Thomas Rain Crowe, beat-surreal, pela Sol Negro

Já havia comentado aqui, em duas ocasiões, as refinadas publicações da Sol Negro de Márcio Simões. Uma, a propósito de III novelas exemplares & 20 poemas intransigentes de Hans Arp e Vicente Huidobro, preparada por Floriano Martins, mais a tradução de Visões das filhas de Albion de William Blake por Simões e uma série de poemas em prosa por Viviane de Santana Paulo e Floriano Martins. A outra, pelo lançamento de O fruto de Saturno de Yvan Goll,

São tiragens limitadas de exemplares numerados. Podem ser encomendadas à editora através de sua página de internet, http://solnegroeditora.blogspot.com.br/

Agora, Simões traduziu e publicou Postais do Peru de Thomas Rain Crowe. E, também, uma nova edição, somando-se às já existentes, das Canções da Inocência & da Experiência de William Blake, na tradução de Renato Suttana. Anuncia uma obra de especial importância: do surrealista argentino Aldo Pellegrini, Construção da Destruição.

Meu comentário sobre a edição de Arp e Huidobro:

https://claudiowiller.wordpress.com/2013/01/06/arp-e-huidobro-parceria-luminosa/

Sobre Yvan Goll:

https://claudiowiller.wordpress.com/2013/03/22/novidade-editorial-ivan-goll-pela-sol-negro/

Para saberem mais sobre Thomas Rain Crowe, continuador das duas grandes rebeiliões do século 20, surrealismo e beat, a matéria por Floriano Martins, com entrevista:

http://www.revista.agulha.nom.br/ag53crowe.htm

A seguir, dois dos textos que compõem Postais do Peru, mostrando um autor empolgado por culturas arcaicas e insurreições modernas:

Querido John

Para um povo que não tinha linguagem escrita, o inca moderno é certamente apaixonado pela leitura! Ontem, em Lima, encontrei uma pequena livraria na rua. Livros bilíngues em quéchua enchiam as prateleiras. Uma cópia de Os Arautos Negros, de Cesar Vallejo (Los Heraldos Negros em espanhol e Yana Kachapurikuna na língua inca local), publicado pela Biblioteca de Cultura Quéchua me chamou a atenção. Ainda que eu só lesse um pouco de espanhol e nada de quéchua, saí da loja com um exemplar em minhas mãos. Lembro-me das traduções de Vallejo feitas por James Wright na Sixties Press editada por Robert Bly. Poemas como “O Cálice Negro”, com a Terra segurando as alças de um caixão na escuridão. La tierra tiene bordes de féretro en la sombra. Apitos de polícia. E mulheres da noite. As ruas da Lima de Vallejo não devem ter sido muito diferentes das que eu percorri hoje – com seus apitos e cornetas e belas mulheres de pele escura caminhando na luz. Há escolas aqui com o nome dele. E também de Walt Whitman e Gabriel García Márquez. Dizem que quando Che Guevara esteve aqui em sua viagem de motocicleta pelo continente, escrevia poemas à noite no seu quarto de hotel. Me pergunto se os líderes do Sendero Luminoso usavam esses poemas peruanos como uma espécie de texto sagrado. Com o seu fim, imagens de Che, ao lado de pichações contra Bush e a guerra do Iraque, cobrem as paredes e prédios dos barrios. As pessoas aqui até mesmo apoiaram um escritor para presidente, Mario Vargas Llosa – que escreveu livros com títulos tão provocativos quanto A Orgia Perpétua e A Guerra do Fim do Mundo – que, como Neruda, Márquez e Paz, encontrou maneiras de levar a política para cama com seus poemas. Quando foi a última vez que tivemos alguém à frente do nosso país capaz de escrever? Tudo que nossos líderes capitalistas parecem ser capazes de fazer é dizer mentiras atrozes e guerrear.

TOMANDO CHICHA NO BAR CESAR VALLEJO

Estou tomando chicha no Bar Cesar Vallejo

em Urubamba – assim chamada devido ao rio.

Aqui, no Peru,

os bares e escolas têm nomes de poetas.

Na América ao norte,

tudo têm nome de advogados

e presidentes de bancos.

Até a cerveja de milho dos quéchuas

tem gosto melhor que a nossa.

Há justiça poética

no modo como é feita sem

códigos sanitários e tanques esterilizados.

 

O rosto de Vallejo está pintado grande

na parede da chicheria coberta de barro.

Grande honra para um poeta valer seu sal.

Bela maneira de vender poemas!

A única coisa melhor que essa cerveja

seria agraciar a chicha com seu nome.

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2 responses to this post.

  1. Posted by Raul Fiker on 22/08/2013 at 06:50

    As bobagens desse Crowe sobre o sendero luminoso e vargas llosa demonstram tratar-se de um perfeito babaca.

    Resposta

  2. “Poesia, para mim, sempre esteve às voltas com “a mágica.” O processo, bem como o produto, é um mistério. De onde ela vem e até mesmo sobre o que ele (o poema) é, é parte desta mágica, deste mistério. Em essência apenas abri as janelas e as portas e o deixei (o poema) entrar. Não sei se meus poemas vêm do inconsciente ou do mundo exterior. Tudo que sei é que eles entram em mim e me atravessam vindos de um “outro” lugar.” Thomas Rain Crowe.

    Este trecho da entrevista dele tem muito a ver com o que acabo de ler no seu livro Volta:

    “Estimulava-me a ideia da linguagem como algo exterior ao sujeito, da criação literária como um ditado, uma transmissão de conhecimento provocada não pela disciplina, porém pela desordem. alcançando a revelação pela revolução, pelo desregramento dos sentidos. …A criação poética como algo preexistente fazia parte da minha experiência.” (Claudio Willer)

    Resposta

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