Manoel de Barros, mais

Postagens de poesia neste blog resultarem em várias centenas de acessos, isso aumenta minha confiança nas chances da espécie humana (é um dos meus bordões prediletos, uso também em eventos de poesia com um bom público)

Meu artigo sobre Manoel de Barros: como os anais do encontro literário no qual foi publicado têm circulação restrita, resolvi publicá-lo também no Acadermia.edu. Está em http://www.academia.edu/4676460/Manoel_de_Barros_novo – ou http://independent.academia.edu/ClaudioWiller

Adiciono. No artigo fiz uma comparação de Herberto Helder e Manoel de Barros a propósito de repetições:

Helder, um contemporâneo português, tem uma série de poemas chamada “Lugar Último”, em que desafia todas as regras do bem escrever. Faz o oposto da escrita instrumental, exibe aquilo que seria a escrita mais errada possível, mas ao mesmo tempo fortemente poética. Por exemplo:

        e agora

         o meu amor é puro puro louco louco.

          E o que dorme dorme

          do que é forte.

Ele quebrou a lógica, “o que dorme dorme do que é forte”, e fica repetindo a mesma palavra. Ou então:

         […] e Deus

         fale de em mim no puro alto da carne.

          E uma onda e outra onda e outra e outra

          e outra

          onda e onda”

É estimulante. Vejamos a imaginária resposta de Manoel de Barros, não sei se ele lê Herberto Helder, ou vice versa, mas vejam o que responde Manoel de Barros: “repetir, repetir até ficar diferente; repetir é um dom de estilo” Essa ideia de que poesia é metalinguagem, de que todo poema expressa ou manifesta uma poética, acho que acabei de exemplificar agora ao colar esse trecho de Manoel de Barros sobre Herberto Helder. Um repete e o outro diz: o negócio é repetir. São as escritas do avesso, que restituem à palavra sua identidade.

Pois bem: depois de entregar o artigo, lembrei-me de um trecho de Quatro quartetos de T. S. Eliot: “Tu dirás que estou a repetir / Algo que já disse antes. Di-lo-ei de novo. / Di-lo-ei de novo?”. Em seguida, aquela quase transcrição de San Juan de la Cruz,

     Para chegares aonde estás, para saíres de onde não estás,

            Deves seguir por um caminho onde não há êxtase,

    Para chegares ao que não sabes

            Deves seguir por um caminho que é o da ignorância.

     Para possuíres o que não possuis

            Deves seguir por um caminho da despossessão.

      Para chegares ao que não és

            Deves seguir por um caminho onde não estás.

        E o que não sabes é a única coisa que sabes

        E o que possuis é o que não possuis

        E onde estás é onde não estás.

Ironia, ao mencionar o repetir-se, para em seguida transcrever outro poeta. Gênio.

Adiciono mais – o trecho sobre Manoel de Barros do meu artigo sobre poetas da natureza que saiu na revista Celuzlose:

Ainda a propósito de surrealistas, ou dos poetas brasileiros com maior afinidade com o surrealismo, o pensamento analógico e a sacralização do natural reaparecem em Manoel de Barros. É um poeta do microcosmo, das pequenas coisas. E, assim como os místicos, herméticos e neo-platônicos, enxerga o universo em cada coisa; o alto no baixo, o maior no menor. Outro poeta com relação ao qual “Correspondências” de Baudelaire serve como paradigma.

Por exemplo, em O Guardador de Águas:

[…]

Nas brisas vem sempre um silêncio de garças.

Mais alto que o escuro é o rumor dos peixes.

Uma árvore bem gorjeada, com poucos segundos, passa a

fazer parte dos pássaros que a gorjeiam.

Quando a rã de cor palha está para ter – ela espicha os

olhinhos para Deus.

De cada 20 calangos, enlanguescidos por estrelas, 15 perdem

o rumo das grotas.

Todas estas informações têm uma soberba desimportância científica – como andar de costas. (idem, p. 253)

E, de modo quase expositivo, didático, também desdobrando ou multiplicando correspondências, em O livro das ignorãças, na parte intitulada “Mundo pequeno”:

O mundo meu é pequeno, Senhor.

Tem um rio e um pouco de árvores.

Nossa casa foi feita de costas para o rio.

Formigas recortam roseiras da avó.

Nos fundos do quintal há um menino e suas latas maravilhosas.

Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas com aves.

Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os besouros pensam que estão no incêndio.

Quando o rio está começando um peixe,

Ele me coisa

Ele me rã

Ele me árvore.

De tarde um velho tocará sua flauta para inverter os ocasos. (idem, p 315)

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2 responses to this post.

  1. Grande Willer, muito bom ver sua ligação com o Manoel de Barros. Lembro de quando lendo Fausto Wolff fui vendo a relação dele com o Manoel de Barros e isso de certa maneira fazia com que me aproximasse dos dois. Estou sentindo algo semelhante agora, me sinto mais próximo do Manoel e de você, dois poetas que leio e admiro. Abraço!

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