Mais sobre manifestações e debates

Reproduzo um trecho famoso do Manifesto Comunista de Marx. Acho que muitos marxistas não o entenderam, ou não se dão conta de seu sentido:

A burguesia desempenhou na história um papel eminentemente revolucionário. […] A burguesia só pode existir com a condição de revolucionar incessantemente os instrumentos de produção, por conseguinte, as relações de produção e, com isso, todas as relações sociais. A conservação inalterada do antigo modo de produção constituía, pelo contrário, a primeira condição de existência de todas as classes industriais anteriores. Essa subversão continua da produção, esse abalo constante de todo o sistema social, essa agitação permanente e essa falta de segurança distinguem a época burguesa de todas as precedentes. Dissolvem-se todas as relações sociais antigas e cristalizadas, com seu cortejo de concepções e de idéias secularmente veneradas, as relações que as substituem tornam-se antiquadas antes mesmo de ossificar-se. Tudo que era sólido e estável se esfuma, tudo o que era sagrado é profanado e os homens são obrigados finalmente a encarar com serenidade suas condições de existência e suas relações recíprocas.

Comparo com trechos de um autor nem um pouco marxista – e extraordinariamente lúcido, Octavio Paz, que, em Os Filhos do Barro, vê a “idade moderna como uma idade da crítica, nascida da negação”,[1] e, conseqüentemente, a crítica como fundamento da modernidade. Como resume em Solo a Dos Voces, “Na Idade Média, a religião funda a sociedade. Porém, desde que a burguesia fez a crítica do mundo sagrado, o fundamento da sociedade é a crítica. O mundo do passado estava assentado em verdades imutáveis, invulneráveis à crítica. Agora, o fundamento do mundo é a crítica”.[2] E mais:

A modernidade é uma tradição polêmica, e que desaloja a tradição imperante, qualquer que esta seja: porém desaloja-a para, um instante após, ceder lugar a outra tradição que, por sua vez, é outra manifestação momentânea da atualidade. A modernidade nunca é ela mesma: é sempre outra. […] Tradição heterogênea ou do heterogêneo, a modernidade está condenada à pluralidade: a antiga tradição era sempre a mesma, a moderna é sempre diferente.[3]

Manifestações em curso são modernas. Fazem parte de um devir burguês – mas que vai devorando, me parece, a própria burguesia. Ou a consolida? Ou ambos? Veremos.

A propósito de algumas observações – de que essas manifestações são “da classe média”, assim como o anarquismo, e de que mobilizações pelo meio digital, inclusive Facebook, seriam uma trivialidade, penso em dedicar uma futura postagem a Flaubert; a seu Bouvard e Pécuchet, os criadores de uma enciclopédia da sabedoria universal, das “idéias recebidas” (que Flaubert odiava); ou seja, dos chavões, lugares comuns. Serei irônico.


[1] Octavio Paz, Os Filhos do Barro, tradução de Olga Savary, Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1984, pg. 52.

[2] Octavio Paz, Solo a Dos Voces, em parceria com Juliás Rios, Editorial Lumen, Barcelona, 1973.

[3] Paz, O Arco e a Lira, pg. 18.

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4 responses to this post.

  1. No último dia 20, numa manifestação em Porto Alegre, os anarquistas tiveram sua sede invadida pelo polícia com a conivência do governador Tarso Genro, seus livros foram apreendidos como nos tempos da ditadura. Isso mostra a falta de horizonte de quem só consegue enxergar golpes e contra-golpes em mobilizações populares. Há segmentos da dita esquerda francamente antidemocráticos, sem nenhum molejo, sem capacidade de assimilar insatisfações ou mesmo rejeições ao menor ponto de vista, Ou vc está com eles ou está contra eles, querem que as pessoas absorvam tudo por osmose e sem críticas. Não sabem ler entrelinhas, não sabem compreender nuances, qualquer movimento diferente é logo taxado de movimento burguês ou “classe média.” Até por isso estão se dando mal.É o que ocorre no momento, ninguém aguenta mais tanta soberba.E desculpe-me se não filosofo e vou na lata.

