Sobre Roberto Piva, mais uma vez

Ontem, dia 3 de julho, fui lembrado por uma postagem de Rubens Shirassu Junior de que Piva havia morrido há três anos. Gravei no Facebook e recebi mensagens / comentários. Transcrevo algumas. Acrescentei algo.

1. A postagem de Rubens:
http://www.rubensshirassujr.blogspot.com.br/2013/07/a-poesia-da-transgressao.html

2. Traduções e comentários do poeta chileno Leo Lobos:
http://www.laotrarevista.com/2010/07/leo-lobos-sobre-roberto-piva/

3. Um poema de 1960, da Antologia dos novíssimos, que Piva não quis publicar em Obras reunidas, mas foi incluído em Os dentes da memória (Azougue 2011) por Renata D’Elia, Camila Hungria e Sergio Cohn. Postado por Stella Machado. Anunciava o que diria em “A piedade” e outros escritos. Curioso, estreou com um necrológio, poema em tom de despedida :

Libelo

Não mais trarei justificações
aos olhos do mundo.
Serei incluído
– pormenor esboçado –
na grande Bruma.
Não serei batizado,
Não serei crismado,
Não estarei doutorado,
Não serei domesticado,
pelos rebanhos da terra.
Morrerei inocente
Sem nunca ter descoberto
O que há de bem e mal
de falso ou certo
no que vi.

4. Um testemunho de René Ferri também postado no Facebook (novidade, desconhecia):

Há uma foto famosa p/b de Jim Morrison sem camisa, que foi capa de uma coletânea dos Doors. Visível um colar de contas que eu achava ser um colar qq. Quando mostrei a capa do LP para o Piva, ele disse num sopro: ‘xamã’ — e enfiando a mão por dentro da camisa, em volta do pescoço, puxou um colar para me mostrar: era absolutamente igual ao do Jim Morrison.

5. A transcrição por Celia Musili do profético “O século XXI me dará razão (se tudo não explodir antes)”, de 1984:

O século XXI me dará razão, por abandonar na linguagem & na ação a civilização cristã oriental & ocidental com sua tecnologia de extermínio & ferro velho, seus computadores de controle, sua moral, seus poetas babosos, seu câncer que-ninguém-descobre-a-causa, seus foguetes nucleares caralhudos, sua explosão demográfica, seus legumes envenenados, seu sindicato policial do crime, seus ministros gangsters, seus gangsters ministros, seus partidos de esquerda fascistas, suas mulheres navios-escola, suas fardas vitoriosas, seus cassetes eletrônicos, sua gripe espanhola, sua ordem unida, sua epidemia suicida, seus literatos sedentários, seus leões-de-chácara da cultura, seus pró-Cuba, seus anti-Cuba, seus capachos do PC, seus bidês da direita, seus cérebros de água choca, suas mumunhas sempiternas, suas xícaras de chá, seus manuais de estética, sua aldeia global, seu rebanho-que-saca, suas gaiolas, seu jardinzinhos com vidro fumê, seus sonhos paralíticos de televisão, suas cocotas, seus rios cheio de latas de sardinha, suas preces, suas panquecas recheadas com desgosto, suas últimas esperanças, suas tripas, seu luar de agosto, seus chatos, suas cidades embalsamadas, sua tristeza, seus cretinos sorridentes, sua lepra, sua jaula, sua estricnina, seus mares de lama, seus mananciais de desespero.

6. Um dos poemas de Estranhos sinais de Saturno, postado por Fabrício Clemente:

Chapéus do irmão Ciclone

Os rios revoltados saberão
vingar-se
Oh Paracelso
Oh Dino Campana
Oh Xangô
da minha janela da lua
   vejo cidades que
sufocam no cimento
rosas de barbitúricos explodindo
nas sacadas
garotos de bicicleta dissertando
sobre a vida dos deuses

7. O que Renata D’Elia havia publicado em seu blog, na época:
http://magiconsundays.blogspot.com.br/2010/07/o-ultimo-heroi-magnetico.html

8. O que publiquei na página da L&PM, a pedido de Ivan Pinheiro Machado:
http://www.lpm-blog.com.br/?p=1690

9. Deste blog, nota sobre a bibliografia piviana, a propósito da publicação de Roberto Piva por Sergio Cohn:
https://claudiowiller.wordpress.com/2012/12/28/uma-biblioteca-sobre-roberto-piva/

10. Para completar, epígrafe inversa, cito Octavio Paz (em Os filhos do barro, Los hijos del limo):

Viver no agora é viver cara a cara com a morte. O homem inventou as eternidades e o futuro para escapar da morte, porém cada um desses inventos foi uma armadilha mortal. O agora nos reconcilia com nossa realidade: somos mortais. Só diante da morte nossa vida é realmente vida. No agora, nossa morte não está separada da nossa vida: são a mesma realidade, o mesmo fruto.

Haverá mais. Estou planejando uma apresentação de inéditos dele. Aguardem.

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8 responses to this post.

  1. Posted by Raul Fiker on 04/07/2013 at 17:59

    Que venham os inéditos.
    Abração.

    Responder

  2. Posted by elizabeth lorenzotti on 04/07/2013 at 20:07

    Enquanto nos lembrarmos,as pessoas vivem.Os grandes poetas, estes, viverão para sempre. Linda homenagem.

    Responder

  3. Muito bonita a homenagem. Piva merece! Estou ansioso pelos inéditos.
    Grande abraço.

    Responder

  4. Puxa, isso aí, que venham os inéditos!
    Grande abraço, caro Willer.

    Responder

  5. O INÍCIO DA CIDADE
    Hommage à Roberto Piva

    Uma pequena agonia leva-me à fuga na padaria. Chove a cântaros. Observo um velório voando, uma pequena igreja a tossir e todo o seu mecanismo híbrido parir quarenta moças macérrimas, todas deslizando (automáticas) em trajes de viúva (viúvas do infinito), ou seja, nuas. Percebo que não há outra maneira de passar o tempo senão acendendo o último Malboro de uma longa vida de brevidades, afinal sempre haverá um arsenal de objetos cortantes, assalmoados e semiduvidosos quanto a sua utilização. Ato-me aos sons da noite. Soa o louco sino do cemitério, A annutiatione, ou seja, greve! Mas como eu sei da annutiatione? O tempo continua indeterminado; a mesmice da morte me sufoca! A chuva diminui e tudo me deixa entediado. Concluo que não existe outra alternativa senão comprar o saboroso pãozinho amanteigado e encontrar a saída de emergência.

    parabéns pelo blog.

    Responder

  6. Posted by carlos andré on 07/07/2013 at 00:34

    evoé!!!

    Responder

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