Manoel de Barros

Dois autores brasileiros aos quais sinto que devo pesquisas e ensaios: Campos de Carvalho e Manoel de Barros. Sobre Campos de Carvalho, disse algo em um curso sobre poesia e prosa, este ano. Sobre Manoel de Barros, acabou de sair artigo: “O valor literário: Manoel de Barros”, Anais do 1º Encontro Estadual de Literatura em Mato Grosso do Sul, Samuel  Xavier Medeiros, org., Campo Grande: União Brasileira de Escritores.

A seguir, algo de sua poesia. O primeiro dos poemas, li e sugeri como epígrafe das quintas-feiras poéticas de Paulo Sposati Ortiz na Casa das Rosas, em uma sessão sobre “oficineiros willerianos”, em julho deste ano.

 

No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá onde a
criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não funciona
para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo, ele
delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz de fazer
nascimentos —
O verbo tem que pegar delírio

Respeito as oralidades

Não oblitero moscas com palavras.
Uma espécie de canto me ocasiona.
Respeito as oralidades.
Eu escrevo o rumar das palavras.
Não sou sandeu de gramáticas.”

O mundo não foi feito em alfabeto. Senão que 

primeiro em água e luz. Depois árvore. Depois 

lagartixas. Apareceu um homem na beira do rio. 

Apareceu uma ave na beira do rio. Apareceu a

concha. E o mar estava na concha. A pedra foi 

descoberta por um índio. O índio fez fósforo da 

pedra e inventou o fogo pra gente fazer bóia. Um 

menino escutava o verme de uma planta, que era 

pardo. Sonhava-se muito com pererecas e com 

mulheres. As moscas davam flor em Março. Depois 

encontramos com a alma da chuva que vinha do lado 

da Bolívia – e demos no pé. 

(Rogaciano era índio guató e me contou essa cosmologia).

Manoel de Barros, assim como muitos outros poetas é um fingidor (como dizia Fernando Pessoa). Finge-se de ingênuo, uma vez ou outra; enorme conhecedor da poesia como é, percebemos que estamos diante de um erudito, um erudito literário que dialoga com Baudelaire, Rimbaud, Homero e os clássicos, ao mesmo tempo em que dialoga com o índio guató a que ele se refere, bem como a todos aqueles marginais, aqueles andarilhos de beira de estrada que ele traz para seus textos e que também são reais.

(E sei de Baudelaire que passou muitos meses tenso porque não encontrou um título para os seus poemas. Um título que harmonizasse os seus conflitos. Até que apareceu Flores do mal. A beleza e a dor. Essa antítese o acalmou.)

As antíteses congraçam. (p. 340)

Vejam que belo exemplo de metalinguagem, as antíteses congraçam.

 

Anúncios

4 responses to this post.

  1. Pra variar, adorei!

    Responder

  2. Posted by maria das graças dos santos on 04/10/2013 at 13:53

    O mundo não foi feito em alfabeto.
    Senão que primeiro
    em água e luz.
    Depois árvore.
    Manoel de Barros

    Manoel de Barros é autor de nadas; É abridor de amanhecer e guardador de águas . Adoro achar morada em seus desvãos. É certo o que você assinala: tudo que diz é visivelmente falso, do eruditismo, do barroco, à prosa de um Guimarães Rosa … adoro até os coloquialismos mais apelativos ….Fico até meio aparvalhada com a simplicidade dele…

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: