Mais sobre moda e cultura

Em tempo, postado no dia seguinte: Vejam os comentários. Há polêmica e observações interessantes.

Saiu artigo de Marta Suplicy defendendo o incentivo fiscal para a moda, na Folha de hoje:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/126354-moda-e-cultura.shtml

Ia apenas registrar no Facebook, com uma breve nota. Mas o assunto tem nuances que demandam um comentário mais detalhado.

A questão não é incluir ou deixar de incluir moda – ou, como diz a ministra, “nossas milhares de confecções charmosas” – como modalidade artística. Discussão nesses termos é briga de corporações. O problema é outro: está tudo errado no campo dos incentivos fiscais para a cultura via Pronac ou Lei Rouanet. Autorização de patrocínio para empresários da moda é mais uma distorção que vem somar-se aos incentivos para show da Xuxa e inumeráveis outros que não precisavam disso, com patrocínios certos e renda garantida. Algo que seria corrigido através de um Plano Nacional da Cultura que parece ter sido obliterado de vez.

Moda pode ou não ser cultura. Depende da definição de cultura adotada. Tomando a definição mais ampla, como o conjunto da produção simbólica, tudo passa a ser cultura – e o Ministério da Cultura, um hiperbólico ministério de todas as coisas. Ou então, todo o governo seria cultural –  aliás, deveria ser. Museus da moda? Ótimo. Palestras, cursos de estética, sociologia e semiologia da moda? Que venham. Mas isso é uma coisa e patrocínio dos desfiles é outra. A ministra observa: “A cadeia produtiva da moda é gigantesca: dos botões aos zíperes. Das costureiras às fábricas têxteis. Das pequenas confecções aos ateliês dos famosos. Das vendedoras aos estilistas. São milhares de pessoas dinamizando a economia e criando empregos.” Sim – mas tudo tem cadeia produtiva, e faz muito tempo. A cadeia produtiva da moda inclui os bolivianos em regime de trabalho escravo costurando peças que depois seriam adquiridas por essas grifes – e todos continuariam fingindo não saber disso, se um grupo desses sub-proletários não tivesse sido assassinado por assaltantes, recentemente.

Baudelaire escreveu o elogio da moda e da maquiagem: para ele, manifestações do sumo bem por serem artificiais, em contraste com o natural, sempre mau. Mas sua argumentação continha uma crítica. Valorizou a diversidade, a expressão individual, em contraste com a uniforme sociedade burguesa. Chegou a pintar o cabelo de verde e a usar uma extravagante e enorme echarpe cor de rosa. Produzia-se. Foi um provocador. Ser um “dandy” era desafiar convenções, expressar rebelião.

Crítica. Rebelião. Desafio às convenções. Provocação. Categorias que gostaríamos de ver incorporadas aos apoios a manifestações culturais. Mas está cada vez mais difícil de acontecer.

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6 responses to this post.

  1. Posted by maria das graças dos santos on 29/08/2013 at 22:15

    Gostei muito do seu artigo. Arte é desafio às convenções, é o contrário do mundo da ostentação do ter, do aparecer, do desfilar portando estilos passageiros desta ou daquela “marca” de fabrica. E tem toda razão ao insitir no desafio que temos, qual seja , ode debater a prática urgente do Plano Nacional de Cultrua, que requer os outros em instancias estaduais e municipais. E outro aspecto é que a grande maioria do setor cultural brasileiro está reivindicando que a reforma da Lei Rouanet equipare, do projeto de lei ProCultura, os recursos destinados à renuncia fiscal aos que constituirão o Fundo Nacional de Cultura. Depois de quinze anos de lutas, debates, audiências publicas, seminários, conferencias e incontáveis encontros entre a comunidade cultural do país, o Governo e o Legislativo, não é justo que na reta final da reforma da Lei Rouanet a renúncia fiscal ganhe ainda mais espaço, beneficiando os pouquíssimos captadores de recursos que têm acesso à verbas das empresas privadas e estatais, fazendo da cultura um negocio, cujo objetivo é mais o lucro do que a promoção da cidadania cultura.

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  2. Este “incentivo á cultura” vem incentivando Xuxas que deveriam ser “desencentivadas”. Moda conceitual é uma coisa, desfile para vender mais aos mesmos outra. Ótimo vc tocar neste ponto e desmontar argumentos do tipo “fizemos isso pela cadeia produtiva.” Coisa nenhuma. Puro patrocínio de compadres das grifes. Enfim, esta ministra sempre foi perua!

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  3. O projeto de Brasil que tem a presente coalizão governamental sob o comando do PT é um no qual ribeirinhos, índios, camponeses, quilombolas são vistos como gente atrasada, retardados socioculturais que devem ser conduzidos para um outro estágio. Isso é uma concepção tragicamente equivocada. O PT é visceralmente paulista, seu projeto é uma “paulistanização” do Brasil. Transformar o interior do país numa fantasia country: muita festa do peão boiadeiro, muito carro de tração nas quatro, muita música sertaneja, bota, chapéu, rodeio, boi, eucalipto, gaúcho. E do outro lado cidades gigantescas e impossíveis como São Paulo. O PT vê a Amazônia brasileira como um lugar a se civilizar, a se domesticar, a se rentabilizar, a se capitalizar. Esse é o velho bandeirantismo que tomou conta de vez do projeto nacional.

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    • Posted by Geraldo Gilson de Camargo on 30/08/2013 at 15:15

      Acho que o Matheus jogou a água suja da bacia com criança dentro. O PT nasceu paulista e por acaso o PSDB não ?. A lei Roanet não é de nenhum destes governos, é anterior, porque esta demonização do PT. Acho discutiveis estes incentivos e acho que a Marta derrapou na curva mais uma vez, mas toda vez que visito os céus da periferia vejo os seus acertos.

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  4. A los niños perdidos
    En el gran cuerpo social del Imperio, en el gran cuerpo
    social del Imperio que tiene la consistencia y la inercia de una
    medusa varada, en el gran cuerpo social del Imperio que es
    como una enorme medusa varada con toda su redondez
    sobre toda la redondez de la Tierra, se han plantado electrodos,
    centenares, miles de electrodos, un número increíble de
    electrodos.
    De tipos tan diversos que incluso ya los hay que ni parecen
    electrodos.
    Esta el electrodo Tele, por supuesto, pero también el electrodo
    Dinero, el electrodo Farmacéutica y el electrodo Assistencialismo.
    Por medio de estos miles, estos millones de electrodos, de
    naturaleza tan diversa que he renunciado a contarlos, se mantiene
    el encefalograma plano de la metrópolis imperial.
    Por estos canales, imperceptibles para la mayoría, se emiten
    sin pausa las informaciones, los cambios de ánimo, los
    afectos y contra-afectos susceptibles de prolongar el sueño
    universal. Y notad que paso por alto todos los dispositivos de
    captura agregados a estos electrodos, sobre todo periodistas,
    sociólogos, policías, intelectuales, profesores y demás agentes
    de un incomprensible voluntariado al que se le ha delegado la
    tarea de orientar la actividad de los electrodos.

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  5. Muito bom seu texto.
    realmente, as barreiras fiscais e falta de incentivos são evidentes.

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