Piva e surrealismo, um trecho

Antecipando as manifestações dos dias 24 (Casa das Rosas) e 26 (Cemitério de automóveis), publico três parágrafos sobre Piva e surrealismo. São trechos de um artigo extenso que sairá em Portugal, agora em novembro, em Idéias – revista de cultura libertária. Essa revista equivale a um livro, com um dossiê sensacional sobre o surrealismo português, coordenado por Antonio Candido Franco (autor de O rumor da língua, entre outros bons ensaios). Claro que há mais – muito mais. Sobre esse “muito mais”, o que já divulguei aqui, o artigo em Eutomia, tratando de poetas malditos e da relação de Piva com Dante e a Divina Comédia: http://www.repositorios.ufpe.br/revistas/index.php/EUTOMIA/article/view/244 E também a transcrição da palestra de 2010, examinando-o como poeta-leitor: http://novaserie.revista.triplov.com/numero_02/claudio_willer/index.html . Isso, além de um ensaio bem minucioso, também sobre Piva e surrealismo, que deve sair no começo de 2014 em uma coletânea da UNESP/FAPESP (ou algo assim).

Os três parágrafos em Idéias:

Na década de 60 reaparece a identificação de poetas brasileiros com o surrealismo. O que houve nesse período da nossa literatura obriga a rebater a idéia de um surrealismo tardio, o “tardosurrealismo”. Vistas do século 21, coordenadas temporais tornam-se relativas. Mário Cesariny e seus companheiros promoveram agitações em Portugal uns dez ou quinze anos antes de nos movermos nessa direção – e até depois: as reuniões no Café Gelo foram até 1963, quando já fazíamos anarquia por aqui. Ao lermos Le Surrealisme Même e La Brèche (onde seríamos resenhados, Sérgio Lima, Roberto Piva e eu, em 1965[1]), ao comprarmos os volumes da Oeuvre Complète de Artaud à medida que saíam pela Gallimard, éramos atualizados e não atrasados. Até hoje, promover a leitura de La Liberté ou l’amour! de Robert Desnos ou Sens-plastique de Malcolm de Chazal é trazer à tona o que o Brasil desconhece; o novo, independentemente da publicação originária.

Já foi observado o caráter negativo do conjunto de 20 ou 30 poetas que figuram como Geração 60 em São Paulo: nem acadêmicos, nem concretistas, nem de orientação nacional-populista. Nada de estranho que o mais radical deles, Roberto Piva (1937-2010), mostrasse a poesia mais impregnada de surrealismo, desde Paranóia (Instituto Moreira Salles, 2000 e 2009; primeira edição, Massao Ohno, 1963). Tal radicalidade já havia sido expressa em 1962, nos manifestos distribuídos em folhas de mimeógrafo (publicados nas Obras Reunidas da Globo Livros, três volumes de 2005 a 2008): “Nós nos manifestamos contra a aurora pelo crepúsculo, contra a lambreta pela motocicleta, contra o licor pela maconha, contra o tênis pelo Box” e também “contra a mente pelo corpo” e “contra a lógica pela Magia”. São o marco inicial no Brasil de uma relação com surrealismo, não apenas no plano da realização artística, mas da discussão da relação entre poesia e sociedade.

Piva classificou Paranóia como “beat-surreal”. O termo pode ser estendido ao restante da sua obra. Sua expressão foi através de imagens surrealistas. E seu intertexto é beat: já em Paranóia, apropriara-se de passagens de Allen Ginsberg e Gregory Corso; em obras subseqüentes, avançaria sobre o que haviam escrito Michael McClure, Gary Snyder, Jack Kerouac e Philip Lamantia. Surrealismo e beat foram as duas grandes rebeliões poéticas do século 20. Suas relações foram complexas a ambivalentes. Pode-se afirmar que a confluência veio a ocorrer na poesia de Piva.


[1] Le surréalisme a São Paulo, nº 8 de La Brèche – Action Surréaliste, novembro de 1965.

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2 responses to this post.

  1. Posted by John Williams B. on 17/09/2013 at 19:37

    Ao ler este trecho do ensaio fiquei completamente atordoado e com vontade de ler o Piva, como tenho os tres volumes citados no texto vou degustá-los a partir de hoje, sempre anotando tudo que for de importante, pois, gosto da ideia de criar minha visão a partir da primeira leitura, seu texto é divino Cláudio Willer!!!

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