das beladonas

Em suas palmas surge e dorme. 

 

Mãos caçadoras de apiários

Onde aurorais azuis serenos

Zumbem, em busca de nectários?

Mãos que decantam os venenos? 

 

Que Sonho as fez assim contritas

Em suas pandiculações?

Sonho das Ásias inauditas,

Dos Khenghavares ou dos Siões? 

 

Mãos que jamais vendem laranjas,

Nem que dos deuses brunem sólios;

Que não lavaram nunca em sanjas

As fraldas de nenéns sem olhos. 

 

Não têm das primas mãos finas

Nem da operária a rude tez

Que, em fornos fétidos de usinas,

Rescalda um sol ébrio de pez. 

 

São curvadoras de dorsais,

Que de fazer o bem têm calo,

Mais do que as máquinas, fatais,

E fortes, mais do que um cavalo!  

 

Ardendo em fornalhas acesas

E a sacudir todos os seus tons.

Canta essa carne Marselhesas

E jamais canta os Eleisons! 

 

Podem vos enforcar, madames

Más, e esmagar vossas mãos ruins,

Ó nobres damas, mãos infames

Cheias de branco e carmins. 

 

O seu clarão de amor constrange

Ovelhas longe em seus redis!

O sol depõe-lhe na falange

O brilho rubro de rubis! 

 

Uma nódoa de populaça

Qual seio antigo as anegreja

O dorso dessas mãos é a praça

Que um revoltado beija! 

 

Desfaleceram, sonhadoras,

Ao sol do amor que então surgia

No bronze das metralhadoras

Pela Paris que se insurgia! 

 

Ah! Que por vezes, Mãos sagradas,

Em vosso punho, onde acolheis

Nossas bocas jamais saciadas,

Gritam grilhões de alvos anéis! 

 

E há um Sobressalto que constrange

Os nossos seres, quando os medos

Querem vos consumir, mãos de anjos,

Fazendo-vos sangrar os dedos!

Anúncios

5 responses to this post.

  1. Posted by elizabeth lorenzotti on 27/06/2013 at 01:35

    Rimbaud! Rimbaud! Rimbaud! Jeanne Maries! Jeanne Maries! Jeanne Maries!

    Responder

  2. Que ótima referência. Olha, fogo não recomendo, mas pichações em alguns bancos, no íntimo eu aplaudi…com mãos incendiadas! bjs!!

    Responder

  3. Posted by Raul Fiker on 27/06/2013 at 07:22

    Cotuba.

    Responder

  4. Posted by Ruth Sá on 27/06/2013 at 12:44

    Muito interessantes as “coincidências” com os movimentos contemporâneos. E que belo poema do jovem Rimbaud!

    Responder

  5. Muito interessante. O poema de Rimbaud é muito bonito!
    Um abraço.

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: