As manifestações, novamente – e seus comentaristas e observadores

Já havia comentado o acervo de informações reunido por Elizabeth Lorenzotti no Observatório de Imprensa:

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/a_revolucao_sera_pos_televisionada

Não se deve, é observado, examinar fenômenos do século 21, relacionados à emergências de novos meios de comunicação, através de paradigmas do século 20. Diria que, em alguns casos, do século 19 mesmo. Gente discutindo mídias digitais sem, ainda, haver entendido as convencionais. Com dificuldade para assimilar sua natureza ambivalente. “Tem que dialetizar”: antigo chavão que se aplica a interpretações em circulação, incluindo restrições por adesão haver chegado a 80%, após cobertura da TV. Redes independentes foram decisivas para organização, mobilização e divulgação. Mídia corporativa foi atrás – se não fosse, espectadores mudariam de canal.

Tiveram repercussão reflexões de Marilena Chauí citadas no artigo de Lorenzotti. Diz que manifestações se tornaram espetáculo de massa, com a forma de um evento. E assumem uma dimensão mágica, pois seus usuários não possuem o controle técnico e econômico do instrumento que usam. Sofismou. Se fosse para alcançar controle técnico e econômico do meio, sobraria pouco para expressar-se: mimeógrafos, cartas, “piche”, cordas vocais ampliadas por um megafone. No tempo da imprensa alternativa, o jornal era uma cooperativa, mas a gráfica não era nossa.

Postei recentemente algo de Hakim Bey. Para esse pensador, dimensão mágica seria qualidade. Defensor do ativismo cibernético, compara hackers e cyberpunks com antigas comunidades de piratas. Interessa-lhe, assim como a outros anarquistas, não a posse ou controle dos meios de produção, porém sabotá-los ou infiltrar-se neles.

Dimensão mágica? Julian Assange: nosso moderno Cagliostro – correndo o risco de ter o mesmo final, se o pegarem. Wikileaks, conjuração de magos. Membros das redes de comunicação independente baixam oferendas em praias, cachoeiras e encruzilhadas… Saravá.

Li todo o artigo de Chauí em Teoria e Debate, citado por Lorenzotti: http://www.teoriaedebate.org.br/materias/nacional/manifestacoes-de-junho-de-2013-na-cidade-de-sao-paulo?page=full

Defender ética na política, diz, é reprodução de linguagem midiática. A rejeição de partidos e “recusa das mediações institucionais indica que estamos diante de uma ação própria da sociedade de massa, portanto indiferente à determinação de classe social”. Em outras palavras: as manifestações fogem ao paradigma da luta de classes. A mesma objeção do comunismo soviético à contracultura, aos beats, a outras rebeliões – exemplo, o maio de 1968 boicotado pelo Partido Comunista francês. Pouco importa que tais movimentos resultassem em avanços reais na liberdade de expressão, defesa do ambiente, da diversidade cultural, da diferença individual, do reconhecimento do corpo, entre outros. Conforme a versão determinista (e messiânica) do pensamento marxista, são questões para resolver depois da emancipação do proletariado, na sociedade sem classes.

Décadas atrás, Michel Foucault havia diferenciado o “intelectual universal’ (dono da verdade, entenda-se) do “intelectual específico” – em uma entrevista publicada em Microfísica do Poder, entre outros lugares. Os do tipo universal, parece-me, mostram dificuldade em interpretar a horizontalidade de novas mídias e movimentos, sem hierarquia, aparentemente difusos, sem partido político representando e conduzindo a classe. Já protagonistas da contracultura como Timothy Leary e William Burroughs apresentaram-se na internet assim que foi implantada, de modo pioneiro.

Um belo exemplo de intelectual específico é a antropóloga Manuela Carneiro da Cunha. Entende de índios. Havia divulgado no Facebook suas denúncias, em entrevista à Folha de S. Paulo, de que governo permite retrocesso inédito, desde o tempo dos militares, na defesa de povos indígenas. Reforçam o que afirmei em minha postagem anterior neste blog. Pela gravidade da questão, reproduzo aqui: https://claudiowiller.wordpress.com/2013/07/13/que-as-manifestacoes-em-curso-incluam-em-sua-pauta-a-defesa-do-ambiente-e-dos-povos-indigenas/

Tenho mais sobre intelectuais e manifestações. Aguardem.

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6 responses to this post.

  1. Posted by elizabeth lorenzotti on 15/07/2013 at 01:29

    Otimo material para refletir, Willer, muito bom memso, vou reproduzir.

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  2. Que beleza de artigo Claudio Willer, análise precisa para a compreensão de alguns fatos incompreensíveis para quem não põe no tabuleiro as mudanças nas relações de poder a partir da comunicação em rede: um “monstro” mágico de muitas cabeças. Vou compartilhar.

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  3. Perfeito, Willer. Obrigada!

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  4. Posted by Antonio Aílton on 15/07/2013 at 11:59

    Este artigo, com sua visão aguçada e crítica, ganha dimensão de importância em diversos campos, na medida em que analisa não só o momento político, mas as forças obscuras que nele estão envolvidas e por ele são revolvidas/reveladas, e o papel do intelectual em meio às revoluções do seu tempo, complexificando o aparente, apontando para links e leituras da história, em tão poucas linhas. Na medida de seu autor. Eu e outros, felizes leitores do seu tempo.

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  5. Gostei. Queria ver, mesmo, comentários seus sobre o que aconteceu — e, pelo jeito, continua. Me animei bastante, después rolou decepção; no tocante às libertações anarquistas, concordo plenamente! Rabisquei algo sobre o que vi:

    http://adiferencadofogo.blogspot.com.br/2013/07/jornadas-de-junho-sob-negra-tinta-dos.html

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  6. Posted by José Ilton Gomes dos Santos on 17/07/2013 at 22:24

    Estou trabalhando em sala de aula com esta leva de pessoas com pensamentos positivos que são as manifestações que gostaria de chama-la, o verdadeiro grito do Ipiranga este sim é de liberdade.

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