São Paulo e a gênese do desastre urbanístico

Meados da década de 1970, repressão justificada por um aparente milagre econômico brasileiro. Dois acontecimentos emblemáticos, que contribuíram para definir o que viria a ser da cidade. Um, a construção de um grande conjunto habitacional da COHAB em Itaquera, remoto extremo. Outro, o lançamento do Centro Empresarial São Paulo, junto à ponte João Dias. Em lugares diametralmente opostos. Pobres, o mais longe possível. Executivos e dirigentes de empresas, confortavelmente próximos das residências no Morumbi e bairros adjacentes.

Deu nisso. Neste inferno. Quem mora na Zona Leste, horas para ir ao emprego e voltar para casa. Quem trabalha no Centro Empresarial e outros aparentes paraísos de mau gosto para executivos, como os da Berrini, engolfado no trânsito, preso em congestionamentos insolúveis. Pior ainda para quem preferiu ir mais longe e acreditou nas utopias country, no aparente conforto dos condomínios fechados.

Terá sido lenda ou fato histórico o que contam sobre a visita a São Paulo de Fiorello La Guardia? Levaram o prefeito ítalo-americano de Nova York entre 1934 e 1945 ao ao topo do prédio mais alto, o recém-inaugurado Banco do Estado. Mostraram-lhe, de um lado, os cinzentos bairros industriais e proletários da Zona Leste, Mooca e Brás; de outro, a emergente Zona Sul, com bastante verde. “Ah, si, capisco!”, disse La Guardia aos cicerones. “Qui si lavora!”, apontou para a Zona Leste. “E qui si mangia!”, apontou para a Zona Sul.

Planejamento urbano, desde então, consistiu em esticarem cada vez mais os pólos identificados por La Guardia, sancionando a separação de classes. Não havendo como implantar muros ou cercas (bem que alguns gostariam) e sendo irrefreável a necessidade da sobrevivência, esse modelo urbanístico bipolar foi sendo, desde então, sistematicamente solapado. Surgiram os aglomerados do Real Parque, os Buraco Quente, os loteamentos clandestinos no entorno de Santo Amaro e das represas, as invasões da Serra da Cantareira, enfim, gente instalando-se onde desse.

Deixaram escapar chances de fazer uma cidade melhor. Prédios de escritórios e centros empresariais, por exemplo: chegou a ser cogitada, mais tarde, uma torre na região do Pari. Muito mais funcional: se empresas não cabiam no Centro Velho, que fossem para áreas próximas. Enquanto implantavam conjuntos habitacionais em zonas remotas, deixaram a Baixada do Glicério, logo aí, degradar-se cada vez mais. O Centro, que nunca foi grande coisa – São Paulo sempre foi feia, embora tenha belos ângulos e detalhes, muitos por obra do acaso – tornou-se um lixo. Hoje, procuram endireitar. O vazio entre a Água Branca, Lapa de Baixo, Barra Funda e Bom Retiro vai sendo ocupado. Fala-se em soterrar trens – providência tardia, deviam ter tentado na década de 1950, ou até mais tarde, no lugar do tenebroso Minhocão.

O problema não é apenas o desconforto provocado pelo trânsito. Esticar a cidade desse modo gera um custo. Serviços têm que ser igualmente esticados: mais obras viárias (empreiteiras e sua clientela na política e no serviço público agradecem), mais reparos nas vias já existentes, mais tubulações e fiações, mais equipamentos remotos ou pouco acessíveis. Uma conta pesada que pagamos sem perceber.

Gosto de morar em metrópole. Há oferta de bens e serviços. Programação cultural. Mais gente: maior chance de conhecer pessoas interessantes. Vida rural ou em cidade pequena me parece intoleravelmente tediosa – já testei e não gostei, não nasci para ermitão. Mas a vida nesta metrópole, aqui em São Paulo, sempre terá um travo de pessimismo ou desconfiança de que o estrago já feito é irremediável.

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3 responses to this post.

  1. Posted by Carlos Conte on 26/11/2013 at 19:39

    ótimo, willer! estou lendo “a espoliação urbana”, do lúcio kowarick, escrito nos anos 70, sobre o processo de periferização de são Paulo. problemas antigos, aparentemente sem solução. grande abraço!

    Resposta

  2. Posted by Daniel Gambín on 27/11/2013 at 22:57

    As suas opções entre a vida rural e a metrópole são duas caras da mesma moeda Willer, é resulta fácil entender a sua preferencia pelo rico ambiente caótico.
    São Paulo é desastre urbano sim, mas em termos de urbanismo a minha observação é de que no crescimento da cidade sempre reinou a espontaneidade, e que as ações urbanísticas, ainda carregadas de trabalhos técnicos e de deliberações sobre política urbana, nunca escaparam de essa hegemonia da espontaneidade. A explicação está em que a organização das pessoas e do espaço é algo cultural.
    Quando cheguei em São Paulo achei que era um rico laboratório de urbanismo e com o tempo entendi que os paulistas somos os cobaias.
    A outra observação é que São Paulo tem uma rica diversidade. Em todos os aspectos reúne pessoas e ambientes muito diferentes. Demasiado para considerar uma única cidade.

    Resposta

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