Mais poemas de Piva, a propósito de 25/09

Após a leitura de inéditos dele ontem, na Casa das Rosas, mais manifestações amanhã, no Cemitério de Automóveis. Comparecerei e lerei algo. Hoje, em que seria seu aniversário, Elizabeth Lorenzotti postou um dos poemas de Estranhos sinais de Saturno. Reproduzo, e acrescento outro do mesmo livro. Complementam-se – um sombrio (e muito atual) e outro luminoso (também atual). Ao final, breve comentário meu.   

BILHETE PARA BIVAR

hoje é o dia que os
          anjos descem nas
          catacumbas de cimento
sem o aviso das
          máquinas de empacotar
sem saltar sobre
          caramanchões de poluição
disseminando comportamento
           de Lacaio
é o momento do
           último homem
o que dura mais
           tempo
é o tempo do crime
           & sua prova
a caveira que ri
           na noite vermelha
a explosão demográfica
& a fome a galope
é o Sol mudo a
Lua paralítica
Drácula janta na
            Esquina

E para que ser poeta
             em tempos de penúria? Exclama
             Hölderlin adoidado
assassinos travestidos em folhagens
hordas de psicopatas
              atirados nas praças
enquanto os últimos
              poetas
perambulam na noite
              acolchoada

 

MOSTRA TEU SANGUE, MÃE DOS ESPELHOS

o mistério lunar da menina
                          lésbica
linda como um nenúfar
com seu nome de pássaro
levando na mochila
                      AS CANÇÕES DE BILITIS
uma coruja no ombro
& no sangue os gritos
                    dos náufragos de outrora

 Piva relatou-me a gênese desse poema. Viu no metrô as duas moças abraçadas, uma delas com a coruja tatuada no ombro e o livro de Pierre Louïs na mochila. Imediatamente, escreveu-o . Ficou muito satisfeito por sua inclusão em uma antologia de poesia brasileira dos primeiros anos deste século. É a “iluminação profana” do Piva “flâneur”, que sabia muito bem que “nenhum rosto é tão surrealista quanto o rosto verdadeiro de uma cidade”, como havia dito Walter Benjamin. Contrapõe-se à visão sombria da cidade do outro poema. Ambivalência, dupla face do real.

Anúncios

4 responses to this post.

  1. Lindos os dois poemas e seu comentário sobre o Piva flâneur e o rosto surrealista das cidades. bjs!

    Responder

  2. Posted by elizabeth lorenzotti on 25/09/2013 at 21:57

    “nenhum rosto é tão surrealista quanto o rosto verdadeiro de uma cidade”, que maravilha isso do Benjamin.. E poetas também são repórteres do seu tempo. Muito bonito post.

    Responder

  3. Demais! Valeu a lembrança do meu querido amigo e sua poesia arrasadora.

    Responder

  4. ”E para que ser poeta
    em tempos de penúria?”
    (…)

    .¿y para qué poetas en tiempos de penuria?

    Hölderlin contesta humildemente a través de la boca del amigo poeta, Heinse, a quien interpelaba la pregunta:

    Pero ellos son, me dices, como los sagrados sacerdotes del dios del vino,

    que de tierra en tierra peregrinaban en la noche sagrada.

    Los poetas son aquellos mortales que, cantando con gravedad al dios del vino, sienten el rastro de los dioses huidos, siguen tal rastro y de esta manera señalan a sus hermanos mortales el camino hacia el cambio. Ahora bien, el éter, único elemento en el que los dioses son dioses, es su divinidad. El elemento éter, eso en lo que la propia divinidad está todavía presente, es lo sagrado. El elemento del éter para la llegada de los dioses huidos, lo sagrado, es el rastro de los dioses huidos. Pero ¿quién es capaz de rastrear semejante rastro? Las huellas son a menudo imperceptibles y, siempre, el legado dejado por una indicación apenas intuida. Ser poeta en tiempos de penuria significa: cantando, prestar atención al rastro de los dioses huidos. Por eso es por lo que el poeta dice lo sagrado en la época de la noche del mundo. Por eso, la noche del mundo es, en el lenguaje de Hölderlin, la noche sagrada.

    Forma parte de la esencia del poeta que en semejante era es verdaderamente poeta el que, a partir de la penuria de los tiempos, la poesía y el oficio y vocación del poeta se conviertan en cuestiones poéticas. Es por eso por lo que los «poetas en tiempos de penuria» deben decir expresa y poéticamente la esencia de la poesía. Donde ocurre esto se puede presumir una poesía que se acomoda al destino de la era. Nosotros, los demás, debemos aprender a escuchar el decir de estos poetas, suponiendo que no nos engañemos al pasar de largo por delante de ese tiempo que –cobijándolo- oculta al ser, desde el momento en que calculamos el tiempo únicamente a partir de lo ente, desde el momento en que lo desmembramos.

    Martin Heidegger
    http://www.heideggeriana.com.ar/textos/rilke.htm

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: