Maçons, conspirações, Illuminati

Volto a insistir:

  1. Desde sua organização como ordem esotérica em meados do século 17, por iniciativa, principalmente, de Elias Ashmole (bela figura, um sábio, representativo do período), maçons tiveram atuação progressista. Contra o absolutismo monárquico e o poder temporal da igreja, foram republicanos.
  2. Encontro de Benjamin Franklin e Voltaire em loja maçônica, para conversar sobre independência dos Estados Unidos, é bom exemplo daquele ambiente político, da convergência de iluministas e iluminados: partilhavam a valorização do conhecimento.
  3. Carbonários de Mazzini, republicanos, precursores da unificação italiana, influentes nas insurreições européias de 1848, pertenceram a um ramo da maçonaria, a do carvão – daí, até hoje “carbonário” ser sinônimo de agitador.
  4. Por isso, maçons foram e são execrados por toda espécie de reacionários: fascistas e nazistas; integristas católicos na linha da TFP e Opus Dei. Regimes de Salazar e Franco davam o mesmo tratamento aos maçons que aos comunistas: cadeia (ao final, links remetendo a textos de Maria Estela Guedes a respeito).
  5. Conspiração de Illuminati da Baviera liderados por Weisshaupt, no final do século 18, foi, ao que tudo indica, armação polícial. Não tem ordem alguma de Illuminati exercendo influência. Por que sei? Porque li textos denunciando essa influência dos Illuminati, uma sucessão de absurdos, com erros históricos grosseiros. E porque se assemelham a outras armações, comprovadas, para incriminar maçons.
  6. Mark Zuckerberg aparecer em público com jaqueta ostentando símbolos dos Illuminati não significa nada. Aliás, esoterista de verdade não faz isso, usar símbolos como enfeite ou estampa.
  7. Também houve – e há – seitas do outro lado. Teosofia de Blavastski abre para o antissemitismo, ao ver a história da humanidade como sucessão de raças. Nazistas como Himmler foram adeptos das ordens do Vril e de Thule, crentes em mundos subterrâneos. Mas não foram Vril e Thule que fizeram o nazismo, porém a opinião pública, reflexo das condições em que se encontrava a Alemanha.
  8. Maçonaria se fez presente, politicamente, por ser enorme – e vice-versa, idéias progressistas e projeto humanitário atraíram adesões. A outros grupos e sociedades secretas carecem dimensão e programa.
  9. Vários magos e adeptos, por serem tradicionalistas, também foram reacionários. Julius Evola, estudioso de magia sexual e tantrismo, aderiu ao Duce – e decepcionou-se. Mas homens de negócios seguem a lógica do capitalismo, tal como exposta por aqueles dois estudiosos alemães e outros especialistas em dialética, e não os desígnios de alguma sociedade secreta.
  10. Teorias conspiratórias foram exemplarmente examinadas por Umberto Eco em O cemitério de Praga. É conclusivo: uma passagem de Balsamo de Alexandre Dumas, biografia romanceada de Cagliostro (farsante, porém mártir, morreu em uma masmorra da Inquisição), relatando suposto programa de conspiradores, foi copiada e apresentada como prova de conspiração maçônica, inicialmente; ocasionalmente de jesuítas (seguidores dessa versão devem estar inquietos); e, finalmente, judaica, resultando em Os protocolos dos sábios do Sião. O protagonista de O cemitério de Praga, romance histórico, é fictício – mas os demais personagens e fatos, todo o desfile de loucuras do século 19 e belle époque, os Coronel Pike, Abade Boullan etc, são reais. O livro de Eco ter estado em listas de mais vendidos depõe a favor da espécie humana, assim como a circulação de O inferno de Dan Brown depõe contra (outra hora, comentarei).

Enfim, teorias conspiratórias são patologia política. Desviam do que interessa: a realidade, o que se passa, a infra-estrutura. Sempre foram e continuam sendo tática para desacreditar autores de críticas e inovadores.

LEITURAS: Além da já citada narrativa de Eco e também de Seis passeios pelos bosques da leitura, principalmente:

Yates, Frances A., El Iluminismo Rosacruz, Fondo de Cultura Económica, México, 2001; (por que não fazem edição brasileira? outros livros dessa extraordinária historiadora já foram editados aqui)

Também:

Béresniak, Daniel, Franc-Maçonnerie et Romantisme, Éditions Chiron, Paris, 1987 (tem na biblioteca da USP);

McCalman, Iain, O último Alquimista – Conde de Cagliostro, mestre da magia na Era da Razão, Rocco, Rio de Janeiro, 2004;

Os perfis de Cagliostro e Saint-Germain, seu oponente, em O oculto de Colin Wilson. História da filosofia oculta de Alexandrian.

De Maria Estela Guedes, entre outros: http://novaserie.revista.triplov.com/numero_33/maria_estela_guedes/index.html e http://www.incomunidade.com/v3/art.php?art=8 .

