A realidade como dublagem de má qualidade; o mundo como tradução mal feita

Havia postado no Facebook a matéria da Folha Ilustrada de hoje, 07/07, “A vitória do filme dublado”, observando ser uma vitória dos analfabetos monoglotas – ou dos monoglotas analfabetos. A consagração dos nossos 70% de analfabetos funcionais:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrada/117483-a-vitoria-do-filme-dublado.shtml

Rendeu uns 60 comentários até agora. Por isso, resolvi trazer o tema para cá. E com observações adicionais. Em primeiro lugar, se assisto a um filme em uma língua que desconheço, da qual nada sei–  a maioria delas, inclusive japonês, chinês, árabe, russo, romeno, dos países escandinavos, de outras cinematografias importantes ou que vêm crescendo – o modo dessa gente expressar-se, mesmo que não os entenda, faz parte da obra. No cinema, imagens, enredo, falas, música, constituem um todo, compõem a unidade. Obra dublada é obra mutilada. Claro que, se não tiver valor, tanto faz. Mas o valor, no cinema, não está apenas naquilo classificado, em algum momento, como artístico. Queria muito um retorno das comédias italianas dos anos 50 – vi parte de uma delas no canal da RAI, com o time todo, Aldo Fabrizzi, Ave Ninchi, Alberto Sordi, Walter Chiari, Totó, Peppino de Fillippo. Como peguei no meio, não sei qual filme, nem quem o dirigia, talvez Steno. Impressionou-me a qualidade das atuações, da direção, o ritmo, a precisão. Sincronizadíssimos. Sabiam fazer cinema com baixo orçamento. Valia um ciclo, e recuperarem tudo em DVD. É óbvio que, sem as falas originais, a graça e o valor das interpretações se perde. Italianos são cômicos em sua língua (outros povos também).

Legendas permitem observar os erros de tradução. Os ‘vista uma roupa casual’ (informal), ele morreu ‘eventualmente’ (finalmente) etc. Alguém que foi ao teatro (a um cinema, ‘theater’) ou a um clube (uma boate). O fruto do trabalho das vítimas indefesas dos falsos cognatos. Se for dublado, os erros passam. O que recebermos estará irremediavelmente adulterado.

A propósito de falsos cognatos: são contagiosos. Proliferam na imprensa. Às vezes, entrevista coletiva vira ‘conferência de imprensa’ (press conference). Muitos pegaram, não vão mais embora. ‘Cópia’ (copy) em vez de exemplar de um livro ou disco, por exemplo.

Preciosismo? Aristotelismo, querer uma relação exata entre o significante e seu referente? Não. E não sou adepto do rigor francês, resultando no ‘ordinateur’ como computador e do ‘portable’ como celular. Mas, se admitirmos que a língua produz realidade, que a configura, ou que línguas são visão de mundo – como o sustentaram, entre outros relativistas, Octavio Paz, Cassirer, Spengler, William Burroughs, Whorf e Sapir – então as pessoas vão sendo imersas em uma realidade adulterada, equivalente a uma dublagem realizada de qualquer jeito. A incorporação de erros de tradução ao vocabulário é um dos sintomas dessa degradação do mundo, ou da visão do mundo falsificada.

Anúncios

3 responses to this post.

  1. Claro, muito melhor filmes legendados do que dublados, a cultura está na ponta da língua. E gostei de assistir a um filme português, Tabu, com legendas. Ainda que entendesse todas as a palavras, a “musicalidade” é outra na língua de origem.

    Responder

  2. A musicalidade na língua de origem é realmente insubstituível!

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: