Aldo Pellegrini, o grande poeta surrealista argentino, é publicado no Brasil

Em comum a usuários de drogas e leitores de poesia de qualidade: para achar bons produtos, é preciso ter conexões, bons contatos. A observação, em uma entrevista recente, foi a propósito das editoras à margem do mercado como a Sol Negro de Márcio Simões, de Natal, RN, – com o luminoso III novelas exemplares & 20 poemas intransigentes de Hans Arp e Vicente Huidobro, entre outros, noticiado aqui em https://claudiowiller.wordpress.com/2013/01/06/arp-e-huidobro-parceria-luminosa/ Da Nephelibata de São Pedro de Alcântara, SC. A Lumme, de Bauru, SP, com o provável melhor lançamento de 2013, Poesia reunida de Radovan Ivsic, também aqui em https://claudiowiller.wordpress.com/2013/05/29/mais-poesia-mais-radovan-ivsic/ Os novos poetas brasileiros pela Patuá, Dobra, Kazuá. O ensaio A arqueologia do resíduo: os ossos do mundo sob o olhar selvagem de Marcus Rogério Salgado, Antiqua, São Paulo: Flávio de Carvalho tratado como merece (voltarei a comentar).

Abulia da crítica e mercado: lançamentos como esses e, agora, dois livros de Aldo Pellegrini – Construção da destruição, poemas, tradução de Rodrigo Barbosa, e Sobre surrealismo, organização, tradução e prefácio de Floriano Martins, ambos pela Sol Negro, mais uma vez em edições visualmente sedutoras – terem como principal divulgação este blog (sorte de meus assinantes).

Com Aldo Pellegrini (1903–1973), chega a nós a grande poesia argentina do século 20. Inclui, além de Pellegrini, Enrique Molina, Alejandra Pizarnik, Francisco Madariaga, Oliverio Girondo (único com livro publicado aqui, Masmédula pela Iluminuras). Todos com imagens, tocados ou inspirados pelo surrealismo. Pioneiro, Pellegrini descobriu o surrealismo em primeira mão, em 1924. Em 1926, já lançava a revista Qué e liderava o primeiro grupo surrealista em língua espanhola. Além de outras publicações, fez com Molina e Madariaga a revista A partir de cero em 1952. Traduziu Lautréamont. Preparou antologias e publicou outros poetas, como Girondo. Muito apropriado o paralelo, por Floriano Martins, do pensamento de Pellegrini sobre poesia em Sobre surrealismo e aquele de Octavio Paz em O arco e a lira.

A seguir, dois excertos de Construção da destruição. Quem desejar mais, acesse http://solnegroeditora.blogspot.com.br/ .

 O LIMITE DO DIÁLOGO

Rua de duendes de primavera que atrai os homens sedentos e sacode sua poeira à direita das respirações, por um caminho de olhares furtivos, oh brancos seios, em que esquecimento de horas de perigo os encontrei?

Ardendo até que nos detém uma frágil muralha de calma, um despertar de ruídos e perfumes.

Já não quero retroceder nos caminhos, acossado pelas migrações das medusas.

Para o oriente as mãos apontam a partida do sol da gravidade.

Já não quero envelhecer nos hotéis carcomidos pelas proibições, onde os transeuntes se imobilizam envoltos em seu sonho enquanto os cipós crescem ávidos até a vertente dos pássaros.

Um mar distante e o próximo sangue travam o diálogo da frieza e do ardor. Os teatros estão desertos.

Os passos se afastam na solidão que tu respiras e os rostos balançam.

Os desconhecidos se saúdam profundamente até o limite da petrificação.

Aspirando a um retorno de outros climas em que a vegetação se acende e o desejo faz ferver sua surda potência até consumir-se a si mesmo sem chamas, sem cinzas.

Voracidade do hálito ao atravessar impávido o fosso que a tudo separa.

Estamos no limite do diálogo refugiados nos portais onde um sol sem esperança renuncia a iluminar a amarga quietude. Moendeiros da moleza suportando incrédulos a consagração da inocência.

Estamos no limite do diálogo, ali onde se alcança o coração do conhecimento. Assim se logra arrebatar sua mercadoria dos traficantes do mistério e da solidão, assim se afugenta os mercadores do silêncio.

OS PERIGOS DA DANÇA

 […]

Uma chuva de formas nascentes
restabelece o mundo dos objetos
tuas mãos chamam em vão para o coração das coisas
tuas mãos ávidas do dinheiro que compra a pureza

Tuas mãos ávidas do dinheiro que compra a beleza
hoje recolhem apenas o martírio do ar, a névoa das respirações
conserva no oco das mãos
o tempo de teu cansaço

Quando os olhares se consomem
quando se recolhem as coisas familiares em seu vazio e sua sombra
neste limite da terra onde as horas não passam
a espera
como um grande vento gelado te despoja.

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3 responses to this post.

  1. Bela notícia!! Vamos conhecer o Aldo Pellegrini!!

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  2. Ótima notícia!!! Grande abraço.

    Responder

  3. Quero conhecer a poesia de Aldo Pellegrini, são bem vindas as traduções de Floriano Martins e Rodrigo Barbosa. Tb gostei de saber que criou a revista Qué na Argentina e que havia um grupo surrealista organizado lá. Pensei, pelas informações que dispunha, que na América Latina ,como grupo surreal organizado no período, só houvesse o Mandrágora, do Chile, mas sempre se descobre mais.

    Responder

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