A Serra da Mantiqueira ameaçada

Artigo de hoje, 20/11, no Estadão. Comenta a devastação e defende a criação de um corredor ecológico, inclusive para garantir a sobrevivência de algumas espécies:

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,a-serra-da-mantiqueira-pede-socorro-,1098559,0.htm

Basta viajar pela Rodovia Presidente Dutra e imediação para ver o estado a que chegou. Ir a Campos de Jordão ou qualquer outro lugar na região serrana. Sobrevoar a Serra da Cantareira, reduzida a uma estreita faixa de mata.

Lideranças ruralistas dirão, mais uma vez, que defender preservação é conspiração internacional para enfraquecer o agronegócio, reduzindo nossa produção.

Serra da Mantiqueira é diretamente citada em dois poemas meus, publicados em Estranhas Experiências, que reproduzo a seguir. Indiretamente, implícita, em outros.

A CHEGADA

finalmente
      em um dia febril como este
      sol claro depois da chuva:
eu sou a umidade do ar
sou as cores do ar
sou o horizonte e todas as formas no horizonte
sou uma crista azulada de morros da Serra da Mantiqueira
sou o próprio ar
o som de um sino escondido no vale que logo soará ao longe
sou a terra molhada e as sensações que a própria terra tem por estar molhada
e um jardim, sou o meu jardim
e todos os demais jardins da rua
e a folha que se mexe ao vento
e a chuva e o sol claro após a chuva
e também sou aquela leitura de poemas em um auditório sombrio com umas cinqüenta pessoas extremamente atentas
sou a noite passada e suas vozes
por isso
                           estou aqui
                                          onde sempre quis estar

 

É ASSIM QUE DEVE SER FEITO (final)

(….)

túneis de borracha cega abrem-se para receber nossos corpos
                         armários em chamas rolam pelas escadarias
     um arco-íris tenta executar os passos finais de um balé
          ele tropeça e cai
          desabando sobre as encostas da Serra da Mantiqueira
          explodindo em um caleidoscópio de cores
          as montanhas racham-se
          fontes de água quente jorram contra as nuvens
     sobre um palco de cartolina azul sapateiam três dançarinas nuas
                         com suas botas vermelhas
     uma vitrola distante toca In a Silent Way de Miles Davis
          um montão de papel picado é jogado para o alto
               multidões rezam orações sem sentido
     um avião se transforma em gota d’água e fica suspenso no céu
os navios da noite chegam mais perto
          eles já dobram a barra do porto
               suas luzes piscam
                    já se ouve a música das festas nos conveses
duas mil lavadeiras
          batem peças de roupa em suas tábuas
                    em uma praia na margem direita do rio Araguaia
no fundo do quarto há uma porta
          ela se abre para uma escada de ferro em caracol
                                             pela qual descemos
     para penetrar no bojo deste cometa alucinado dos nossos corpos

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One response to this post.

  1. Lindo. E triste.

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