Minhas páginas a respeito, relacionando ao gnosticismo, em Um obscuro encanto.

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6 responses to this post.

  1. Excelente postagem!!!

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  2. Nossa, que saraivada! Ótimos tópicos e referências, o vídeo do cara do FB com jaqueta Illuminati circula bastante. Bom, alguém da sua estatura para contrariar as teorias fajutas, quero ler o Cemitério em breve, já havia lido recomendação e Eco sempre é bem-vindo. O assunto sempre chama minha atenção, e muitas vezes, por inocência e falta de conhecimento acabo me levando por algumas dessas ‘conspirações’ e esse blog é um antídoto. =)

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  3. Posted by Lygia Dutra on 23/08/2013 at 15:04

    Muito esclarecedor os tópicos abordados e inteligentes. Estou começando a ler o Cemitério de Praga e é mais uma boa recomendação.

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  4. Sublime! Em todo caso, tendo o Sr. falado recentemente sobre drogas e literatura, me gostaria deixar aqui uma passagem do BarãoJulius Kaesar Evola que, se não me engano, no libro Cavalgar o Tigre, não só aborda o tema magistralmente como ainda por cima tece um comentário pra lá de elogioso á Beat Generation, outro tema caro á Ud……………….””La difusión creciente de las drogas entre la juventud de hoy es un fenómeno muy significativo. Es por ello por lo que la cruzada contra los estupefacientes, tras el fracaso del prohibicionismo, se ha convertido en la consigna de los legisladores del mundo burgués; este es también un curioso resultado del régimen de libertad que, preten¬didamente, reina en este mundo en el seno de la democracia. Admi-tiendo, incluso —como es preciso admitirlo en regla general— que el uso de los estupefacientes lleva a muchos de sus adictos al trastorno, no se comprende con qué derecho la sociedad se opondría a ello, pues de lo único que debería ocuparse el legislador es de los efectos sobre terceros.

    Con los estupefacientes se repite, en parte, la situación de la música sincopada, ya descrita precedentemente.

    Medios utilizados en el origen facilitadores de aberturas a lo suprasersible en el curso de iniciaciones o de experiencias similares, han sido traspuestos al plano “profano” y “físico”. Al igual que las danzas modernas con música sincopada derivan de las danzas extáticas, igualmente gran parte de los estupefacientes utilizados de maneras variadas en farmacopea, corresponden a las drogas que las poblaciones primitivas empleaban frecuentemente con un fin “sagrado”, conforme a las tradiciones. Esto, por lo demás, se aplica al tabaco empleado por los indios de América para preparar a los neófitos que debían retirarse un cierto tiempo de la vida profana a fin de tener “signos” y visiones. En cierta medida, puede decirse lo mismo del alcohol; se conoce la tradición de los “brebajes sagrados” y la utilización del alcohol en los cultos dionisíacos y en otras corrientes similares, el antiguo taoísmo no prohibía para nada las bebidas alcohólicas, que consideraba incluso como “extractos de vida” , que prodigaban una embriaguez suscep¬tible de conducir, como la danza, a un “estado de gracia mágica” co¬mo la de los “hombres reales” (22). Los extractos de coca, de mescali¬na, de peyote y de otros estupefacientes integraban, aún a menudo hoy, gran parte del ritual de sociedades secretas de América Central o del Sur.

    En la actualidad no existen ideas claras y precisas sobre todo es¬to, pues no se tiene en cuenta el hecho de que los efectos de esas sus¬tancias son muy diferentes según la constitución y la capacidad de reacción y —en los casos antes mencionados, en los que se les utilizaba para un fin no profano— de la preparación espiritual y de la intención del que lo empleaba. Se ha hablado con propiedad de una “ecuación tóxica”, diferente para cada individuo (Lewin), pero no se ha dado a esta noción toda la extensión necesaria, en parte debido a los límites del campo de observación del que se dispone, pues la situación exis¬tencial bloqueada de la gran mayoría de nuestros contemporáneos restringe muy notablemente el radio de acción que puedan tener las drogas.

    De hecho, la “ecuación personal” debería ser tenida en cuenta por los que, debido a motivos de higiene social, combaten los estupe¬facientes con celo, viendo en ellos una causa de ruina moral.

    Estos deberían recordar lo que generalmente han reconocido los patólogos y neurólogos, a saber, que, en la mayor parte de los casos graves, el uso de la droga es menos una causa que el síntoma de una profunda alte¬ración, de un estado de crisis, de neurosis o de algo parecido en el su¬jeto (23). En otros términos, es una situación psíquica o existencial negativa, “encubierta” o patente, preexistente, la que empuja al uso de drogas como una solución efímera. Así se explica la ineficacia, en este género de casos, de terapias de desintoxicación simplistas, es decir, ex¬teriores, que olvidan el hecho psíquico primario; así se explica tam¬bién el carácter primitivo de las legislaciones represivas, más o menos, draconianas.

