A BUROCRACIA

Alastra-se. Exemplos, de uma lista que poderia ser bem mais extensa:

  1. Outro dia assinei contrato com editora, pediram-me que mandasse de volta com firma reconhecida. Estranhei, esclareceram que agora é exigência do MEC e outros órgãos públicos. Quando compram livros, o editor tem que mostrar o contrato com as assinaturas autenticadas. E o reconhecimento de firma, banido em uma das tentativas de desburocratização, vai retornando. Cartórios – instituição brasileira – agradecem.
  2. Algo que simplifica, nas autorizações mais simples de publicação, em contratos para dar palestras etc, é colar assinatura digitalizada ao arquivo e enviá-lo anexado ao e-mail. Não na Biblioteca Nacional: autorização de publicação – pela qual, nesse caso, não recebo nada –, vale se assinatura for de próprio punho. Se coincidir com greve dos correios, complica. Nada de dar tréguas ao desperdício brasileiro de papel.
  3. Em um município do Grande São Paulo, reformaram administração. Contratações foram centralizadas no departamento de suprimentos. Resultado: Secretaria de Cultura não consegue contratar ninguém, enfrenta toda espécie de dificuldades, chegarão ao fim do ano com verbas para exercício findo, como se não tivessem feito nada.
  4. Em outro município próximo a São Paulo, centralizam comunicações em uma Secretaria de Comunicações. Nem aí para a cultura, têm coisas mais importantes para tratar. Resultado: organizador do evento literário dardejando mensagens pelo Facebook, na tentativa de divulgar. Tive um terço do público que poderia ter vindo, calculo. Desperdício, inclusive do meu cachê.
  5. Outro dia, em uma cidade importante, com vida cultural ativa: organizadora da festa literária, parcialmente subvencionada pela prefeitura local, comentou que atender às exigências para que a subvenção saísse lhe deu mais trabalho que a organização do evento em si.
  6. Universidades e seus órgãos de fomento também têm procedimentos lindinhos. Quando você é transportado, tem que guardar o ticket de embarque e mandar de volta. Como se, comprovadamente, não houvesse estado lá. Outros órgãos públicos também pedem.
  7. Florianópolis, 2011: convidado, com outros autores, para dar palestra. Lá é assim: quem receber, for remunerado, tem que se cadastrar para recolher tributo local. Uma repartição, pomposamente denominada de centro da cidadania, assistência ao cidadão ou algo assim, cheia de gente, pode-se perder a manhã. É receber senha, aguardar chamada, entrar em uma sala cheia de funcionários, cada qual na frente de um monitor e um teclado. Examinam seus documentos e digitam seus dados, CPF, RG e tal. Fazem que computadores desempenhem mesmo serviço de máquinas de escrever. Aí, você vai ao guichê do banco instalado na repartição, paga o tributo e volta, mostra o comprovante; só então o liberam. Formulário on line, nem pensar, não acreditam que você exista se não comparecer pessoalmente. Menos ainda, quem te contratou cuidar disso e recolher o tributo. Modernizaram: dei palestra lá em 2005, não era assim. Soube que outras municipalidades vêm adotando o mesmo procedimento. Muito lógico: se não fosse assim, o que fazer com todos aqueles funcionários? Como ocupá-los?
  8. Alguns agentes públicos têm lances de gênio. Um deles – em um dos eventos recentes do qual participei – perguntou à coordenadora o motivo de trazerem conferencistas de fora, de outro país. Pediu justificativa por escrito da contratação de estrangeiros no lugar de brasileiros. O famoso excesso de zelo. Também faz parte da lógica da burocracia. Funcionários se preocupam em salvar o pescoço ou a cauda. Melhor errar por excesso, que no máximo resulta em reclamação verbal, do que por omissão, que pode render processo administrativo, prejudicando-lhe a carreira.
  9. Prefeitura de São Paulo, e muitas outras: se você propõe contratação de alguém, tem que justificar – não basta mostrar currículo (que exigem assinado, e se deixassem, pediam para reconhecer firma…). É claro que qualquer coisa escrita serve, não vão entender mesmo, é só para constar.

É circular: um complexo sistema de fiscalização da arrecadação de tributos cuja receita servirá para cobrir o custo desse complexo sistema de fiscalização da arrecadação de tributos. Ineficaz, por ser formal, fiscalização incidir sobre atividades-meio e não sobre a atividade-fim. Há pior, é claro. As pesquisas que atrasam ou são interrompidas à espera de guias de importação. A dificuldade de montar exposição com obras vindas de fora. A demora para abrir e fechar empresa. As transmissões e sucessões, o trabalho que dá para morrer, e não só para viver. Que a ensaísta Susan Sontag me desculpe por usar doença como metáfora – ela escreveu livro a respeito – mas a comparação é mesmo com metástases, bactérias resistentes ou vírus que proliferam. Todos estão cansados de saber que isso atrasa o país, que gera desperdício de recursos, o qual, por sua vez, resulta em sobrecarga tributária. Incomoda-me uma quantidade de pessoas conferirem estatuto de realidade ao absurdo, achando isso normal e que a vida é assim mesmo. De vez em quando, simplificam algum procedimento – mas, imediatamente, outro administrador iluminado inventa um novo modo de complicar.

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6 responses to this post.

  1. Posted by maria das graças dos santos on 12/11/2013 at 12:14

    No modelo burocrático weberiano, este tipo de situação não existiiria…Weber possui uma visão positiva da burocracia, considerando os agentes públicos como criativos e capazes de evitar a corrupção… o que você exemplifica ( e concordo) e que está em voga é o modelo gerencial, que incorpora a discricionariedade ao exercicio do burocrata.

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  2. O dilema não se resolve antepondo o modelo-Weber ao modelo-Magri, não importa o X e muito menos o Y. Brasil é um país fundado e administrado por um sistema de corrupção. De um modo ou de outro, todos nós já absorvemos a matriz, em menor ou maior escala. Todos negociamos com o que temos: a Roseta tosca, deformada, uma sobra de crença de que o futuro nos pertence. Paulistanos se espantam com as fraudes de administração pública na Sampaulândia. Não fazem a menor ideia do expediente, quando menos equivalente, das demais cidades brasileiras. São Paulo ajuda a piorar o quadro, pois nunca se preocupou com uma vírgula que fosse além de seu metro quadrado de presunçosa alegoria nacional. Abraxas

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  3. Falou e disse!

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  4. Burrocracia. Kafka (“O castelo”, “O processo”) estava certo…

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  5. […] de outra postagem. Esta: https://claudiowiller.wordpress.com/2013/11/12/a-burocracia/ . Havia observado que o relato de absurdos poderia estender-se. Estendo-o. Agora, algo sobre […]

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  6. Posted by roberto bicelli on 26/02/2015 at 10:49

    já houve um ministério da desburocratização. faliu?
    deveria voltar como secretaria e ter poder pra acabar com essa hedionda palhaçada.

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