Nudez

Bad Homburg, a estância balneária encostada em Frankfurt, a meia hora de trem. Hölderlin criou poemas importantes lá. No parque, recanto onde ficava. Também tem casa onde morou, em uma relação semelhante à de Frankfurt com Goethe.

Além do parque enorme, das festas de rua, tipicamente alemãs, dos sobradinhos idem, de um discreto cassino, há os banhos. Visitei, uns vinte anos atrás. Lugar amplo, limpo, funcional, confortável, oferece vapor, sauna seca, piscina, massagistas, duchas, bronzeador, hidromassagem, tudo. Homens e mulheres – ao natural, não precisa maiô.

Assexuados? Nem tanto. “Bleibe…” (fica…), suspirou o alemão a meu lado no vapor, quando a mocinha escultural, em pé à nossa frente, saiu. Às vezes passava um tipo com a toalha dobrada sobre o braço na altura da barriga, obviamente para disfarçar uma ereção. Paquera, nem pensar. Quem se metesse a besta seria posto para fora.

Eu queria mesmo era ir à sauna, reduz o desconforto de fuso horário e demais efeitos de viagem. Mas achei um tanque de hidromassagem ao nível do chão, bem em frente a uma ala de duchas e chuveiros, dava um ângulo muito bom para ficar olhando banhistas de baixo para cima, fiquei lá por algum tempo, apreciando a vista.

Passei uma tarde agradável, saí disposto. Fui visitar Ray Güde-Mertin, a agente, tradutora e crítica que morava ao lado, só atravessar a rua. Comentei o balneário. Contou-me que dois bons escritores contemporâneos brasileiros, ambos saudáveis e progressistas, haviam-se afinado. Constrangidos, não quiseram entrar (entrego…? um deles está vivo, encontrei outro dia).

As diferenças culturais. Como tudo é relativo. Alemães (e os de outros lugares, nos países escandinavos é assim em todos os balneários) não ficam daquele jeito em público. Mas há mulheres que tiram a parte de cima para tomar sol na beira do rio e em parques, no verão. Aqui, tentaram topless no Rio de Janeiro, não deu, juntava gente. Um dos meus primos de Frankfurt, que achava o balneário de Bad Homburg a coisa mais natural, fui com ele ao Rio. Ao chegarmos à praia, eufórico: “Die Bikinimädchen! Die Bikinimädchen!”, como se estivesse entrando no paraíso. Levei-o ao Sargentelli, apreciou aquele exotismo todo.

Talvez freqüentadores imperturbáveis de lugares como aquele de Bad Homburg sejam, ao mesmo tempo, fregueses de turismo sexual na Praia de Iracema, em Bancoc, ou seja onde for. A hipocrisia não tem fronteiras, e nós pagamos a conta – ou faturamos em cima?

Na virada do século 19 para o 20, mulher deixar ver tornozelo ao subir no bonde podia dar reclamação, até queixa por ofensa ao pudor. Até 1930, usavam aquelas roupagens para ir à praia. Saia até um pouco abaixo do joelho, mostrando barriga da perna, inicialmente foi um terremoto. Em 1961, Jânio Quadros proibiu biquínis, entre outros despropósitos. Havia gente acreditando que índias, por andarem nuas, fossem sexualmente disponíveis. O mundo tem de tudo – até censura no Facebook.

Lembrei-me de Bad Homburg ao ver esta matéria na Revista da Folha do fim de semana passado:

http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2013/07/22/ato-de-feministas-e-vaiado-por-peregrinos-da-jornada-na-zona-sul-do-rio.htm

Leio o jornal, mas não a revista. Publicação com uma seção chamada “criticidade”, recuso-me. Mas a série de besteiras chamou minha atenção. “Naturistas” (viva o eufemismo, outrora eram “nudistas”) dizendo que não pode em público. “Ofensivo”, “obscenidade”: não percebem que são palavras sem valor absoluto, com um significado oscilante conforme o lugar, a época, a hora? Olympia de Manet deu um enorme escândalo em 1863 – parece que foi por ser uma moça que todo mundo conhecia, não pela nudez, comum na pintura. Hoje, só não pode no Facebook, especialmente no setor brasileiro, com maior concentração de imbecis a serviço. Que contribuição por um mundo mais arejado prestam as irreverentes do Femen. E todas as outras, inclusive as que celebram a visita do papa reivindicando. Apoiaremos sempre – ou enquanto for preciso.

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3 responses to this post.

  1. Machado de Assis escreveu um conto denominado “Uns braços”, no qual um rapaz apaixona-se pela mulher do seu chefe ao ver seus braços nus, ou seja, ela usava camisas de mangas curtas. O rapaz tinha ereções ao ver esses braços …. em 1870!

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  2. Fiquei com uma inveja danada da sua passagem por Bad Homburg, que ambiente delicioso. O Brasil, com esta extensão de praias, rios e o calor pede nudismo, mas quem se atreve, fora de poucas áreas permitidas? Chama demais a atenção. Não entendo qual a grande diferença entre um biquíni mínimo e o topless. Mamilos a mais ou a menos. Aqui nudez só como produto de consumo, não é algo natural. E olha que há pioneiros desde os anos 30, tenho capas de revistas nudistas, antigas, hj fora de circulação e, acredito, sem publicações que as substituam. E Luz del Fuego fez história, mas com fim trágico.

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  3. Posted by elizabeth lorenzotti on 27/07/2013 at 01:20

    a-do-rei. curiosa com a historinha dos escritores brasileiros:-). arrasou Willer! as always!

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