    Privado de la droga, el enfermo que no ha superado por ello su problema, recurrirá a otros medios para obtener más o menos el mismo resultado o se hundirá. Por otra parte, si la ley debiera prohibir todo lo que juega el papel de “estupefaciente” , en el sentido más ge¬neral del término, al hombre y a la mujer modernos, y a lo que sirve también de una manera más o menos brutal para obtener una evasión presentada como una “diversión” o algo semejante (se puede a este propósito referirse a todo lo dicho ya en el primer capítulo), haría falta suprimir una gran parte de lo que compone la existencia moderna y alimenta una industria particularmente desarrollada y agresiva.

    ..
    Para retornar a lo que decíamos, son la “ecuación personal” y la zona específica sobre la que van a actuar las drogas y los estupefa¬cientes (entre los que podemos incluir también el alcohol), los que conducen al individuo a una alienación, a una abertura pasiva a esta¬dos que le dan la ilusión de una libertad superior, de una embriaguez y una intensidad desconocida de las sensaciones, pero que en realidad tienen un carácter disolvente y que de ninguna manera le “llevan a otro lugar” . Para esperar de experiencias similares un resultado dife¬rente haría falta disponer de un grado excepcional de actividad espiri¬tual y tener una actitud contraria a la de hombre que las busca y las necesita para escapar a tensiones, traumatismos, neurosis, al senti¬miento del vacío y de lo absurdo.

    Hemos hablado de la técnica de la polimetría rítmica africana: una fuerza es detenida de una manera repetida en un paroxismo desti¬nado a liberar una fuerza de otro tipo. En el extatismo inferior de los primitivos ello abre la vía a una posesión ejercida por potencias oscu¬ras. Decimos que en nuestro caso, esta fuerza debería ser producida por la respuesta del “Ser” (del Sí) al estímulo. La situación creada por la acción de las drogas e incluso del alcohol es idéntica. Pero una reac¬ción de este género no se produce casi nunca: la acción de la sustancia es demasiado fuerte, brusca, imprevista y externa, lo que dificulta un control y una reacción del “ser”. Es como si una corriente poderosa se introdujera en la conciencia y que la persona pudiera solamente darse cuenta del cambio de estado que ya se ha producido sin poder dar su consentimiento; y en este nuevo estado uno queda sumergido, se es “arrastrado” . Es así que el efecto verdadero, aún cuando permanezca inadvertido, es un desfallecimiento, una lesión del Sí, a pesar de la impresión que pueda haberse tenido de una vida exaltada, de beatitu¬des y de voluptuosidades trascendentes.

    Para que el proceso siga otro curso sería necesario que, expre¬sándolo de una manera alegórica y muy esquemática, en el momento en que la acción de la droga libera una cierta energía X de forma exte¬rior, un acto del Sí, del “ser”, introdujera en la corriente una energía doble, que le perteneciera, X + X, y la mantuviera hasta el final. De manera análoga la ola, incluso imprevista, que golpea al nadador há¬bil, puede ser utilizada por él también para tomar impulso y supe-rarla. Entonces ya no habría hundimiento, lo negativo sería transfor¬mado en positivo, no se haría el papel de súcubo en relación al medio, la experiencia estaría en cierta medida “descondicionada” y no se desembocaría en una disolución extática, desprovista de toda verdade¬ra abertura más allá del individuo, y que solo se alimenta de sensa¬ciones. Sería, al contrario, posible, en ciertos casos, llegar a contactos con una dimensión superior de la realidad, a los cuales correspondían, como ya hemos dicho el antiguo uso, no profano, de las drogas. La ac¬ción nociva de estas quedaría .entonces ampliamente eliminada.

    Estas indicaciones parecerán seguramente muy singulares al lector ordinario que no puede referirse a ninguna experiencia personal para presentir de lo que se trata. Pero, una vez más, es el desarrollo mismo del tema lo que nos ha impuesto esta breve digresión. En efec¬to, no es más que teniendo en cuenta estas posibilidades, por inhabi¬tuales que sean, como puede llegarse a precisar convenientemente las antítesis necesarias, reconocer el punto en donde quedan neutraliza¬das ciertas “valencias” positivas que podrían presentar, en el mundo actual, los procesos de disolución y la evocación de lo elemental: las verdaderas soluciones sólo se ofrecen a un cipo de hombre diferen¬ciado, según las modalidades que ya hemos indicado aquí, de una ma¬nera muy general.
    CABALGAR EL TIGRE
    JULIUS EVOLA

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  5. Posted by Eliane on 24/08/2013 at 01:46

    Eu achava que os maçons fossem conservadores. Mas tenho muito interesse por esses assuntos e confesso que já fiquei em dúvida com algumas dessas teorias. Parece que depois do sucesso de Dan Brown, começaram a surgir muitos livros nessa linha. É como os títulos que se vê nas livrarias depois do sucesso de 50 Tons de Cinza…rs

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