Biografias e assombrações

É meu artigo que saiu hoje, 30/10, no Correio Braziliense. Página de internet do jornal só permite acesso de anunciantes, por isso reproduzo o arquivo em word. Que coisa, havia-me esquecido do exemplo mais expressivo para ilustrar essa fobia dos biografados: O retrato de Dorian Gray de Oscar Wilde – obras na qual, justamente, se encontram os dois temas, do duplo ameaçador e do espelho.

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Biografias e assombrações

Claudio Willer

Que estrondoso tiro pela culatra deram os integrantes do movimento “Procure saber”, através da desastrada porta-voz secundada por um coral de declarações titubeantes, algumas delirantes, da plêiade de artistas. Transformarão o Brasil em um país de leitores de biografias. Não sabem que a censura estimula o interesse pelo censurado? Que o recalcado volta com mais força? Que as vendas de Howl and other poems (Uivo e outros poemas) de Allen Ginsberg dispararam após o processo por obscenidade de 1957? Que gerações quiseram ler D. H. Lawrence e Henry Miller para saber o que havia desencadeado a fúria puritana? A divulgação em meu blog do depoimento de Domingos Pellegrini sobre Paulo Leminski bateu um recorde de acessos. Meu artigo de 2008 sobre a proibição da biografia de Guimarães Rosa por Alaor Barbosa (e sobre Lorca por Ian Gibson, Joyce por Richard Ellman etc) voltou a ter leitores.

Autorização para publicar biografias, assim como tutela antecipada, impedindo circulação: aberrações inexistentes em países civilizados. Atingem a produção do conhecimento. Não se trata apenas dessa ou daquela personalidade da literatura, artes ou política; mas de informação histórica, sociológica, sobre a vida. Pois já não houve herdeiros sequiosos que interferiram em pesquisas legitimamente acadêmicas?

Biografias podem ser de má qualidade, com equívocos, distorções? Que a crítica se manifeste. Podem ofender? Que ofendidos recorreram á justiça. O judiciário é lento? A pior solução, criar leis esdrúxulas.

Como o jogo parece definido, quero avançar. Examinar contrapartidas literárias da polêmica sobre biografias. São os doppelgänger, os duplos romântico dos relatos de E. T. A. Hoffmann, Von Chamisso e tantos outros. Receberam um tratamento de especial brilho através do “William Wilson” de Edgar Allan Poe, publicado em 1839. A história do jovem aristocrata, vítima de alguém idêntico – ao ganhar um jogo e ser denunciado como trapaceiro, ao ser impedido de seduzir uma mulher maravilhosa. Mata o “absoluto na identidade”: descobre que também se matara. Diz-lhe o duplo: “Em mim tu existias… e vê em minha morte, vê por esta imagem, que é a tua, como assassinaste absolutamente a ti mesmo”.

Outra história famosa de duplos, dessa vez não idênticos, porém opostos, é a do médico e o monstro, O estranho caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde de Robert Louis Stevenson, publicada em 1886. Com um final igualmente sanguinolento: o duplicado, ao destruir o duplo, dá fim a si mesmo. Mais uma variação sobre o tema, literariamente poderosa: O duplo de Dostoiévski, de 1846. Sincrônica àquela de Poe, mas protagonizada por um burocrata e não um aristocrata: o alterego o prejudica até levá-lo à destruição.

Duplos, o outro eu, foram, mais que tema, uma obsessão de Jorge Luis Borges. Assim como espelhos – abomináveis, disse, desde sua História universal da infâmia, por duplicarem a realidade. Julio Cortázar também escreveu contos esplêndidos com duplos.

Sua matriz, penso, está em Shakespeare, no Caliban que não suporta ver-se no espelho, em A tempestade. Contém ensinamentos que os membros do “Procure saber” desconhecem. Inspiraram a Freud o ensaio famoso, Das Unheimliche – que pode ser traduzido como “estranho”, “insólito”, “sinistro”. Categoria-chave para entender sua marcante presença literária, recorrendo à psicanálise: o narcisismo. São histórias de pessoas centradas em si, incapazes de estruturar o ego e relacionar-se com o mundo. Simbolicamente, os artistas que se puseram em evidência, de modo tão desfavorável, querem controlar suas imagens e o restante, o mundo todo. Os sucessores, pior ainda: o ilustre antepassado, agenciado ou representado, é uma pessoa interposta, através da qual buscam reduzir sua irrelevância.

Que vão todos bater á porta dos psicanalistas e outros terapeutas. Resolvam seus problemas de identidade, seu narcisismo, neuroses e fobias, sem impedir o trabalho de pesquisadores; sem criar transtornos a autores e editores; sem nos sonegar informação.

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4 responses to this post.

  1. Pessoal do Procure Saber já está voltando atrás, foi divulgado um vídeo com explicações, o primeiro, acho que vem mais por aí, Caetano e Chico talvez tenham sido guardados para a explicação final. Obra de assessorias de imprensa. Foi ótimo vc evocar o duplo do romantismo, associado às relações antagônicas da identidade.O narcisismo realmente exige biografias cheias de virtudes, nenhum defeito, nenhum vício pode aparecer. As imagens devem ser preservadas a qualquer preço. Reação dos biografados muitas vezes é paranoica, tudo é perseguição, querem retratos sempre ilustres. Bom artigo, na mosca, bjs.

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  2. Espelho espelho meu………os meninos velhos que não crescem nunca. Muito bom!

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  3. Concordo com tudo que foi dito, Cláudio. Que a associação Procure Saber tenha reagido por um “instinto de autodefesa desenvolvido por quem sofreu demasiadas vezes a violência do uso ilegítimo da palavra escrita”, como disse Caetano, eu até acho possível; mas como acreditar que a proibição de biografias não autorizadas seja uma solução? Honestamente, daqui para frente ler uma biografia sobre qualquer um desses artistas será um exercício de curiosidade ainda maior…

    Sobre os livros, o que me veio à cabeça quando todos começaram a falar sobre o assunto foi “A verdadeira vida de Sebastian Knight”, do Nabokov. 🙂

    Mais um ótimo texto!

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