Haicais de Kerouac: mais

Agora que o Livro de Haicais, L&PM, tradução minha, chegou às livrarias (e recebi exemplares), cabem comentários adicionais.

Em primeiro lugar, sobre o trabalho de Regina Weinreich, organizadora e prefaciadora. Faz parte da nova geração de estudiosos de Kerouac. Sumidades acadêmicas ainda depreciam literatura beat em geral e Kerouac em especial, a exemplo de Marjorie Perloff ou Amy Hungerford, como observei em https://claudiowiller.wordpress.com/2013/04/10/geracao-beat-jack-kerouac-critica-literaria-e-o-politicamente-correto/ . Outros, a exemplo dos que compõem a excelente coletânea What’s Your Road, Man? de Hilary Holladay e Robert Holton (Southern Illinois University Press, 2009) ou os prefaciadores da edição de On the Road – o manuscrito original (L&PM, 2008), lançam luzes sobre sua obra e mostram seu valor.

Weinreich é ensaísta e documentarista (quero ver o que fez sobre Paul Bowles, dos meus prosadores prediletos). Garimpou. Juntou ao que o próprio Kerouac havia separado para publicação, o originário Livro de haicais, seleções do que encontrou em cadernos de anotações e dentro de obras em prosa. Resultou um conjunto coerente. Contribui para a percepção da relação de Kerouac com a poesia japonesa – não só o haicai, mas o senryu e o tanka curto. Mostrou onde obedeceu a convenções desses gêneros, se afastou delas, ou comentou e parodiou clássicos do gênero como Issa, Buson e Bashô:

Sapos não ligam
      só ficam sentados aí
Meditando ao luar

(há mais cinco ou seis comentários sobre o famoso poema de Bashô).

Principalmente, ajuda a enxergar haicais dentro da sua prosa de frases e parágrafos extensos, por exemplo em Os vagabundos iluminados e Anjos da desolação. Ampliou a leitura dessas e outras narrativas.

Haicai é poesia do objeto, registro do enxergar. Sentimentos, emoções, o que pertence à esfera do sujeito, está implícito, subentendido. Mas Kerouac se expôs, mostrou-se, em vários deles. Uma de suas qualidades (a meu ver), a ironia, já presente em On the Road, mas que se acentuou com o tempo, marcando a obra de despedida, Vanity of Duluoz de 1967: morria, mas sem perder o senso de humor. Aqui também, quanto mais avança em seu “inverno”, a desolada fase terminal da vida, tanto mais irônicos, ao mesmo tempo que melancólicos, são os haicais:

Fim de abril
     arroubos do anoitecer –
Leões & cordeiros

Conhecedor de Kerouac, reconheci-o. Achei comovente. Principalmente, como traduz a solidão:

O trem veloz
     através do vazio
– Eu fui um ferroviário

Poças d’água ao crepúsculo
      – uma gota
caiu

Violetas ao crepúsculo
     – uma pétala
caiu

No Pico da Desolação
     eu fui o homem mais solitário
do mundo

Haicai e imagem surrealista, aproximação de diferenças, são opostos complementares, expressões de poéticas e processos de criação diversos. Kerouac, em passagens desse livro, operou uma síntese das duas modalidades. Surrealizou haicais ou orientalizou imagens? Examinarei e discutirei em palestras.

A tradução: principalmente, levei em conta o jogo do coloquial e do erudito; da sua cultura literária e capacidade de ouvir “a voz das ruas”. E a ligação com música. E não só com jazz – como observei em outras ocasiões, Kerouac foi musical total.

Não ligo –
     a baixa lua
Amarela me ama

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5 responses to this post.

  1. Parabéns pela tradução, Willer.

    Seria interessante também uma edição brasileira do outro volume organizado por Regina Weinreich, “Be a Genius all the time”. Não pensa na possibilidade?

    Abraço!

    Responder

  2. Importante lacuna beat finalmente preenchida na Lusópolis!!! As sumidades acadêmicas que depreciam os beat não percebem as coisas com os sensórios, mas com o ego e, talvez, com os bolsos…

    Responder

  3. Posted by jardel on 16/08/2013 at 14:24

    parabéns!!!

    Responder

  4. Posted by LIÉRTE PENNA on 25/08/2013 at 22:40

    Novamente nos trás coisas boas do mundo e da poesia. AGRADECEMOS novamente.
    Cláudio,
    Permita-me a intimidade do primeiro nome.
    Ambos amamos profundamente a POESIA.
    Amamos a POESIA na primeira pessoa.
    POESIA, moça que Partilhamos.
    Venho acompanhando seu vasto e magnifico trabalho já algum tempo. A arte quer que continue.
    Willer, uma coisa que sempre Cláudio me chamou atenção: teu rosto resplandece áureo e Cláudio não é senão um menino no parque quando declara ou ouvi um poema.
    Claudio, vamos seguir, sabe por quê?
    “Toda palavra é apaixonada doida pelo seu poeta…”
    e o poeta
    “é boca e tem volúpias
    é sempre uma proposta de apanhar….”

    Cláudio para encerrar.
    “a palavra é uma cativa
    tendo pena anota vem ligeira presto quer escoar-se
    mas no papel quem a deitou nua
    encerrou-lhe cárcere
    veja se assim não é
    um pássaro alforriado
    vem pelas manhãs enquanto brisa
    pula e pelas pautas escreve
    e em nossos ouvidos madrigais
    canta brinca ditosamente pelos jardins
    e nas beiras das casas
    namoram pelas doces jabuticabeiras….”

    Sei do teu escasso tempo, mas quando possível, matemo-nos contato.
    Sem tomar mais teu tempo.
    Desde já agradeço e reitero.

    Responder

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