A comicidade

Faleceu recentemente, a 6 de junho, a atriz-nadadora Esther Williams. Comentei, em 2009, uma cena de seu filme de estréia, protagonizada pelo comediante Red Skelton: talvez a mais engraçada que já vi no cinema, pelo extremo ridículo.

A cena não está disponível no Youtube. Pena. Tem o filme todo. E o trailer, com um rápido fragmento do balé com Skelton:

http://www.youtube.com/watch?v=zbn5XQpmNgo

Meu artigo, na revista Reserva Cultural (pretendo reapresentar outros, aqui – já havia republicado um sobre Hitchcock, em breve sobre Buñuel e David Linch):

O RISO DESENFREADO

Quanto já se refletiu sobre o riso, o cômico, a gargalhada! Para Baudelaire, o “monstruoso fenômeno”, “um dos mais claros signos satânicos do homem”, negação da Queda. Para Octavio Paz: “A gargalhada é uma síntese (provisória) entre a alma e o corpo, o eu e o outro. […] Volta à unidade do princípio, antes do tu e eu, em um nós que abarca todos os seres, bestas e elementos”.

Publicaria séries sobre experiências de superação da dualidade, fusão no todo através de acessos de riso em salas de cinema. Incluiria um obscuro e distante média metragem de Laurel e Hardy, o Gordo e o Magro, no qual invadem uma serraria, jogam um daqueles carrões quadrados sobre uma serra de fita, caindo – os dois cômicos e as duas metades do carro – um para cada lado. As convulsões que devo a Harpo Marx, a Harold Lloyd dependurado em um prédio, a… Na cinematografia mais moderna, a What’s up, Dock? (Essa pequena é uma parada) de 1972, de Peter Bodganovich, com Barbra Streisand e Ryan O’Neal –perseguições, corre-corre, a dupla de carregadores distraídos levando a enorme vidraça que escapa por um triz de quebrar-se, mas, destino inexorável das vidraças em comédias, acaba em estilhaços. Mais recentemente ainda: Sábado de Ugo Giorgetti, de 1995, a publicitária (Maria Padilha) esquecida no elevador do prédio arruinado em companhia do cadáver (Gianni Ratto) e dois coveiros (Otávio Augusto e Tom Zé). Baudelaire tinha razão ao afirmar que o riso é a manifestação do prazer diante da desgraça alheia.

Um filme em que passei mal de tanto rir: Escola de Sereias (Bathing Beauty) de 1944, com Esther Williams e Red Skelton, dirigido por George Sidney. Skelton de sapatilhas e saiote, grotesco, forçado a cursar balé porque se havia matriculado em um colégio de moças ao ir atrás de Esther Williams, a nadadora-dançarina, sua noiva. Um papel de bala gruda nele, livra-se ao fazê-lo pegar em uma colega, vai passando e grudando de bailarina em bailarina… O enredo infantilóide com todos os chavões a que o cinema de entretenimento daquela época tinha direito. A aterradora professora de balé, o vilão bobo (Basil Rathbone), a dança aquática final com Esther Williams – todos os filmes dela eram assim, bobagens como pretexto para exibi-la em coreografias de balé aquático – a piscina transformada em espaço multidimensional por Busby Berkeley, o coreógrafo que desconhecia limites. Red Skelton era rotineiro, sequer foi um criador cômico notável. Mas o timing de Escola de Sereias é perfeito. Ritmo, a condição para uma comédia ser engraçada.

Querem mais? Sortilégio do Amor (Bell, Book and Candle ) de 1958, dirigido por Richard Quine, com James Stewart, Kim Novak e Jack Lemmon, merecidamente resgatado (nas locadoras e TV a cabo). Hermione Gingold faz Stewart tomar a beberagem horrenda, um chá de morcego, sapo e ingredientes afins, para quebrar o feitiço que o fizera apaixonar-se por Kim Novak – “Drink it..! Drrink itt..!”, a megera de olho arregalado e sotaque carregado para um Stewart a exibir todas as expressões do nojo. Este “Drink it…! Drrink itt..!” virou refrão nosso em sessões de bebedeira com misturas pesadas e coquetéis estranhos. Se Escola de Sereias é a bobagem engraçada, Sortilégio do Amor está em outro nível na escala do valor – charmoso, rico em metáforas, paródia (involuntária ou proposital?) de Vertigo – Um corpo que cai, ambos do mesmo ano e com Kim Novak em seus momentos de maior beleza; em ambos, Stewart é enfeitiçado por ela. Ainda escreverei sobre a complementaridade desses dois filmes, Sortilégio do Amor e Vertigo, comédia e drama, opostos especulares.

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