Jack Kerouac, o biografado

Ao final de O livro de Jack, recém-publicado em edição brasileira (Globo – Biblioteca Azul), a bibliografia, a relação dos títulos que constituem sua extensa obra. São vinte e seis. Há mais, a lista está incompleta. Contudo, a quantidade de biografias e ensaios biográficos sobre o porta-voz beat é ainda maior. Só aqui, em minha estante, tenho sete.

É compreensível – não só pelo impacto de On the Road e outras de suas narrativas, mas por serem autobiográficas. Ou melhor, serem e não serem – há omissões, histórias contadas pela metade, alguma ficcionalização. Daí despertar tamanho interesse, desde o trabalho pioneiro, e que continua valendo, de Ann Charters, trazendo à luz o que houve entre Jack, Neal e Carolyn Cassady, Luanne Henderson– o “quadrângulo amoroso”, como é dito em O livro de Jack – ou pentágono, adicionando Allen Ginsberg, ou alguma figura geométrica ainda mais complexa. A mais completa dessas biografias continua sendo Memory Babe de Gerard Nicosia. Recentemente foi lançada no Brasil Jack Kerouac – King of the Beats de Barry Miles (pela José Olympio) – é um especialista, também biografou Ginsberg e Burroughs.

Daí, no prefácio mais recente de O livro de Jack, de 1912, Barry Gifford comentar biografias:

“Em carta para Arnold Zweig, datada de 30 de maio de 1936, Sigmund Freud escreve: “Para ser biógrafo, você precisa ocupar-se de mentiras, acobertamentos, hipocrisias, falsidades e mesmo apagar sua falta de compreensão, pois a verdade biográfica é impossível e, se a ela chegássemos, não poderíamos utilizá-la… A verdade não é possível, a humanidade não a merece…” […] Foi Allen Ginsberg, amigo de longa data de Jack, que disse, tendo terminado de ler as provas ainda não revisadas do volume: “Meu Deus, é como o Rashomon – todo mundo mente, e a verdade vem à tona!” […] Kerouac não tinha atributos divinos, nem O livro de Jack foi pensado para ser a hagiografia de um ser inatingível. […] A despeito do dr. Freud, há, sim, uma espécie de verdade a ser encontrada aqui.”

Se fosse no Brasil, ou, pior, se o mundo seguisse o Brasil, e se a família Sampas (sucessores de Kerouac) perfilasse no ‘Procure saber’, obviamente O livro de Jack e boa parte do restante da bibliografia kerouaquiana jamais teria chegado aos leitores. Autores como Barry Miles e tantos outros amargariam o ineditismo ou teriam que escrever sobre outra coisa. A pergunta sobre a verdade, suscitada pelo confronto de opiniões de Freud e Ginsberg, permaneceria eternamente sem resposta – ou sequer haveria como formulá-la.

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3 responses to this post.

  1. Posted by Vince on 05/11/2013 at 17:57

    Quando começou essa história do ‘Procure Saber’ eu lembrei logo do debate em que você e o Barry Miles falaram sobre o livro dele. Esse texto é para aquecer os motores para quinta, né? Com certeza, esse tema virá a tona, nem tem como ser diferente.

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  2. Posted by maria das graças dos santos on 05/11/2013 at 20:33

    Não li seu livro Geração beat… agora lerei…

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  3. As biografias são uma tessitura de verdade e ficção, nenhum artista/ autor resiste a romancear um pouco a história. O que não significa que não existe um esqueleto de verdades.

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