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  2. * Errata: tachado ali em cima.

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  3. Posted by Daniel Gambín on 01/07/2013 at 23:52

    No que hoje é Guatemala, e a poucos anos de descoberto o novo mundo pelos espanhóis, o guerreiro maia Tecún Umán more em batalha, derrotado pelo conquistador Pedro de Alvarado. Este, que avançava desde o que hoje é Panamá subindo pela rota do pacífico iria chegar na Califórnia para encher essa terra de nomes espanhóis.
    Tecún Umán, hoje herói da Guatemala, enfrentou os invasores, mas não deu tempo para ele entender o que enfrentava.
    Ele morreu de um simples golpe de espada.
    Tecún Umán não entendeu que esses seres eram homens sobre cavalos, achava que homem e cavalo constituíam uma unidade.
    Morto o cabalo pela destreza de sua lança, ficou em pé o espanhol, que nós sabemos não é bicho de sete cabeças, mas disfarçado seu rostro por outra novidade que era a barba acertou seu golpe mortal.

    Na análise e interpretação da realidade de nosso tempo, que é por sobre todo complexo, como sempre foram todos os tempos, mas muito mais agora que as revoluções permitem aos seres humanos sonhar com horizontes de liberdade e conseguem de fato quebrar muitos controles e e imprimir na história um ritmo vertiginoso, muito mais agora resulta necessário discernir com cuidados críticos ao soltar nossos pensamentos.
    Tecún Umán, Carl Marx, e Octavio Paz, salvando suas diferencias, estão no passado, e nós herdamos o resultado do mundo que eles buscaram entender, como herdamos a responsabilidade de acrescentar os novos elementos que surgem da evolução histórica da sociedade.
    Bem a minha mente uma observação, até secundária, feita por Raymond Barre em seu livro Economia Política, que por vez, é o único que guardei sua leitura.
    Barre foi um reconhecido intelectual e político mal sucedido. Isto último, explicado pelo fato de ele ser uma pessoa consequente com suas idéias.
    Ele apontava um erro de lógica em muitas expressões do pesamento. Por mais que ele fosse um homem de direita, quando ele observa que o Capitalismo não pode ser malvado, está nos sugerindo atender a nossa natureza de querer construir o que analisamos. Malvada pode ser uma pessoa, mas nunca um sistema.
    Seguindo a sua observação podemos encontrar muitos de estos erros, evitar as suas consequências e afinar nosso caminho no pensamento.
    Nada de isto impede nos apaixonar.
    A complexidade de nosso tempo nunca será explicada por uma análise simplista. Se a tradição antiga e substituída, a revolução está em não ter sido substituída por uma tradição moderna e sim por outro ordem, que não é o político, mas também nada é substituído totalmente. As explicações são também complexas e nada é tão radical como vislumbra Marx. Devemos apontar isto por mais que estejamos falando de um magnifico pensador. O mundo é mais diverso, plural e poluído do que idealizamos e só podemos, desde nossa condição humana, sofrer o desfrutar parte de ele e ter visões objetivas e subjetivas pessoais.
    Quando chamamos ao povo para vir e se sentar a discutir estamos esquecendo que o povo não tem bunda para se sentar e que em definitiva são pessoas as que poderão vir e sentar. A burguesia de que? qual seu sobrenome?
    ” Dissolvem-se todas as relações sociais antigas e cristalizadas…”.
    Não sou contra de construir uma imagem contrastante e agudizar o potencial ideológico. Gosto das idéias de Marx, como também sou fá de aquele futurismo histórico.
    Discordo com a concepção de modernismo de Paz. Para mim ele fala de agricultura quando eu vejo no modernismo o nascimento de uma bela flor, rara novidade.
    E guardo a essa flor idealizada, isolada em sua pureza, sem ignorar a terra que a gerou nem o ambiente que abitou.

    Espero Flaubert,
    e com a ironia, mais que necessária.

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  4. Posted by Daniel Gambín on 01/07/2013 at 23:55

    Errata também, bem,
    é Vem

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